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Capítulo 2

مؤلف: Serein M

Uma dor aguda atravessou meu peito, cortando qualquer tentativa de manter a postura. As promessas dele… tinham acabado. O “para sempre”, que um dia parecia tão sólido, simplesmente deixou de existir, como se nunca tivesse sido real.

— Com licença… não estou me sentindo bem.

Forcei um sorriso fraco ao me levantar, ignorando o peso dos olhares sobre mim.

— Aproveitem o jantar.

— Flora… — a voz suave de Eliza veio da cabeceira da mesa, carregada de uma preocupação quase perfeita demais. — Você está pálida. Quer que eu te acompanhe até o quarto?

Ela parecia tão convincente que, se eu não conhecesse a verdadeira Eliza, talvez tivesse acreditado. Talvez até tivesse agradecido.

— Não, obrigada.

Saí dali sem esperar resposta, praticamente fugindo antes que qualquer coisa dentro de mim cedesse de vez. Quando finalmente alcancei o quarto, encostei as costas na porta e fechei os olhos por um segundo, tentando controlar a respiração, que vinha rápida demais, descompassada, como se meu próprio corpo estivesse rejeitando tudo aquilo.

Três anos. Três anos inteiros tentando sustentar algo que já vinha desmoronando muito antes de eu perceber. Aquela luz nos olhos de Gwen, a parte dele que um dia foi só minha, começou a desaparecer no instante em que Eliza entrou naquela casa, ocupando espaços que nunca foram dela, mas que ele passou a entregar sem resistência. Eu deixei de ser a mulher que ele admirava, a cientista que ele gostava de exibir com orgulho, e me tornei algo inconveniente, um peso silencioso que ele carregava por obrigação.

Eliza, por outro lado, era tudo o que ele queria ver. A santa. A viúva marcada pela tragédia. A mulher frágil que precisava ser protegida, cuidada, colocada acima de qualquer questionamento.

Troquei o vestido de festa por um roupão de seda, mas não havia a menor chance de dormir. Minha mente não parava, e o silêncio da casa só tornava tudo mais alto. Por volta da meia-noite, ouvi um barulho vindo do escritório. Desci as escadas em silêncio, com passos leves, e me aproximei da porta entreaberta, espiando antes de entrar.

Gwen estava sentado à mesa. Não estava trabalhando. Diante dele, uma pilha de catálogos de joias. Ele folheava cada página com atenção, marcando algumas opções com naturalidade, como se aquilo fosse apenas mais uma tarefa comum.

— O colar de diamantes parece bom — disse ao telefone, com a voz firme. — E os brincos combinando. Mande os dois.

Meu coração afundou de uma forma silenciosa, mas devastadora. Era o nosso aniversário de casamento. E ele estava comprando presentes para outra mulher.

Mesmo assim… eu precisava contar sobre Paris.

Empurrei a porta e entrei.

— Gwen.

Ele levantou o olhar imediatamente, atento, como sempre ficava quando era interrompido.

— Já é tarde. Por que não está dormindo?

— Preciso falar com você.

Caminhei até a mesa, sentindo o peso de cada passo.

— Recebi uma notícia hoje…

— Ótimo — ele me interrompeu sem hesitar. — Porque eu também tenho algo para te dizer.

A expressão dele mudou. Ficou mais dura, mais distante, como se estivesse prestes a anunciar algo definitivo.

— Tomei uma decisão — disse, olhando diretamente nos meus olhos. — O cargo de consultora-chefe da Fundação Falcone Tech vai ficar com a Eliza.

Minha respiração travou. Aquele cargo era meu. Sempre foi. Ele tinha prometido.

— Você não lembra? — minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. — Há um ano você disse que essa posição era minha. Que minha experiência poderia ajudar a financiar projetos importantes…

Gwen soltou uma risada baixa, sem qualquer traço de humor.

— Isso foi há um ano. As coisas mudam.

— O que mudou?

— Eliza precisa disso. Precisa de um propósito.

O tom dele não deixava espaço para discussão, como se aquilo já estivesse decidido muito antes de eu entrar naquela sala.

— E você, Flora? Com que direito questiona minha decisão?

Eu o encarei, sem acreditar no que estava ouvindo.

— Eu sou sua esposa.

— Esposa?

Ele se levantou devagar, assumindo aquela postura dominante que sempre usava quando queria encerrar qualquer confronto.

