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POV / ISAURA TREVINE
Alisei o vestido enquanto o elevador subia e girei o anel no dedo, tentando conter a ansiedade. Faltavam catorze dias para o casamento, e eu ainda não sabia o que usaria na cerimônia. Conrad dizia que resolveria tudo, mas, sempre que eu perguntava sobre os preparativos, ele estava ocupado demais para conversar.
Naquela noite, fui sem avisar, mesmo sabendo que ele não gostava de visitas inesperadas. Não nos víamos havia mais de uma semana, e eu estava com saudade até de quando reclamava dos meus cachos presos nos botões da camisa dele. O elevador abriu, e segui para a última porta do corredor. Um homem estava sentado no chão, com a cabeça baixa e os cotovelos apoiados nos joelhos. Desviei da perna estendida, apertando a bolsa contra o corpo. Um bêbado naquele prédio? Pelo preço que devia custar morar ali, imaginei que alguém já teria aparecido para ajudá-lo.
Parei diante do apartamento e ergui a mão para bater, pensando se Conrad sorriria ao me ver ou se perguntaria por que eu não tinha ligado antes.
— Se eu fosse você, não bateria nessa porta.
Virei o rosto. O homem levantou a cabeça, ainda com os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Está falando comigo?
— Estou.
Baixei um pouco a mão, olhando da porta para ele.
— Por quê?
Ele passou os dedos pela barba antes de responder.
— Porque a minha namorada entrou aí.
Franzi a testa. Conferi o número do apartamento e voltei a encará-lo.
— Você deve estar enganado. Meu noivo mora aqui.
O homem olhou para o anel no meu dedo e depois para a porta.
— Não estou enganado. Eu a segui até aqui. Já faz mais de uma hora que ela entrou.
Senti um desconforto no estômago. Aproximei-me da madeira, ainda procurando alguma explicação para aquilo.
— Ela pode ter vindo conversar com ele…
Encostei o ouvido na porta antes que o homem respondesse. Ouvi um ruído abafado, seguido de uma voz feminina.
— Vai… mais forte…
Afastei o rosto por um instante, mas voltei a escutar. Precisava ter certeza. Um gemido mais alto atravessou a porta, e reconheci a voz de Conrad logo depois. Meu coração acelerou. Continuei com o ouvido ali, esperando alguma coisa que desmentisse o que tinha acabado de ouvir, até que meus olhos começaram a arder.
Ele tinha me pedido em casamento. Tinha segurado minha mão diante da minha avó e dito que cuidaria de mim. Faltavam duas semanas. Apoiei a palma na parede e me afastei da porta. O homem recolheu a perna quando desci até o chão, sem conseguir continuar de pé. Sentei perto dele e puxei o vestido sobre os joelhos.
— A gente vai se casar — falei, olhando para o anel.
Ele ficou alguns segundos sem responder.
— Então acho que é pior para você.
Virei o rosto, incomodada, mas não encontrei um sorriso. Ele estava com o maxilar apertado e uma das mãos fechada sobre o joelho. Observei o cabelo preto, a barba e a camisa escura sob o paletó aberto. Era bonito, mais velho que Conrad, com ombros largos e roupas bem cuidadas. Não parecia bêbado agora que olhava para ele de perto.
— O que está fazendo aqui? — perguntei.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Você acabou de ouvir.
— Quero dizer… por que continua aqui?
O homem passou a mão pela barba e olhou para a porta.
— Estou esperando ela sair.
Apertei a bolsa no colo. Eu não sabia se queria ver quem estava lá dentro. Ouvir tinha sido suficiente para fazer minhas mãos esfriarem, mas uma parte de mim ainda procurava uma explicação. Fechei os olhos, envergonhada por ainda esperar que Conrad tivesse alguma.
— Eu devia ir embora.
— Quer ir?
Olhei para o elevador, mas não me levantei. Não queria voltar para casa e encontrar minha avó esperando notícias do casamento. Ela tinha separado um tecido para fazer uma roupa nova, mesmo depois de eu dizer que não precisava. Na tarde do pedido, chorou quando Conrad colocou o anel no meu dedo.
Passei o polegar sobre a pedra e senti a primeira lágrima cair.
