Share

Capítulo 202: Caixa Sete

last update publish date: 2026-09-04 21:06:26

A propriedade da família de Alice na encosta de Fiesole parecia pairar sobre Florença como um mirante renascentista. Longe do mármore estéril de Higienópolis e do gesso sem alma dos apartamentos de luxo de São Paulo, ali a arquitetura era feita de pedra antiga, vigas de madeira rústica expostas e imensas janelas que deixavam entrar o vento fresco carregado com o cheiro de alecrim e ciprestes.

Clara Mendes estava sentada à mesa do terraço externo, uma caneca de chá morno entre as mão
Continue to read this book for free
Scan code to download App
Locked Chapter

Latest chapter

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 202: Caixa Sete

    A propriedade da família de Alice na encosta de Fiesole parecia pairar sobre Florença como um mirante renascentista. Longe do mármore estéril de Higienópolis e do gesso sem alma dos apartamentos de luxo de São Paulo, ali a arquitetura era feita de pedra antiga, vigas de madeira rústica expostas e imensas janelas que deixavam entrar o vento fresco carregado com o cheiro de alecrim e ciprestes. Clara Mendes estava sentada à mesa do terraço externo, uma caneca de chá morno entre as mãos, observando o sol se pôr atrás da cúpula de Santa Maria del Fiore, ao longe. O silêncio daquela tarde não a sufocava; pelo contrário, era um bálsamo que aos poucos preenchia as lacunas deixadas por dois anos de um casamento que parecia uma auditoria constante. A porta de vidro correu suavemente e passos firmes, mas discretos, cruzaram o piso de terracota. Não era Alice. Gabriel entrou no terraço trazendo consigo a presença imponente, mas estranhamente reconfortante, que o d

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 201: A Quarta Semente

    A geada de junho na Serra da Mantiqueira tem uma qualidade que nenhuma outra tem: ela não cai, ela se deposita. Durante a madrugada, enquanto o vale dorme, o sereno assenta-se sobre as folhas das hortênsias, sobre as pedras do caminho e sobre o telhado de barro do casarão, e ali endurece devagar, sem pressa e sem ruído, até que o primeiro raio de sol encontre um mundo inteiro coberto por uma camada fina de cristais que estala sob o pé. Clara Mendes acordara antes daquele primeiro raio, como acordava havia três semanas, e permanecera imóvel na cama, no escuro, ouvindo.Não era o choro que a despertava. Era o intervalo antes dele — aquele instante em que a respiração da filha mais nova mudava de ritmo dentro do berço, ainda a três metros de distância, ainda sem som algum. Depois de três filhos, Clara aprendera que o corpo de uma mãe escuta com um órgão que a medicina não catalogou.Aurora tinha vinte e três dias.Clara ergueu-se sem acender a luz, atravessou o quarto pelo caminho que os

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 200: O Eterno Paraíso de Pedra

    A manhã do dia seguinte nasceu na Serra da Mantiqueira como uma pintura divina de proporções monumentais. O céu do alvorecer não trazia nuvens, apresentando uma graduação sublime de tons de azul-turquesa, rosa-orquídea e dourado-puro que se espalhava sobre as cristas e abismos do Vale de Roseiras. A geada matinal cobrira os gramados, os telhados de cerâmica e as pétalas das hortênsias com uma fina e brilhante camada de cristais de gelo que faiscavam como diamantes ao primeiro contato com os raios do sol.O ar era de uma pureza indescritível — frio, cortante e revigorante —, trazendo consigo o canto melodioso dos sabias e dos bentevis que povoavam os pinheirais da propriedade.Ao meio-dia, o calor morno do sol da montanha derretera a geada, deixando sobre a vegetação milhares de gotas de orvalho transparente que refletiam a iluminação de um início de tarde inesquecível.Na varanda principal do Pátio das Hortênsias, a família reunira-se para o almoço dominical. A grande mesa de madeira d

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 199: A Noite de Luzes e Promessas

    Com o encerramento do dia no Pátio das Hortênsias, a temperatura na Serra da Mantiqueira despencou com a rapidez típica do outono das altitudes. O ar tornou-se extremamente frio, seco e límpido, fazendo com que o céu se enchesse de um número incontável de estrelas que brilhavam como diamantes cravados em um veludo azul-profundo.No interior do casarão, o silêncio da noite instalara-se com uma mansidão acolhedora. No andar superior, os quartos das crianças já estavam na mais completa calma. Clarice adormecera em sua mesa de estudos após concluir a leitura de um clássico da literatura, com a lâmpada de cabeceira apagada carinhosamente por Sophia. No quarto ao lado, os gêmeos Matheus e Helena repousavam em suas camas de peroba-rosa, cobertos por edredons pesados de fustão, dormindo o sono tranquilo da infância preservada. Sophia recolhera-se aos seus aposentos após a habitual oração de agradecimento.Na grande sala de estar do pavimento térreo — um amplo espaço de arquitetura colonial-mo

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 198: O Retrato da Família Valois

    A luz do outono tardio na Serra da Mantiqueira possuía uma qualidade quase espiritual. Desprovida do calor excessivo do verão e da frialdade severa do inverno pleno, a iluminação do meio da tarde filtrava-se pelas copas das araucárias e dos pinheiros seculares em feixes dourados e oblíquos. Cada folha suspensa no ar parecia flutuar sobre um oceano de tranquilidade, e o aroma característico do Vale de Roseiras — uma combinação inebriante de lavanda, terra úmida, madeira envelhecida e as inconfundíveis hortênsias em pleno desabrochar — impregnava o pátio central do casarão.Não havia pressa nos passos daqueles que transitavam pela propriedade. O movimento que se observava na varanda principal e no gramado circundante era marcado por uma cadência serena, quase cerimonial.Na extremidade do jardim das hortênsias azuis e brancas, junto à balaustrada de pedra-sabão que se debruçava sobre o vale, uma figura elegante vestida em tons de cinza-grafite e empunhando uma câmera analógica de grande

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 197: O Legado de Roseiras

    Cinco anos haviam se passado desde a noite histórica em que Clara lançara O Livro das Hortênsias. O tempo na Serra da Mantiqueira, ao contrário da pressa devoradora das grandes metrópoles, fluía com a majestade das estações bem vividas: as primaveras floriam com mais abundância, os invernos traziam a geada prateada sobre os vales, e os outonos douravam as copas do grande carvalho do Pátio com uma cadência de paz e fartura.O Pátio das Hortênsias e a Fundação Flor de Jericó haviam atingido uma maturidade institucional e humana de escala internacional. O modelo de negócios sociais e de preservação cultural idealizado por Gabriel e Clara tornara-se referência de estudos em universidades de Genebra, Harvard e Tóquio. Contudo, para a comunidade de Roseiras, a verdadeira vitória não estava nos relatórios acadêmicos ou nas menções honrosas no exterior; estava na transformação visível e concreta das vidas daquela gente.Naquela manhã radiante de outubro, o Pátio vestia-se de um entusiasmo esp

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status