LOGINCAPÍTULO 2
Holly Winter Eu ainda estava de cabeça para baixo, literalmente, quando Falcão me jogou dentro do banco traseiro do SUV preto, enorme e caro o suficiente para pagar meu aluguel por um ano inteiro. Caí sentada, descabelada, o vestido subindo mais do que deveria, respirando como se tivesse corrido uma maratona. A porta foi batida com um THUMP que pareceu decretar oficialmente: Holly Winter, você foi sequestrada. Feliz Natal. Alguns segundos depois, a porta do outro lado abriu, e o grandão — o próprio Falcão, rei da porra toda em Chicago — entrou e sentou ao meu lado como se nada tivesse acontecido. Ele ocupou metade do banco, metade do ar, e metade da minha sanidade. Eu me encolhi instintivamente, minhas mãos trêmulas dobrando o vestido no colo como se isso fosse melhorar alguma coisa. — O-o-olha — comecei, tentando recuperar fôlego, dignidade e coragem ao mesmo tempo. — Eu não sei o que você quer comigo, mas eu só estava trabalhando pelo dinheiro, ok? — Eu pago — respondeu com cara fechada. — Eu tenho uma irmãzinha em casa esperando um presente na manhã de Natal. E uma mãe esperando que eu chegue com comida pra amanhã, porque ninguém tem dinheiro pra ceia. Então… eu não posso ser sequestrada. Não hoje. Ele simplesmente… ignorou. Não uma ignorada comum. Aquele tipo de silêncio que faz a gente repensar todas as decisões da nossa existência. Falcão continuou olhando para frente, as mãos enormes sobre as coxas, o peito subindo e descendo devagar, como se respirar fosse uma ameaça calculada. Apenas o som do motor, o couro rangendo quando ele se acomodou. E minha alma derretendo de medo. Então alguém bateu na janela. Um soldado, um dos muitos, abriu a porta ligeiramente e entregou minhas coisas com cuidado: Minhas botas, meu casaco de Mamãe Noel, e meu gorro. Fiquei olhando para aquilo no meu colo, completamente confusa. Como ele encontrou tudo pelo caminho? E porquê? — não me contive. — P-por que você está fazendo isso? — perguntei, virando para ele. — Você mandou pegar minhas coisas… isso é algum tipo de fetiche? Porque, olha, eu não julgo, mas se quisesse fantasia, era só contratar uma prostituta— digo — uma profissional do sexo! Uma garota do Job. Você tem dinheiro, claramente. E eu não sou do Job. Foi aí que ele virou o rosto na minha direção. Lentamente. O maxilar dele travou, o olhar ficou ainda mais frio. O silêncio, foi mortal. E eu pensei: Holly, você se matou com a própria boca. De repente a mão dele veio rápida, firme, quente. E grande o suficiente para envolver meu pescoço sem esforço. Ele não me estrangulou, nas segurou de um jeito que fez meu coração parar. Eu arfei, surpresa, assustada, hipnotizada. — Eu mandei calar a boca. — a voz saiu baixa, profunda, um aviso mortal. E então ele soltou. Só assim. Como se não tivesse acabado de esmagar minha coragem entre os dedos. Eu fiquei completamente muda, mesmo querendo gritar pra que todos ouvissem que não sou do Job. Ele conseguiu. A partir dali, meu Natal estava oficialmente destruído. A estrada passou rápido, e a cada placa, a cada curva, eu reconhecia o percurso. Todo mundo sabia que Falcão tinha um bairro inteiro só dele. Quase uma cidade particular. Um reino escondido nos arredores, inacessível para qualquer pessoa comum. Mas eu nunca tinha visto a casa. Quando o carro parou, minha boca abriu sozinha. — O meu Deus… — sussurrei. — Era uma mansão. Não, um castelo moderno. Jardins imensos iluminados com luzes de Natal. Soldados por toda parte. Decorações caras, neve refletindo nas janelas enormes. Antes que eu pudesse descer, a mão dele segurou meu queixo. Não forte, mas firme o suficiente para me obrigar a olhar nos olhos dele. — Coloca essas porras de coisas de Natal e vem comigo. Meu corpo inteiro tremeu. Porque aquele homem, que até agora só tinha duas expressões: “morte” e “morte com pressa”, tinha um leve brilho de… urgência? Ansiedade? Não sei. Mas não era desejando sexo. Não era luxúria. Era outra coisa, e eu não sabia se isso me acalmava ou piorava tudo. Desci do carro tremendo, tentando colocar o gorro, o casaco, enquanto dezenas de olhares dos seguranças caíam sobre mim. Quando tentei calçar a bota de pé… claro que tropecei. Claro que meu joelho bateu no chão gelado. — Aí, não… — reclamei, com lágrimas nos olhos. Ele me segurou pelo braço antes que eu caísse totalmente. — Venha. — disse, balançando a cabeça como se eu fosse um caso perdido. Eu