LOGINA luz da casa nova era pior. Foi a primeira coisa que Vera Duarte notou na segunda-feira de manhã, e foi a única coisa que ela permitiu-se notar: em Ermelino, a janela da sala dava para o muro do vizinho, a dois metros e meio, e a claridade que entrava ali era uma claridade de segunda mão, refletida, sem hora. Na Vila Ré dava para saber que horas eram pelo chão. Ali não dava. Ela pôs a água no fogo às cinco e vinte, por hábito, ainda que naquele bairro não passasse trem nenhum. O envelope pardo estava sobre a mesa, onde ela o deixara na noite de sábado, ao lado do celular. Não tinha guardado. Tinha ficado ali dois dias, entre o açucareiro e a lista de compras, e Vera passara por ele umas quarenta vezes sem tocar. Sentou-se. Puxou o celular. Digitou o nome da empresa que estava impresso no cartão. A primeira coisa que apareceu foi uma imagem de arranha-céu com vidro espelhado, seguida de uma sequência de manchetes de caderno de economia qu
A neblina daquela quinta-feira subiu do fundo do vale por volta das dez, engolindo primeiro o riacho, depois o pomar, depois o gramado, e às onze horas a janela da suíte-escritório do pavimento superior mostrava apenas uma parede branca e sem profundidade, como se alguém tivesse encostado uma folha de papel do lado de fora do vidro. Gabriel Valois gostava daquilo. Era a única hora do dia em que a serra o deixava esquecer que havia um mundo lá embaixo. A conferência com Nova York começara às nove em ponto e tinha por objeto uma coisa entediante e cara: a renovação de uma linha de crédito rotativo em dólar, com garantias cruzadas, cujo custo subira quarenta pontos-base desde a última repactuação. Havia seis pessoas na tela e uma sétima chamada apenas para responder a uma pergunta que ninguém fez. Gabriel ouviu tudo com a câmera ligada, o rosto imóvel, e falou três vezes. Da terceira, disse: — A gente não renova. Houve aquele silêncio
A propriedade da família de Alice na encosta de Fiesole parecia pairar sobre Florença como um mirante renascentista. Longe do mármore estéril de Higienópolis e do gesso sem alma dos apartamentos de luxo de São Paulo, ali a arquitetura era feita de pedra antiga, vigas de madeira rústica expostas e imensas janelas que deixavam entrar o vento fresco carregado com o cheiro de alecrim e ciprestes. Clara Mendes estava sentada à mesa do terraço externo, uma caneca de chá morno entre as mãos, observando o sol se pôr atrás da cúpula de Santa Maria del Fiore, ao longe. O silêncio daquela tarde não a sufocava; pelo contrário, era um bálsamo que aos poucos preenchia as lacunas deixadas por dois anos de um casamento que parecia uma auditoria constante. A porta de vidro correu suavemente e passos firmes, mas discretos, cruzaram o piso de terracota. Não era Alice. Gabriel entrou no terraço trazendo consigo a presença imponente, mas estranhamente reconfortante, que o d
A geada de junho na Serra da Mantiqueira tem uma qualidade que nenhuma outra tem: ela não cai, ela se deposita. Durante a madrugada, enquanto o vale dorme, o sereno assenta-se sobre as folhas das hortênsias, sobre as pedras do caminho e sobre o telhado de barro do casarão, e ali endurece devagar, sem pressa e sem ruído, até que o primeiro raio de sol encontre um mundo inteiro coberto por uma camada fina de cristais que estala sob o pé. Clara Mendes acordara antes daquele primeiro raio, como acordava havia três semanas, e permanecera imóvel na cama, no escuro, ouvindo.Não era o choro que a despertava. Era o intervalo antes dele — aquele instante em que a respiração da filha mais nova mudava de ritmo dentro do berço, ainda a três metros de distância, ainda sem som algum. Depois de três filhos, Clara aprendera que o corpo de uma mãe escuta com um órgão que a medicina não catalogou.Aurora tinha vinte e três dias.Clara ergueu-se sem acender a luz, atravessou o quarto pelo caminho que os
A manhã do dia seguinte nasceu na Serra da Mantiqueira como uma pintura divina de proporções monumentais. O céu do alvorecer não trazia nuvens, apresentando uma graduação sublime de tons de azul-turquesa, rosa-orquídea e dourado-puro que se espalhava sobre as cristas e abismos do Vale de Roseiras. A geada matinal cobrira os gramados, os telhados de cerâmica e as pétalas das hortênsias com uma fina e brilhante camada de cristais de gelo que faiscavam como diamantes ao primeiro contato com os raios do sol.O ar era de uma pureza indescritível — frio, cortante e revigorante —, trazendo consigo o canto melodioso dos sabias e dos bentevis que povoavam os pinheirais da propriedade.Ao meio-dia, o calor morno do sol da montanha derretera a geada, deixando sobre a vegetação milhares de gotas de orvalho transparente que refletiam a iluminação de um início de tarde inesquecível.Na varanda principal do Pátio das Hortênsias, a família reunira-se para o almoço dominical. A grande mesa de madeira d
Com o encerramento do dia no Pátio das Hortênsias, a temperatura na Serra da Mantiqueira despencou com a rapidez típica do outono das altitudes. O ar tornou-se extremamente frio, seco e límpido, fazendo com que o céu se enchesse de um número incontável de estrelas que brilhavam como diamantes cravados em um veludo azul-profundo.No interior do casarão, o silêncio da noite instalara-se com uma mansidão acolhedora. No andar superior, os quartos das crianças já estavam na mais completa calma. Clarice adormecera em sua mesa de estudos após concluir a leitura de um clássico da literatura, com a lâmpada de cabeceira apagada carinhosamente por Sophia. No quarto ao lado, os gêmeos Matheus e Helena repousavam em suas camas de peroba-rosa, cobertos por edredons pesados de fustão, dormindo o sono tranquilo da infância preservada. Sophia recolhera-se aos seus aposentos após a habitual oração de agradecimento.Na grande sala de estar do pavimento térreo — um amplo espaço de arquitetura colonial-mo







