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Capítulo 3

مؤلف: Serein M

Fechei a mala com um estalo e me virei para encará-lo, reunindo forças para dizer o que precisava.

— O baile beneficente da próxima semana…

Comecei a explicar, mas ele me interrompeu, impaciente, como sempre fazia quando não queria ouvir.

— Esquece isso. Vai fugir de novo, é isso? Some mais uma vez. Vamos ver se eu vou atrás de você dessa vez.

As palavras morreram na minha garganta antes mesmo de ganharem forma. Não havia espaço para explicação ali. Nunca houve. Tudo bem. Ele não se importava mesmo. Descobriria tudo quando eu já tivesse ido embora, quando não houvesse mais nada a ser dito. Apertei o tecido do vestido entre os dedos, buscando algum controle, e inventei uma desculpa qualquer.

— Só estou separando meu vestido para o baile.

A expressão dele suavizou um pouco, como se aquilo fosse suficiente para encerrar o assunto.

— Tanto faz. Vai descansar.

Então ele se virou e saiu, deixando para trás aquele silêncio pesado que já tinha se tornado rotina. Eu sabia exatamente como a noite terminaria. Sozinha. De novo.

Na manhã seguinte, o som de um motor me despertou. Caminhei até a janela ainda sonolenta e olhei para baixo. Gwen ajudava Eliza a entrar na Maserati, com um cuidado que eu não via há muito tempo. Ela usava um vestido branco, com um sorriso doce e perfeitamente calculado. Os dois pareciam um casal saindo para um encontro, não pessoas presas a uma relação de obrigação ou tragédia.

Para onde estavam indo?

Peguei o celular e não levei nem um minuto para descobrir. Minhas redes sociais estavam inundadas de fotos deles, manchetes e comentários que só reforçavam aquilo que eu tentava ignorar. “Don Falcone é visto em Beverly Hills com a viúva do irmão.” “Um cunhado dedicado, um laço forjado pela tragédia.” “Gwen Falcone faz compras pessoalmente para a cunhada, um gesto emocionante de afeto familiar.”

Em uma das imagens, Gwen colocava um colar de diamantes no pescoço de Eliza com uma delicadeza que não deixava espaço para dúvidas. Ela olhava para ele com adoração, com uma dependência ensaiada que funcionava perfeitamente. Para qualquer um que visse de fora, eles eram um casal.

Desliguei o celular. A náusea veio imediata. A cidade inteira falava sobre o “laço especial” entre eles. E eu? A esposa de verdade? Eu era apenas uma estranha.

No jantar, os dois riam. Conversavam sobre o dia como se nada mais existisse ao redor.

— Aquela pulseira de safira ficou perfeita em você — disse Gwen, cortando o bife com calma. A voz dele era suave. — Vou mandar outra para o seu quarto amanhã.

— Gwen, você faz demais por mim… — disse Eliza, fingindo recusar, no tom exato de quem sabe que será contrariada.

— Você não precisa retribuir — respondeu ele, com uma ternura que eu não lembrava mais como era receber. — Cuidar de você é meu dever.

Soltei o garfo.

— Já terminei.

Me levantei e fui direto para o escritório, tentando organizar os pensamentos, manter algum controle antes de ir para Paris. Mas o que encontrei ali foi o suficiente para destruir qualquer equilíbrio que ainda restava.

O Mapa Estelar.

O nosso mapa.

Tinha sido arrancado da parede. O vidro da moldura estava espalhado pelo chão em pedaços, e a tela — aquela que guardava todas as nossas memórias — estava rasgada, destruída. As pequenas luzes que representavam nossos momentos… agora não passavam de fragmentos sem forma.

Era a única forma que eu tinha encontrado de dizer que o amava na linguagem que eu realmente dominava. Era a nossa prova. E agora… estava destruída.

A raiva veio de uma vez, intensa, impossível de conter. Saí do escritório sem pensar e fui direto para o quarto de Eliza.

— Eliza!

Abri a porta com força.

— Sai daqui!

Ela estava sentada na penteadeira, removendo a maquiagem com movimentos calmos demais para alguém inocente. Quando me viu, assumiu imediatamente uma expressão de medo.

— Flora? O que você está fazendo?

