Início / Romance / TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO / Capítulo 7: A Rachadura na Bolha

Compartilhar

Capítulo 7: A Rachadura na Bolha

last update Data de publicação: 2026-07-10 23:57:47

A bolha de paz que Clara construíra com farinha, argila e o afeto sincero de seus funcionários era um castelo de cartas vulnerável às marés do mundo exterior. O ostracismo era o seu maior aliado, mas os vampiros da alta sociedade — aqueles que se alimentavam de aparências e do sofrimento alheio — sabiam exatamente quando atacar.

O lembrete de que ela ainda pertencia ao tabuleiro vinha sempre da mesma forma: através de uma batida protocolar na porta da cobertura. A assistente pessoal de Arthur entrava no apartamento carregando cabides de grife, caixas de joias monogramadas, bolsas de grife e todos os acessórios milimetricamente selecionados para Clara. Não havia espaço para escolhas. O guarda-roupa de suas aparições públicas era ditado pelo departamento de relações públicas do Grupo Albuquerque. Na imensa maioria dos eventos corporativos de menor escalão, Arthur levava a amante sem a menor discrição, mas havia jantares de gala, posses de conselho e premiações internacionais onde a presença da "esposa legítima" era um requisito legal e imprescindível para a imagem de estabilidade das ações.

Nessas noites, Clara era forçada a vestir a armadura de luxo e a caminhar ao lado de um homem que mal a olhava nos olhos. A humilhação externa era um espetáculo público. Nos salões repletos de espelhos e tapetes vermelhos, Clara precisava suportar os sorrisos falsos das mesmas socialites que, pelas costas, cochichavam sobre o seu fracasso. Ela via os flashes dos fotógrafos registrando o seu casamento de fachada, sabendo que, nos bastidores da internet, todos zombavam da herdeira Mendes que fora trocada antes mesmo de subir ao altar.

A verdadeira tortura, contudo, desabava no dia seguinte a essas aparições ou sempre que as colunas sociais publicavam fotos de Arthur e da amante em jantares privados pelo mundo. Nesses momentos, a paz da cobertura caía por terra de forma violenta.

A primeira ligação era sempre de Beatriz Mendes. A voz da mãe cruzava a linha telefônica como um chicote, sem qualquer vestígio de calor maternal.

— Você é uma incompetente, Clara! — esbravejava Beatriz, o tom aristocrático destilando puro veneno. — Como permite que o seu marido apareça na capa de uma revista de negócios jantando com aquela mulher no dia seguinte a um evento oficial com você? Você não tem um pingo de dignidade ou de inteligência para segurar o homem que garante a nossa fusão? Nós te demos tudo, te vestimos com o que há de melhor, e você continua sendo essa coitada apagada. Uma peça inútil!

Antes mesmo que Clara pudesse se recuperar do impacto das palavras da mãe, o telefone fixo tocava. Dessa vez era Regina Albuquerque, a sogra. O tom de Regina não era histérico como o de Beatriz; era de uma frieza cirúrgica e ameaçadora.

— Minha querida, o conselho está extremamente descontente com a repercussão dessas fofocas — dizia Regina, a voz mansa e letal. — Esperávamos que uma Mendes tivesse o mínimo de postura para blindar o meu filho desse tipo de exposição. Se você não é capaz de se fazer respeitar como esposa diante da mídia, a sua permanência nessa estrutura começa a ser questionada. Trate de sorrir mais nas fotos e de agir como a mulher da casa, ou as consequências para a sua família serão graves.

Essas ligações diárias quebravam a proteção do sótão. A crueldade do mundo real penetrava as portas do triplex por meio das ondas eletromagnéticas, rrachando a bolha protetora que ela criara com tanto custo.

Após desligar o telefone, Clara sentava-se no chão da cozinha, com o peito arfando sob o peso da ansiedade e da humilhação. Marta se aproximava em silêncio, trazendo uma xícara de chá de camomila morno e pousando uma mão calejada e acolhedora em seu ombro, compartilhando de sua dor sem precisar dizer uma única palavra. O ostracismo social que lhe dava liberdade era, ao mesmo tempo, o isolamento que a deixava desprotegida contra os ataques de sua própria família.

Clara olhava para as suas mãos, ainda limpas da argila daquela manhã, ciente de que cada rachadura em sua bolha de paz era um lembrete do preço que precisava pagar. Os vampiros da sociedade queriam o seu sangue, as suas lágrimas e o seu orgulho, mas, enquanto bebia o chá sob o olhar compassivo de Marta, Clara prometia a si mesma que eles só teriam o seu silêncio. A sua alma continuaria guardada no sótão, esperando o momento certo de ser livre.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 244: Dona Zilda

