LOGINEduardo Soares O sol da manhã demorava a esquentar os lençóis de cetim do meu quarto na minha Fazenda Soares, mas eu já não conseguia pregrar os olhos. Estava deitado de costas, encarando o teto de gesso rebaixado, com as mãos cruzadas sob a nuca, matutando em silêncio. A raiva pela descoberta do dossiê e a fuga daquele investigador intrometido ainda fervilhavam no meu sangue, mas a minha mente sádica e obsessiva havia encontrado uma nova vertente, um alvo muito mais saboroso para concentrar as minhas energias: a Lorena. Como é que eu faria para quebrar o orgulho daquela mulher? Como destruir o castelo de cartas do casamento perfeito do Rafael Ventura? Eu já havia tentado a força bruta, ameaças indiretas e cartas de pressão que só fizeram a união deles se estreitar ainda mais. Não. A força nua e crua não funcionava com ela. O jogo agora precisava ser psicológico, sutil, venenoso. Depois de um longo tempo matutando, revirando cada detalhe na minha cabeça, uma ideia genial, maqui
Lorena Azevedo O salto do meu sapato estalava no piso de mármore do centro comercial de Belo Horizonte, marcando o ritmo do meu cansaço. Minhas pernas já protestavam de leve, mas quem disse que a Tati me dava descanso? Eu estava saindo da quarta loja de noivas daquela tarde ensolarada. Na verdade, na segunda boutique eu já tinha experimentado um modelo rendado que havia tocado o meu coração, mas a minha amiga e fiel escudeira insistia que precisávamos explorar todas as opções possíveis da capital. E, como era de se esperar da Tati, o gosto dela pendia sempre para o mais extravagante: saias armada estilo princesa de baile de gala, corpetes cravejados de cristais e caudas de três metros que mal caberiam na varanda da fazenda. — Amiga, esse aí? Nem pensa! — protestei aos risos, parando em frente à vitrine iluminada da quinta loja do nosso itinerário exaustivo. O manequim exibia um vestido volumoso, cheio de camadas de tule cintilante e um decote dramático que combinaria muito b
Rafael VenturaA tarde na Fazenda Ventura corria com uma serenidade que contrastava violentamente com a tempestade que se formava nos bastidores da minha vida. Eu conduzia a minha caminhonete devagar pelas estradas internas da propriedade, voltando de uma vistoria minuciosa na lavoura do Talhão 4.Desci do veículo, caminhei entre os pés de soja e verifiquei o resultado do tratamento fitossanitário. O veneno orgânico à base de extrato de nim e sulfato de cobre que aplicáramos dias atrás havia operado um verdadeiro milagre agronômico. As manchas amareladas sumiram, as folhas estavam verdes, viçosas, com brotações firmes e sadias que prometiam uma safra recorde. Nenhuma praga, nenhum imprevisto. Pelo menos na terra, a lei da natureza respondia com justiça ao trabalho duro de quem a respeitava.Passei a mão pela testa, enxugando o suor acumulado sob o chapéu de palha, e caminhei de volta para a picape. No instante em que abri a porta e peguei a chave na ignição, o som agudo e insiste
Eduardo Soares O ar abafado do final de manhã na pequena cidade do interior mineiro parecia pesado, quase irrespirável. Eu estava a passos de alcançar a porta do carona do meu carro de luxo, com a chave preta já engatada na ignição remota, quando o som estridente e insistente do meu celular particular quebrou a calmaria da praça deserta. Parei por um instante, franzindo a testa. Olhei para a tela do aparelho. O visor exibia um número restrito, oculto, de uma linha criptografada que eu não acionava havia meses — um canal de emergência reservado exclusivamente para os meus antigos peões de confiança e informantes de tocaia na minha cidade natal. O estômago deu um nó gelado. Ninguém daquele buraco esquecido por Deus ousava me ligar por aquele número a menos que uma catástrofe estivesse prestes a desabar sobre a minha cabeça. Atendi com a mandíbula travada, a voz cortante como vidro quebrado: — Fala logo. O que você quer? Dois segundos de chiado estático se passaram antes que a
Bruno Antunes O sol da manhã seguinte custava a rasgar a espessa neblina que descia das montanhas do sul de Minas Gerais. Acordei cedo no quarto modesto da pousada, com o som estridente do despertador quebrando o silêncio da madrugada. Joguei água fria no rosto, vesti uma camisa social de manga longa de cor neutra, calças cáqui resistentes e verifiquei o coldre da minha pistola na cintura, garantindo que estivesse perfeitamente oculto sob o tecido. Desci para a recepção e tomei um café preto forte, acompanhado de um pão de queijo caseiro que parecia o único consolo naquela região esquecida. Peguei a chave do sedan alugado, entrei no veículo e ajustei o GPS para as coordenadas aproximadas do Instituto de Repouso Santa Luzia — o manicômio clandestino mantido pelas sobras do império financeiro de Eduardo Soares. A viagem durou pouco mais de quarenta minutos por uma estrada de terra secundária, esburacada e cercada por paredões de rocha cinzenta e eucaliptos altos que bloqueavam a
Bruno Antunes Assim que o som seco da linha telefônica indicou que o Rafael Ventura havia desligado, afastei o aparelho do ouvido e continuei recostado no balcão de madeira da cafeteria barulhenta onde eu costumava me refugiar no centro da capital. Fiquei ali por alguns segundos, encarando o nada, com o visor escuro do celular na mão, ponderando sobre o peso da encomenda que acabara de aceitar. O Eduardo Soares. Um nome pesado, cercado de cifras, influência política e uma aura de intocabilidade que poucos ousavam desafiar em Minas Gerais. Pelo que eu já conhecia da fama dele nos bastidores da segurança pública e do agronegócio, o Soares não era apenas um homem difícil — era uma criatura perigosa, fria e completamente sem escrúpulos. A minha mente começou a puxar o dossiê informal que a minha própria rede de informantes já havia tracejado sobre ele ao longo dos anos. O currículo criminoso do sujeito era um verdadeiro catálogo de crueldades disfarçadas de negócios: o maldito já h