— Foi você, não foi? — avancei, os punhos fechados. — A pintura do escritório!

— Não sei do que você está falando — ela recuou, a voz tremendo na medida certa. — Eu estive com o Gwen o dia inteiro—

— Para de fingir! — agarrei o braço dela, apertando com força. — Quem mais faria isso?

— Você está louca! — Eliza puxou o braço e caiu para trás, se jogando no chão. — Gwen! Me ajuda!

O grito ecoou pela mansão.

Gwen apareceu segundos depois.

E viu exatamente o que ela queria que ele visse.

Eliza no chão.

— Flora!

Ele me empurrou com força. Bati contra a parede, a dor subindo pelas minhas costas. Mas ele já não olhava para mim. Estava ajoelhado ao lado dela, com a voz completamente diferente. Suave. Cuidadosa.

— Você está bem? Ela te machucou?

— Estou… — ela choramingou, se encolhendo nos braços dele. — Ela disse que eu destruí a pintura… mas eu estava com você… como eu poderia—

— Chega.

Gwen se levantou e se virou para mim, o olhar frio como gelo.

— Flora, o seu ciúme está te deixando louca.

— Ciúme? — encarei ele, incrédula. — Aquilo foi um presente do nosso casamento! Representava tudo! Alguém destruiu aquilo de propósito!

— Foi um acidente — disse ele, sem emoção. — A empregada deve ter derrubado enquanto limpava.

Um acidente.

Olhei para ele, o homem que um dia prometeu me proteger pelo resto da vida. Bastava uma lágrima dela… e eu deixava de existir. Eu já tinha visto aquilo acontecer muitas vezes ao longo do último ano. Desde que descobri sobre Marco, ela vinha fazendo de tudo para nos afastar, para me tirar daquela casa.

Agora, eu já não tinha mais nada para explicar.

Mais tarde naquela noite, Gwen bateu na minha porta.

— Os macarons que você gosta. Comprei em Beverly Hills hoje.

Ele colocou a caixa elegante nas minhas mãos. Por um instante, a expressão dele pareceu… desconfortável.

— Sobre hoje… deixa para lá. Ela não fez por mal.

Ele fez uma pausa antes de continuar.

— E mais uma coisa. Para oficializar a mudança na fundação… preciso da sua assinatura.

Ele tirou um documento do bolso.

— Sua renúncia.

O leve sorriso que quase surgiu desapareceu imediatamente. Claro. Era isso.

— Tudo bem.

Assinei. Depois, peguei outro conjunto de papéis. Meus documentos de divórcio estavam ali, escondidos entre contratos.

— Em troca, assina esses.

Ele nem olhou. Apenas sorriu, satisfeito, provavelmente achando que se tratava de dinheiro. Algum tipo de compensação.

— Viu? — disse ele. — Era só ter sido assim desde o começo. Por que precisava brigar tanto com a Eliza?

Ele assinou. E foi embora.

Joguei a caixa de macarons no lixo. Exatamente onde ela pertencia.

Junto com o último resto de esperança que eu ainda tinha por ele.

No dia anterior à minha partida, pedi para que ele voltasse cedo. Disse que faria jantar. Uma última refeição. Um adeus que ele nem perceberia. Cozinhei tudo o que ele gostava. Risoto. Boeuf bourguignon. Tiramisu. Arrumei a mesa com cuidado, acendi velas, coloquei meu melhor vestido de seda preta. Esperei.

Mas ele não voltou.

Liguei. Nada.

Às dez, procurei o mordomo.

— Onde está o Don?

Ele hesitou antes de responder.

— O Don e a Srta. Eliza foram para Las Vegas, senhora… para um espetáculo exclusivo.

— Quando isso foi planejado?

— Há duas semanas, Donna. Não se preocupe. Ele volta amanhã à tarde.

Não.

Eu já teria ido embora.

Naquela noite, fiquei olhando para a comida fria enquanto as lembranças vinham uma atrás da outra, insistentes. No fim, apenas deixei os papéis do divórcio sobre a mesa dele.

Na manhã seguinte, usei as passagens que meu mentor havia providenciado. Embarquei em um jato particular rumo a Paris. Olhei pela janela, acompanhando o céu se abrir diante de mim.

A essa altura… Gwen já estaria em casa.

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