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Sete Anos de Veneno
Sete Anos de Veneno
作者: Carinho Pro Lixo

Capítulo 1

作者: Carinho Pro Lixo
Assim que o médico da corte saiu, mandei Clara jogar fora o tônico.

Ela tentou me impedir, os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Alteza, e se o médico estiver enganado?

— Então considere esse meu último capricho.

Passei sete anos fazendo o que bem entendia. Vontade própria nunca me faltou.

O irônico era chegar ao fim sem ter forças sequer para virar uma tigela de remédio.

Abri minha caixa de joias e comecei a retirar, uma a uma, as lembranças que Adriano me deu ao longo dos anos.

Pérolas do Mar de Safira, rubis de Ardan e uma presa de lobo que ele trouxe do campo de batalha quando eu tinha dezesseis anos.

Na época, ele mesmo a colocou em meu pescoço, com um sorriso.

— Helena, enquanto usar isso, ninguém nesta cidade vai ousar encostar um dedo em você.

Demorei a entender que, de todas as pessoas, justamente ele seria capaz de me ferir tão fundo.

Mandei Clara fazer um inventário dos presentes e devolver tudo à ala principal do palácio.

Só fiquei com a presa de lobo.

— Não consegue abrir mão dessa, Alteza? — Clara enxugou as lágrimas.

Passei o polegar pela rachadura na presa.

— Não é isso. É que não vale nada. Só ia ocupar espaço se eu a devolvesse.

Naquela tarde, fui aos aposentos de minha irmã.

Os três meninos praticavam arco e flecha na galeria coberta.

Henrique, o mais velho dos filhos dela com Adriano, tinha seis anos e era o retrato do pai, sobretudo nos olhos.

Ofereci a ele o pequeno arco que passei a noite inteira entalhando.

— Experimente. É leve, do tamanho certo para você.

Henrique nem estendeu a mão.

Me encarou por um instante, até que perguntou, sem qualquer cerimônia:

— Tia Helena, a senhora também quer ter um menino?

A pergunta calou o pátio inteiro.

Matilde, a governanta de minha irmã baixou a cabeça, disfarçando mal o sorriso que lhe escapava.

Me agachei diante dele.

— Quem foi que te ensinou uma coisa dessas?

Henrique torceu a boca.

— A Matilde falou que a senhora não consegue ter filhos. Que é por isso que vive atrás da gente.

— Também falou que a senhora quer roubar o papai da mamãe e deixar ela doente de tanta tristeza.

Ele arrancou o arco da minha mão e o atirou com toda a força no lago.

— Não quero nada seu!

O pequeno arco rompeu a fina camada de gelo e desapareceu sob a água.

O arco desapareceu na água escura, deixando um buraco entre os pedaços de gelo. Fiquei ali, acompanhando o movimento da água até ela se aquietar. Curiosamente, quase não doeu.

Talvez a dor já não encontrasse em mim nada que ainda estivesse inteiro.

Eu me preparava para ir embora quando uma voz conhecida me alcançou.

— Helena.

Adriano acabava de voltar do palácio imperial. A neve ainda não derretia sobre os ombros de sua longa capa negra.

Ao vê-lo, Henrique correu para se agarrar à sua perna.

— Papai! A tia Helena brigou comigo!

Adriano acariciou os cabelos do filho antes de se voltar para mim.

— De novo, Helena? Vai mesmo discutir com uma criança?

Deixei escapar um sorriso.

— Não discuti com ele.

— Então por que aquele arco foi parar no lago?

— Era um presente. Ele não quis.

Uma ruga se formou entre as sobrancelhas de Adriano. Conhecia bem aquela expressão, a mesma de quando precisava me tirar de alguma confusão.

— Se sente tanta falta de ter crianças por perto, posso mandar Henrique e os irmãos passarem mais tempo com você. Não precisa ficar tentando conquistar o afeto deles com esses presentinhos. Isabela também ficaria magoada se soubesse.

Sete anos, e nada mudava.

Adriano resolvia minhas confusões, mas sempre encontrava uma maneira de me lembrar que Isabela saía magoada. Até um presente para o sobrinho, aos olhos dele, virava uma disputa entre nós duas.

Dessa vez, apenas assenti.

— Não vai acontecer de novo.

Ele demorou um instante a reagir. Talvez porque nunca fosse tão fácil me fazer ceder.

Foi quando Clara apareceu, carregando nos braços a caixa de madeira abarrotada de joias.

Os olhos de Adriano acompanharam a passagem dela, e a ruga entre suas sobrancelhas se aprofundou.

— E o que significa isso agora?

— Tenho coisas demais que não uso. Mandei devolver tudo ao depósito.

— Helena. — Meu nome saiu de sua boca como uma advertência. — Isabela está grávida de novo. Só isso. Não precisa fazer esse teatro todo.

Olhei para ele. Até aquela conversa, tão familiar, me pareceu cansativa demais para continuar.

— Fique tranquilo, Alteza. Não pretendo disputar nada com minha irmã.

— Nem agora, nem nunca mais.

Adriano me estudou em silêncio por alguns instantes. Então estendeu a mão e ajeitou a gola da minha capa, protegendo meu pescoço do frio.

Seus dedos ainda guardavam a intimidade de tantos anos.

Já a voz tinha a paciência condescendente de quem tentava fazer uma criança parar de fazer birra.

— Volte para os seus aposentos e fique por lá. Nada de sair por aí aprontando. Quando esfriar a cabeça, passo para vê-la.

Me esquivei do toque.

— Não precisa vir, Alteza.

A mão dele ficou suspensa por um instante, antes de baixar. Seu rosto endureceu.

Já abria a boca para responder quando Isabela surgiu à porta, apoiada no braço de uma criada.

— Não fique zangado, Alteza. Helena deve estar com saudade de casa.

Minha irmã veio até mim e tomou minha mão entre as suas, com a mesma familiaridade de sempre.

— Se estiver mesmo com saudade dos Montelar, posso providenciar para que passe uns dias em casa.

Depois, baixou a voz, como se dividisse comigo um segredo.

— Só não fale com Adriano por enquanto. Ele ainda está irritado.

Ergui os olhos para ela.

Isabela continuava sorrindo com aquela doçura que eu conhecia desde menina. Seus dedos envolviam os meus, quentes e delicados.

— Somos irmãs, Helena.

Ela apertou minha mão de leve.

— Você sabe que eu nunca faria nada para te prejudicar.

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 10

    Quando Isabela foi levada ao Tribunal da Casa Imperial, descobriu que nem o filho em seu ventre lhe garantia clemência.A gravidez acabou não resistindo. Segundo o médico, o medo e a angústia daqueles dias comprometeram a gestação.Em consideração aos serviços prestados pela Casa de Montelar ao Império, o imperador poupou sua vida. Mas Isabela perdeu todos os títulos e foi confinada numa residência afastada da corte, proibida de cruzar seus portões pelo resto dos dias.Matilde, o responsável pela botica e todos os envolvidos na armação da falsa fuga receberam as penas correspondentes a seus crimes. O médico que ocultou a doença de Helena perdeu o cargo e foi condenado ao exílio.Henrique e os dois irmãos ficaram sob os cuidados da família Montelar.No dia da partida, Henrique levava nos braços o pequeno arco, agora consertado. A cada poucos passos, virava a cabeça para trás, como se ainda esperasse ouvir aquela voz alegre chamando seu nome.Mas Helena já não estava ali para chamá-lo.A

  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 9

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 8

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 7

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  • Sete Anos de Veneno   Capítulo 6

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