LOGINDepois do nosso noivado, nós seis combinamos fazer uma última viagem juntos antes do casamento. À noite, minha melhor amiga, Tereza, propôs uma brincadeira de trocar de par por 24 horas. Quem tirasse cartas com o mesmo desenho teria que passar um dia formando um casal. Quem tirasse uma carta em branco ficaria encarregado das fotos e da bagagem de todo mundo. Na primeira rodada, tirei uma carta em branco. Meu noivo, Vinicius, e Tereza tiraram a lua. Os dois foram ver o nascer do sol de mãos dadas. Eu segui atrás, carregando as mochilas de nós três. Na segunda rodada, tirei outra carta em branco. Eles tiraram a rosa, e a prenda era ficar abraçados por um minuto. Todos se juntaram em volta, entrando na brincadeira. Eu fiquei de lado, cronometrando. Veio a terceira rodada, depois a quarta... Sete vezes seguidas, fui eu quem ficou sobrando.
View MoreEu tinha esperado tempo demais para ouvir aquilo.Se ele tivesse dito mais cedo, talvez eu voltasse atrás. Da primeira vez que me deixaram para trás, quando vi os cinco posando para uma foto sem mim ou quando percebi que meu aniversário importava menos que as lágrimas de Tereza.Agora, porém, respondi com calma:— Não preciso mais que você mude. Daqui para a frente, quem você ama e de que lado escolhe ficar não tem mais nada a ver comigo.Vinicius apertou o anel até o aro afundar na palma da mão. Agora era ele quem sentia a dor que aquele anel um dia tinha causado em mim.— Você não me ama mais nem um pouco?Fiquei um instante em silêncio.— Amei.Os olhos dele ganharam um leve brilho, mas continuei:— Só que, a cada uma daquelas sete cartas em branco, esse amor foi acabando. Até não sobrar nada.Ele não foi embora logo. Ficou quinze dias na cidade.Aparecia todos os dias no local das filmagens, ajudava a carregar os equipamentos, providenciava água e conferia os veículos.Fazia em s
Três meses depois, Vinicius finalmente teve notícias minhas.Eu tinha ido para uma pequena cidade à beira-mar e entrado para uma equipe de documentaristas. Meu trabalho era fotografar as artesãs locais.Ele partiu às pressas naquela mesma noite e me encontrou perto de um píer antigo.Eu estava de casaco, com o cabelo bagunçado pelo vento do mar. Com a câmera erguida, eu fotografava uma senhora que remendava uma rede de pesca.Vinicius ficou um bom tempo me observando à distância.Era a primeira vez que ele me via fotografando alguém que não fazia parte daquele grupo de cinco.Eu sorria sem tentar agradar ninguém, sem que alguém tivesse me mandado parar de estragar o clima. Ele não me via sorrir com aquela leveza havia muitos anos.Quando terminei de fotografar, me virei e vi Vinicius. Meu sorriso desapareceu aos poucos.— O que você está fazendo aqui?Vinicius sentiu um aperto na garganta. Não conseguiu dizer nada do que tinha ensaiado durante a viagem. Demorou a falar:— Volta c
Na semana seguinte, Vinicius procurou em todos os lugares onde imaginava que eu pudesse estar. Ninguém sabia do meu paradeiro.As mensagens que ele me mandava deixaram de ser ordens e passaram a ser explicações.[Olivia, volta.][Posso pedir desculpas pela brincadeira. A gente pode organizar o casamento de novo.][Não dei o anel de noivado para a Tereza. Já mandei ela devolver.][É só você voltar. Daqui para a frente, você vai estar em todos os nossos encontros.]Ele passou um bom tempo encarando a última mensagem, até perceber o quanto aquelas palavras eram ridículas.Eu sempre estive ali. Eles é que nunca permitiram que eu fizesse parte de verdade. Agora que eu tinha ido embora, ele estava disposto a me oferecer um lugar, como se me fizesse um favor.As mensagens ficaram sem resposta.......No oitavo dia, Tereza apareceu com os olhos vermelhos e inchados. Colocou o anel de noivado sobre a mesa.— Vinicius, nós dois é que devíamos estar juntos, não é? Você passou tantos anos gost
Assim que o avião pousou, Vinicius foi direto ao meu apartamento. Nem passou em casa.A senha da fechadura não funcionava mais. Ele bateu por um bom tempo, até que o proprietário apareceu, vindo do andar de baixo.— Está procurando a Olivia? Ela entregou o apartamento ontem.Vinicius ficou sem reação.— Para onde ela se mudou?O proprietário passou uma caixa de papelão para ele.— Não sei. Ela pediu para te entregar esta caixa se você aparecesse.Vinicius pegou a caixa imediatamente. Era leve e guardava tudo o que ele tinha me dado naqueles anos: um relógio que já tinha saído de linha, alguns livros, um suéter velho e a câmera.Ele tinha comprado a câmera no nosso segundo ano de namoro.— Você tira fotos bonitas. Daqui para a frente, as fotos de nós cinco ficam por sua conta.Éramos seis. Ele disse "nós cinco", e eu não percebi o que havia de errado.Mais tarde, perguntei:— E eu?Ele pareceu surpreso, depois sorriu e fez um carinho no meu cabelo.— Você não é a fotógrafa? É claro qu












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