    Elisa Duarte pensava devagar.Não era que ela não pensasse. Era que as coisas chegavam com atraso, como trovão depois do relâmpago, e no começo dos nove anos ela nem sabia que estava atrasada. Agora sabia.Isso era o pior e o melhor dos comprimidos.O médico tinha explicado com um desenho. Uma glândula do tamanho de um grão de feijão, embaixo do cérebro. O sangue tinha ido embora demais no parto e a glândula tinha morrido de fome. A glândula mandava recado no corpo inteiro e parou de mandar. E o corpo, sem recado, foi devagar desligando as luzes de dentro de uma casa grande, uma por uma, sem apagar nenhuma de todo.Ela achou bonito o desenho.Achou também, e não disse a ninguém, que era a primeira vez em nove anos que alguém explicava alguma coisa para ela olhando na cara dela.---Ela lembrava

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 243: A Curva de Baixo

    A ambulância levou vinte e dois minutos, o que, na Rua Serra do Japi, é considerado rápido.Levaram dona Zilda para a UPA da Vila Ré, e na UPA ela ficou catorze horas num corredor, numa maca encostada na parede entre um rapaz com a mão enfaixada e uma senhora que gemia baixinho, com uma máscara de oxigênio no rosto e uma pulseira de papel no punho, e Vera Duarte ficou aquelas catorze horas de pé ao lado da maca porque não havia cadeira.Na maca da frente havia uma senhora de uns oitenta anos, sozinha, com uma pulseira igual e uma bolsa de crochê em cima da barriga.Chamava-se Aparecida. Vera soube porque a enfermeira chamava alto de duas em duas horas para conferir a pressão, e porque, por volta das quatro da manhã, a velha esticou a mão e puxou a manga dela.— Filha.— Oi, senhora.— Que horas s&atild

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 242: Os Dois Velhos

    Vera acordou às cinco da manhã de segunda-feira e limpou a casa inteira, e passou o dia seguinte com raiva de si mesma por causa disso.Lavou o piso da sala. Tirou o pó do móvel da televisão. Trocou a fronha da mãe. Passou pano no vidro da porta da cozinha, que não era limpo desde a mudança, e no meio disso parou com o pano na mão e disse em voz alta, sozinha:— Que é isso, Vera.Terminou de limpar o vidro assim mesmo.Às oito e meia pôs a mãe sentada na cadeira da sala, a boa, a que tinha braço, com o lenço novo e a manta nas pernas, e a mãe deixou fazer tudo sem reclamar, o que era o sinal de que ela também estava querendo estar apresentável e nenhuma das duas ia admitir.Às nove em ponto tocou a campainha.---&nb

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 241: O Inventário de Dona Zilda

    No sábado a dona Zilda amanheceu boa.Vera desconfiou na mesma hora.Ela tinha lido sobre isso num folheto da própria clínica, num daqueles corredores em que a gente lê qualquer coisa para não pensar: que às vezes, perto do fim, o doente melhora. Come. Conversa. Quer levantar. Os médicos chamam de uma coisa e as enfermeiras chamam de outra, e as enfermeiras têm razão.Às sete e meia a mãe dela pediu café com leite e bebeu a xícara inteira.Às oito perguntou pelo jogo do Corinthians.Às nove e vinte disse:— Vera, pega a caixa que está em cima do guarda-roupa.— Que caixa, mãe?— Você sabe qual.Vera sabia qual.---Er

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 240: A Palavra

    No dia quarenta e sete, Davi acordou às seis e quarenta e sentiu cheiro de café.Ficou parado na cama.Havia uma ordem no mundo e a ordem era essa: ele acordava às seis e quarenta, ia ao banheiro, escovava os dentes, ia à cozinha, punha a água no fogo, separava os comprimidos da avó no pires branco de borda azul — o azul de manhã, o liso de noite, para não confundir —, punha os da mãe no pires liso, esquentava o leite, e às sete em ponto acordava as duas.Ele fazia isso desde os seis anos.Não havia manhã no mundo em que a cozinha cheirasse a café antes de ele entrar nela.Levantou-se devagar, com aquele cuidado de quem acha que ouviu barulho de ladrão, e foi até a porta da cozinha.A mãe dele estava de pé na frente do fogã

  • TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR, SENHOR CEO   Capítulo 239: Prescrição

    Carlos Henri de Valois acordou às cinco e dez, como acordava havia sessenta anos, e ficou deitado no escuro escutando a casa.Sabia que eles vinham.Ninguém tinha dito. O filho tinha ligado na noite de segunda-feira e perguntado se podia subir na quarta com o doutor Fontes, e tinha perguntado daquele jeito leve que os filhos usam quando estão evitando alarmar o pai, e que, exatamente por ser leve, alarma.Quarenta anos presidindo uma companhia ensinam um homem a ler agenda.Ele levantou-se às cinco e vinte, tomou os quatro comprimidos da manhã com meio copo d'água — o do coração, o da pressão, o anticoagulante e o outro, do qual ele nunca lembrava o nome — e foi para a varanda dos fundos com o café, no escuro, ver o dia chegar em cima das araucárias.Setembro em Roseiras é o mês mais bonito e ele nunca tinha conseguido explicar

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status