— Eu não sabia de nada.
O homem virou o rosto para mim. Limpei a bochecha depressa e procurei um lenço na bolsa, remexendo nas coisas sem encontrar. Ele retirou um lenço do bolso e estendeu na minha direção.
— Obrigada.
Sequei os olhos, tentando não estragar ainda mais a maquiagem. Tinha levado tempo para me arrumar. Escolhi o vestido de que Conrad gostava e soltei o cabelo porque ele sempre dizia que eu ficava mais bonita assim.
— Talvez seja a primeira vez — falei.
O homem olhou para a porta antes de responder.
— Isso faria diferença?
Abri a boca, mas não consegui dizer nada. Baixei o rosto, apertando o lenço entre os dedos. O elevador chegou, e um entregador saiu com uma sacola de papel. Levantei a cabeça, com vergonha de estar no chão, mas ele apenas conferiu o número do apartamento.
— Entrega?
O homem ao meu lado se levantou.
— Está pago?
— Está, sim.
Ele recebeu a sacola e agradeceu. O entregador voltou para o elevador, e fiquei olhando o desenho de um taco impresso no papel. Conrad dizia que aquele restaurante era caro demais pelo tamanho das porções. Eu tinha sugerido que fôssemos lá outra vez, mas ele preferiu pedir uma pizza e ficar no apartamento.
— O que foi? — o homem perguntou.
— Eu gosto da comida daí.
Ele olhou para a sacola e depois se sentou, deixando-a entre nós.
— Então vamos comer.
Encarei as embalagens que começou a retirar.
— É sério?
— Você está com fome?
Não comia desde o almoço, mas só percebi quando senti o cheiro.
— Um pouco.
Ele abriu uma tampa e me ofereceu a embalagem. Hesitei antes de pegar.
— E se eles vierem buscar?
— Melhor. Também estou esperando uma explicação.
Aceitei a comida e segurei o taco com um guardanapo. Dei uma mordida pequena, tentando engolir apesar do aperto na garganta. Eu devia levantar, bater, gritar, chamar Conrad de alguma coisa. Em vez disso, estava sentada com um desconhecido, comendo uma refeição que meu noivo pediu para outra mulher.
O movimento da fechadura me fez parar de mastigar.
— Amor, acho que a comida chegou — uma mulher falou lá dentro.
A porta abriu, e ela apareceu com os cabelos castanhos úmidos, usando uma camiseta de Conrad. A barra cobria parte das coxas. Ainda segurando a maçaneta, olhou para mim e depois para a embalagem nas minhas mãos. Coloquei a comida no chão e me levantei, com a bolsa apertada contra o corpo.
— Quem é você?
Ela entreabriu os lábios, mas Conrad apareceu atrás dela antes que respondesse. Estava com o cabelo molhado e uma toalha enrolada na cintura. Apoiou a mão nas costas da mulher e olhou para fora.
— Isa? O que você está fazendo aqui?
Balancei a cabeça, tentando responder. Olhei da mão dele nas costas dela para a camiseta que eu conhecia. Conrad retirou a mão e avançou até a entrada.
— Não. Calma, não é o que você está pensando.
A mulher olhou para ele e soltou uma risada curta.
— Essa aí é a sua noivinha?
Apertei a alça da bolsa enquanto as lágrimas começavam a cair. Conrad se virou para ela, mas outra voz interrompeu antes que ele dissesse alguma coisa.
— É exatamente o que ela está pensando.
O homem se levantou ao lado da porta. Quando se aproximou de mim, a mulher virou o rosto e finalmente o viu. Seus dedos apertaram a maçaneta.
— Você? O que está fazendo aqui?
Ele parou ao meu lado, olhando para ela.
— Esperando você sair.
Conrad também ficou olhando para o homem. Puxei o anel do dedo, sem conseguir prestar atenção em mais nada.
— Isa, olha para mim. — Conrad estendeu a mão. — Eu posso explicar. Entra, vamos conversar.
Recuei antes que ele me alcançasse.
— Eu fiquei aqui… — Minha voz falhou, e precisei respirar antes de continuar. — Eu fiquei torcendo até agora para não ser verdade.