obedeci. Porque o que mais eu faria? Correr? Virar ninja? Evaporar? — Claro que não daria certo. Quando Falcão me puxou, senti seu corpo contra o meu. Não sei porque meu ar faltou, mas faltou. Talvez fosse o cheiro dele, tão diferente de tudo que já senti. E olha que já conheço todas as marcas que vende no Shopping. Ou talvez por estar tão quente quando o ar era gelado. Ou quem sabe fossem os olhos... — Azuis... — pensei alto. — O que? — ele perguntou, então percebi a merda. Eu tinha sussurrado em voz alta. — Seus olhos. Eles são azuis. Quase um cinza. — Ele praticamente me deixou cair sobre o carro ao me soltar. — Vamos. — Estava irritado. Atravessamos a entrada principal. Empregados, seguranças, cozinheiras, mordomos… todos paravam e se curvavam discretamente quando ele passava. Era assustador. O corredor parecia não acabar nunca. A casa era enorme, luxuosa, fria e quente ao mesmo tempo. Mas quando viramos para um corredor lateral e ele parou diante de uma porta… meu estômago despencou porque era um quarto. Pronto. Eu ia morrer. Ou ele realmente achava que eu era do “job”. E ia tentar alguma coisa. Ou… Ele se virou para mim e disse, com a mesma frieza que se usa para falar com alguém que já assinou o próprio destino: — Presta atenção. Eu pago muito bem pra você entrar nesse quarto e fazer o serviço direito. Meu coração parou. — M-mas eu— — Se ela não levantar dessa cama, você também não levanta pra voltar pra casa. O ar sumiu dos meus pulmões. — Ela? — repeti baixinho. Meu cérebro entrou em pânico. Eu vou ter que transar com uma mulher?! E com ele olhando? MEU DEUS. Mas quando ele abriu a porta… Toda a minha alma derreteu. Tinha uma menininha. Talvez três ou quatro anos. Estava deitada na cama mais luxuosa que eu já tinha visto. O rostinho pálido, olhinhos claros, cabelo preto lisinho caindo pelos ombros pequenos. Olhos castanhos claros. Frágil, adorável e linda. Ela ergueu um pouquinho a cabeça, os olhinhos arregalando quando o viu. — Papai… você trouxe o Papai Noel? — sua vozinha fraca perguntou, um brilho quase invisível de esperança. Me perguntei se Falcão era pai dela. E então vi Ele mudou completamente perto da criança. Ainda parecia ser durão, mas também parecia humano. O olhar dele pra ela me surpreendeu. E sua voz ficou num tom novo. — Não, minha princesa. — ele sorriu. Sim. SORRIU. — Eu trouxe a Mamãe Noel. Ela é muito mais bonita. Você não acha? Eu quase perdi o fôlego. Porque aquele homem falava com o mundo como se fosse descartável… Mas com aquela criança? Com ela… ele era outro. Ouvi direito ou ele me elogiou? Então a menininha sentou lentamente, olhando para mim com os olhinhos brilhando como estrelas… Ela abriu um sorriso pequeno, encantado, verdadeiro. — Uau, papai… ela é linda feito mágica. E naquele instante, mesmo tremendo, mesmo sequestrada, mesmo sem saber por que estava ali… Eu senti meu coração derreter um pouco. Só um pouco, mas o suficiente para perceber: Esse Natal seria tudo, menos normal.CAPÍTULO 17 Holly Winter Uma semana depois do casamento, percebo que a minha respiração mudou. Não é mais curta, nem apressada. Não acordo esperando o pior. Acordo esperando o dia. Estou na cozinha, encostada no balcão, observando Falcão do outro lado do ambiente enquanto ele termina o café. Ele não fala muito pela manhã. Nunca falou. Mas agora existe algo confortável no silêncio entre nós. Não pesa, não ameaça. A companhia dele me acalma de um jeito que eu jamais imaginei ser possível. Olho para ele e penso nisso com uma sinceridade que quase assusta: eu gosto da presença desse homem na minha vida. Não é só segurança. Não é só cuidado. É a forma como ele presta atenção sem parecer, como pergunta pouco, mas escuta tudo. As vozes das meninas cortam meus pensamentos. Natalie e Molly descem as escadas quase correndo, uniformes novos, mochilas nas costas, os cabelos presos com um cuidado que denuncia empolgação. Estão lindas para irem pra escola. Orgulhosas. Eu me aproxi
