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Capítulo 3

Luarina
Laura estava bebendo água quando ouviu a pergunta. Até o movimento de engolir ficou mais lento.

— Não cancelei. Só achei que o lugar não era bom. É melhor trocarmos de local. — Ela virou o rosto para Henrique.

Henrique afrouxou a gravata, sorrindo enquanto se aproximava.

— Como não é bom? Aquilo é o Vale do Amor Eterno. Dizem que só os casais que realmente se amam conseguem trocar os votos lá e ficarem juntos para sempre. Você não acha que é um ótimo presságio?

Uma pontada de sarcasmo passou pelos olhos de Laura.

"Sim, apenas quem se ama de verdade pode durar para sempre. Mas Henrique, seja sincero consigo mesmo, ainda me ama como antes?" Ela não colocou o pensamento em voz alta. Apenas ouviu sua própria voz calma responder.

— É melhor trocar. Não foi você quem disse que o casamento seria do jeito que eu quisesse?

Henrique parou um instante, depois sorriu.

— Tudo bem. O que a minha mulher decidir está decidido. Quero ver que surpresa romântica você vai preparar para mim daqui a um mês.

Laura apenas sorriu, sem comentar. Sentada ali, serena, bela como uma pintura. O olhar de Henrique se perdeu nela. Encantado, ele inclinou o corpo, sussurrando no ouvido dela:

— Querida, tenho trabalhado tanto, faz tempo que nós dois não...

Laura congelou inteira. Recuou com naturalidade, levantando-se.

— Estou cansada. Fica para outro dia.

Antes que ele pudesse reagir, ela subiu as escadas.

No quarto, ela fez uma ligação. Assim que atenderam, ela se apresentou:

— Olá, não quero mais vender aquela minha pintura. Pode retirar do catálogo, por favor.

Logo após dizer isso, ela desligou. Sentou-se à escrivaninha, abriu o computador e entrou no site do leilão. A obra "Primavera", antes listada, já tinha sumido da página do leilão. Ela então abriu uma pasta protegida por senha na área de trabalho. Ao entrar, dezenas de pinturas apareceram. Laura rolou a tela até encontrar a pintura "Primavera". A obra pintada à mão mostrava pereiras brancas balançando na brisa do início da estação, formando ao fundo um delicado contorno de pega. A representação era realista, porém natural, cheia de alma.

A obra era a mais disputada do catálogo, já ultrapassando quatro milhões em valor. No canto inferior, havia duas letras: LN. As iniciais do último nome dela e do último nome de Henrique, o pseudônimo que ela usava por anos como artista.

Duas semanas antes, ela havia anunciado uma pausa de três anos por causa do casamento. Ela planejava usar os três anos para engravidar, ter um filho e dedicar-se à família que imaginou com Henrique. Por isso ela criou a "Primavera" como um voto de felicidade, sua bênção para o futuro.

Agora, não fazia mais sentido.

Laura respirou fundo e publicou uma nota em sua conta LN:

[Olá a todos, aqui é a LN. Por motivos pessoais, anuncio minha aposentadoria definitiva. A pintura "Primavera" nasceu do meu sonho de casamento. Como esse sonho se desfez, a obra não será mais exibida. Neste mundo, não existe amor eterno. Amem a si mesmos. A partir de hoje, o mundo da arte não terá mais a LN. Adeus.]

Depois de publicar, ela registrou uma nova conta de artista. Apenas chamada: "Laura". Aquilo representava um recomeço da sua carreira, um recomeço da sua vida. Um futuro que não teria laços com Henrique.

Ela ainda estava absorvida em seus pensamentos quando o toque de um celular ecoou. Era o aparelho de Henrique. O som tocou, insistente, até parar sem que ninguém atendesse. Laura saiu do quarto para ver e percebeu que Henrique não estava mais em casa e havia deixado o celular em casa.

Ela pegou o aparelho e viu na tela um nome: Secretária.

Era Marina.

Laura apertou o celular com força, até que o toque cessou. Logo depois, uma mensagem apareceu:

[Rique, você vem no Banquete Lounge me ver? A Bianca também está te esperando.]

Banquete Lounge.

O bar favorito de Henrique.

Bianca.

Bianca Nicácio, prima de Henrique, é uma das pessoas mais próximas de Laura.

A respiração de Laura falhou. Então até Bianca sabia? Sabia da traição?

Pensando na amizade e em todos os momentos que passou com Bianca, ela pegou a chave do carro e saiu.

Ao chegar no Banquete Lounge, ela subiu direto para o camarote número onze. Antes mesmo de chegar à porta, reconheceu uma risada feminina familiar:

— Pronto, pronto. Henrique, você bebe só mais um pouquinho. Nós duas acompanhamos. Nada além disso.

Era Bianca. Sem dúvida nenhuma.

Laura foi até a porta entreaberta e olhou pela fresta. A mulher de vestido vermelho e cachos volumosos estava sentada diante de Henrique, observando ele e Marina como se fossem um casal perfeito.

Dias atrás, eles haviam jantado juntos, e Bianca olhou para os dois com a mesma admiração nos olhos. Dizendo que nunca tinha visto um casal tão apaixonado, que, se eles não se casassem e ficassem juntos para sempre, ela deixaria de acreditar no amor.

Laura queria muito saber se, quando Bianca mentia, ela estava apenas a enganando como se fosse tola, ou se ria dela por dentro, vendo-a como uma palhaça que todos mantinham no escuro.

Laura sentiu o coração despencar, gelado até a alma.

Enquanto isso, dentro do camarote, Marina fazia charme, segurando a barriga com um leve sorriso nos lábios:

— Se quiser beber, beba com o Rique. Eu não posso beber.

O gesto fez Bianca e Laura congelarem ao mesmo tempo.

— Não me diga que... você está grávida do meu primo? — Bianca perguntou, surpresa.

Marina, com as bochechas vermelhas, mordeu o lábio e assentiu, tímida.

— Uhum. Rique disse que esse bebê é fruto do nosso amor e que vai cuidar de nós dois. E até me disse para escolher qualquer uma das casas dele para descansar durante a gravidez.

— Escolhe a Baía da Lua Azul. — Sugeriu Bianca sem hesitar. — É perto da água, o ar é fresco, a paisagem é linda. É perfeito para uma gestante.

Laura cambaleou do lado de fora. Baía da Lua Azul era a casa que ela e Henrique escolheram como a futura casa deles, após o casamento no fim do mês.

Sob a luz baixa, o perfil de Henrique era frio, elegante. Ele só fez uma pausa mínima antes de dizer, sorrindo:

— Ótimo. Em dois dias resolvo isso e providencio a mudança de Marina para a Baía da Lua Azul.

Bianca piscou para ele, trocando a posição, cruzando as pernas.

— E a outra lá de casa? Vai morar onde?

O olhar de Henrique endureceu e ele advertiu num tom sério:

— Não deixe ela saber de nada. Não quero que a Lala descubra antes do casamento. Depois eu arranjo um lugar melhor para ser nossa casa.

O sorriso de Marina tremeu, como se fosse forçado.

Do lado de fora, Laura sentiu o mundo rir dela. Ele planejava segredo, traí-la, casar-se com ela enquanto mantinha uma amante e um filho ilegítimo.

Era assim que Henrique a via? Um objeto descartável, que alguém poderia pisar tão facilmente?

Nesse momento, um garçom passou pelo corredor.

O olhar de Laura esfriou, ela deu um passo para frente e disse com a voz clara atravessando o ar:

— Com licença, Henrique Nicácio está neste bar?

Dentro do camarote, os três ouviram cada palavra. E congelaram.
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