— Uma esposa de verdade não seria tão mesquinha enquanto eu cuido da viúva do meu irmão. Uma esposa de verdade entenderia suas responsabilidades.

— Responsabilidades? — minha voz subiu sem que eu conseguisse impedir. — E eu? O que eu sou para você?

— Você?

O olhar dele passou por mim como se eu fosse irrelevante.

— Uma nerd que passa o dia inteiro na frente do computador. Sem o meu dinheiro, você nem teria como sustentar essa sua “pesquisa”. Você deveria ser grata.

— Grata? — soltei uma risada amarga, sem vida. — Grata por quê? Por um marido que nunca dorme na nossa cama? Por um título que ninguém respeita? Por um coração que você mesmo destruiu?

O rosto dele escureceu.

— Chega, Flora. Sua inveja está te deixando feia.

Inveja. Era isso que ele enxergava. Como se tudo aquilo fosse apenas um capricho meu.

— Você realmente não percebe, não é?

Sorri, mas não havia leveza naquele gesto.

— Você não consegue ver o que eu sinto por você.

— Sentimentos?

A voz dele veio carregada de sarcasmo.

— Se você realmente me amasse, me apoiaria. Não faria birra como uma criança.

Olhei para ele por alguns segundos, tentando encontrar ali qualquer vestígio do homem que eu conheci um dia. Não havia mais nada.

— Entendi — disse por fim, virando as costas. — Parabéns para a Eliza pelo novo cargo.

Tudo bem. Eu vou embora de qualquer forma.

Voltei para o closet e comecei a arrumar minhas coisas para Paris com movimentos mecânicos, escolhendo apenas o essencial. Algumas roupas. Os discos rígidos com todo o trabalho da minha vida. E o teclado ergonômico personalizado que ele tinha mandado fazer para mim, com meu nome gravado, um dos poucos gestos que ainda carregavam algum significado.

Tentei não pensar, mas as lembranças vieram mesmo assim, invadindo sem pedir permissão. E doeram. Porque ele nem sempre foi assim. Houve um tempo em que Gwen me defendia sem hesitar, como naquela noite em um jantar com uma família rival, quando as outras esposas riram de mim, me chamando de nerd desajeitada. Ele me puxou para perto, me beijou na frente de todos e silenciou a sala inteira.

— Escutem bem — disse ele, com a voz baixa e perigosa. — Ela é minha mulher. Mais uma palavra… e eu arranco a língua de vocês.

Depois olhou para mim de um jeito que fazia tudo parecer certo.

— Comigo, Flora, você é a rainha desta sala.

Mas então Eliza apareceu. O irmão dele morreu por ele. E, com isso, Eliza se tornou a viúva que precisava ser protegida a qualquer custo. Gwen começou a compensar essa perda com atenção, com presentes, com uma devoção que crescia a cada dia.

Até que eu vi.

Vi Eliza em um clube privado, longe de qualquer olhar inocente. Vi ela com Marco, subchefe de uma família rival. Ela não parecia frágil. Não parecia quebrada. Ela ria. Tocava nele. Beijava como alguém que não tinha nada a esconder.

Mas antes que eu pudesse contar a verdade… ela me viu.

E chegou na mansão antes de mim.

Naquela mesma noite, pressionou um caco de vidro contra o próprio pulso e começou a gritar, transformando a cena em um espetáculo perfeito.

— Gwen, Flora está com inveja! Ela quer me destruir! Quer arruinar minha reputação!

Ela chorava, desesperada, como se fosse a vítima de algo que nunca aconteceu.

— Meu marido morreu por você… e é assim que você me trata? Me deixa morrer!

Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, Gwen já tinha decidido. Eu era a culpada. Sempre seria. Ele me agarrou pelo pescoço e me jogou contra a parede, os olhos cheios de uma raiva que eu nunca tinha visto antes direcionada a mim.

— Nunca imaginei que você fosse tão cruel, Flora. Inventar uma mentira dessas? Você não respeita meu irmão?

Ele puxou Eliza para os braços, como se ela precisasse ser protegida de mim, e mandou que eu saísse.

Depois disso, tudo piorou. As brigas ficaram mais frequentes. O silêncio, mais pesado. O afastamento, inevitável. Eu comecei a dormir na universidade, inventando desculpas que ele nem se dava ao trabalho de questionar.

Até que a porta se abriu.

Gwen apareceu no quarto, interrompendo meus pensamentos como uma presença que eu já não sabia mais como encarar.

— Flora… o que você está fazendo… com essa mala?

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