CAPÍTULO 16 Falcão A estrada até a casa de campo é tranquila. Cercada de árvores altas que engolem o mundo conforme avançamos. Holly observa tudo pela janela, os olhos atentos, curiosos. Quando o portão se abre, os faróis iluminam a fachada de pedra, o telhado inclinado, as luzes quentes acesas por dentro. A casa respira isolamento, segurança. Aqui é meu refúgio. O carro para. Abro a porta pra ela antes mesmo que pense em sair sozinha. — É lindo… — ela murmura, sincera. Vejo o encantamento nos olhos. E isso aperta alguma coisa no meu peito. Os funcionários já esperam. Tudo organizado. Mesa posta. Velas acesas. Um jantar que ninguém vai tocar além de nós. Eles nos cumprimentam em silêncio e saem em fileira assim que entramos. E então ficamos só nós dois. Viro-me devagar. Ela está no meio da sala, ainda com o vestido branco, as mãos unidas à frente do corpo. Parece pequena ali, frágil. E minha. — Agora você é minha. — digo, sem elevar a voz. Ela engole
CAPÍTULO 15 Holly Winter O cartório não parecia um cartório. Era grande demais. Não vi mais casais casando. E controlado demais para ser apenas um prédio público numa tarde comum. Havia homens por todos os lados — ternos escuros, posturas rígidas, olhares atentos, e muitos soldados. Organizavam filas, mantinham distância, falavam baixo entre si enquanto garantiam que ninguém se aproximasse além do permitido. Aquilo tudo existia por causa dele, e agora… por minha causa também. Minhas mãos suavam levemente enquanto eu ajeitava o vestido branco mais lindo que já vi. Sem rendas exageradas. Sem cauda. Um vestido que não gritava riqueza, mas também não pedia permissão para existir. Eu respirava fundo quando ouvi um burburinho diferente. As pessoas olharam e eu também. Natalie e Molly entraram juntas, de mãos dadas. As duas usavam vestidos delicados, cores suaves, cabelos penteados com cuidado. Cada uma carregava uma pequena almofada com uma aliança. Não havia música.
CAPÍTULO 14 Falcão Holly acordou, e por um segundo, ela não se moveu. Apenas respirou fundo, como quem testa o ar antes de lembrar onde está. Os olhos percorreram o teto alto, as cortinas pesadas, a luz suave que entrava pelas frestas. A lembrança veio inteira. Pude ver nos olhos dela. Natal. Natalie. O pedido. A ceia. Os presentes. O beijo inesperado. Ela sentou devagar na cama, puxando a camisola para baixo por reflexo, como se o gesto ainda fosse necessário ali. Abri a porta no mesmo instante. Entrei com uma bandeja nas mãos. Café, chá, pães e frutas. Nada exagerado. Ela me olhou surpresa. — Bom dia. — eu disse, simples. — Bom dia… — respondeu, a voz ainda rouca de sono. Coloquei a bandeja sobre a mesa próxima à janela. — Você dormiu bastante. Ela desceu da cama com cuidado, como se o chão ainda fosse incerto. Aproximou-se da janela, olhando o jardim iluminado, agora banhado pela luz do dia. — Eu achei que… — começou, mas parou. — Que eu teria t
CAPÍTULO 13 Falcão A água ainda escorria pelo meu corpo quando desliguei o chuveiro. O vapor embaçava o espelho, e por um instante eu quase não me reconheci ali. Não pelo rosto. Pela calma. Aquela calma estranha que não vinha da ausência de problemas, mas da presença de alguém. Vesti apenas a calça, enxugando o cabelo com a toalha enquanto saía do banheiro. E então vi que Holly dormia. De lado, o corpo recolhido, como quem passou a vida aprendendo a ocupar pouco espaço no mundo. A camisola branca estava levemente amassada, o tecido subindo um pouco na coxa, o ombro exposto. O cabelo claro espalhado pelo travesseiro como se tivesse sido largado ali sem cuidado — exatamente como ela. A respiração era lenta. Profunda. Estava exausta.Não só fisicamente, mas emocionalmente. Aproximei-me sem fazer ruído. Meus passos, que sempre ecoaram medo naquela casa, agora buscavam silêncio. Parei ao lado da cama. Observei o movimento sutil do peito subindo e descendo. O leve franzir
CAPÍTULO 12 Falcão — Sirvam o vinho. — ordenei com entusiasmo — E o suco de uva das crianças. Vamos comemorar. Taças foram erguidas, garrafas abertas, o tilintar do cristal misturando-se ao riso contido que ainda parecia proibido naquela casa. Foi então que senti a mão dela no meu braço. Olhei primeiro para os dedos — pequenos, quentes, quase inseguros — antes de erguer os olhos. Holly percebeu no mesmo instante e tentou puxar a mão de volta. — Falcão… — ela começou, mas se calou quando a encarei. Segurei a mão dela antes que fugisse. Ia apenas recolocá-la no meu braço, mostrar que estava tudo bem. Mas não fiz. Era pequena demais. Macia demais. Preferi manter ali, presa à minha. — Não tenha medo, Holly. — murmurei. — Me diga o que quer. Ela hesitou por um segundo. Depois se inclinou, aproximando o rosto do meu, e sussurrou como se estivesse cometendo um crime doce demais pra ser dito em voz alta: — Seus seguranças e funcionários… eles podem participar da ceia? Sent