— Por favor, deixa eu…
Joguei o anel na direção do rosto dele. Conrad virou a cabeça, e ouvi o objeto cair no piso, mas não procurei onde. Fui para o elevador chorando, enquanto ele chamava meu nome. Quando as portas abriram, entrei e apertei o botão do térreo. Só olhei para trás quando começaram a fechar.
Conrad ainda estava no corredor. Na saída do prédio, mal consegui enxergar a calçada pelas lágrimas. A chuva caía forte, molhando meus pés sob a cobertura, e procurei o celular na bolsa sem saber para quem ligar. Eu só queria ir embora, mas não conseguia parar de chorar.
POV / MAGNUS LANCASTERUma risada curta escapou dela.— Sério? Isso?— É o que eu quero fazer desde que você tocou meu rosto. Estou tentando prestar atenção no que você diz em vez de pensar na sua boca, mas você não está facilitando.Isaura deixou cair a mão que segurava o cabelo. Permanecemos nos olhando. Eu ouvia o ruído baixo da geladeira e acompanhava cada vez que ela respirava mais fundo. Uma perna dela esfregou a outra, um movimento curto, e ela prendeu o lábio inferior entre os dentes até a pele clarear.— Eu ainda estou muito brava — falou.— Não achei que tivesse deixado de estar.Ela olhou para o corredor. Quando voltou a me encarar, a expressão continuava séria, mas os dedos já não apertavam a borda da bancada.— Aquela noite foi confusa. Eu tinha bebido, estava magoada… Tem coisas de que não lembro direito.Esperei que terminasse.— Não sei se fazer isso de novo é uma boa ideia.— Você não precisa decidir agora.Ela me olhou por mais alguns segundos.— A gente não devia.—
POV/ MAGNUSNão pedi que aceitasse.Permanecemos em silêncio até Isaura erguer o rosto novamente. Dessa vez, seu olhar parou na minha boca. Franziu a testa e deu um passo para perto.— O que aconteceu aí?Toquei o canto do lábio.— Um soco— Eu estou vendo. Quem fez isso?— Conrad.Ela levantou a mão até meu queixo e virou meu rosto em direção à luz. Seu toque me fez prender a respiração por um instante.— Por minha causa?— Não, minha. Foi uma discussão entre nós dois.Seus olhos desceram até minha mão.— Vocês saíram no soco dentro da casa do seu avô?— No corredor.— Ah. Bem melhor.Tentei sorrir, e o corte ardeu. Isaura percebeu o movimento e soltou meu rosto.— Onde tem material para limpar isso?— Não precisa se preocupar.Ela me encarou.— Onde, Magnus?Indiquei o banheiro social. Isaura passou por mim e voltou pouco depois com o estojo de primeiros socorros. Colocou-o sobre a bancada, abriu e examinou o conteúdo.— Aqui — disse, apontando para o lugar sob a luz.Aproximei-me.
POV / MAGNUS LANCASTERAfastei a taça da beirada da mesa e me abaixei ao lado da poltrona. Isaura estava com a cabeça inclinada para o lado, numa posição que provavelmente faria seu pescoço doer quando acordasse. Toquei seu ombro para tentar acomodá-la, mas ela abriu os olhos antes que eu conseguisse.Endireitou o corpo depressa e olhou para o corredor.— O Lírio…— Está quietinho. Não ouvi nada desde que entrei.Ela permaneceu escutando por alguns segundos. Depois esfregou o rosto, afastando os cachos que tinham caído sobre os olhos.— Que horas são?Disse o horário e me levantei para lhe dar espaço. Isaura olhou para a taça que eu tinha mudado de lugar e ajeitou a saia do vestido sobre os joelhos.— Desculpe — falei. — Não queria acordá-la.— Eu estava esperando você.Sua voz ainda estava rouca de sono. Ela girou o pescoço devagar e levou a mão à nuca, fazendo uma careta.— Podemos conversar pela manhã. Você precisa descansar.Isaura deixou a mão cair sobre o colo e ergueu o rosto.
POV / MAGNUS LANCASTERPor alguns segundos, só consegui olhar para ela.Isaura estava com o cabelo desalinhado, a roupa amarrotada e o rosto abatido. O menino se remexia em seu braço enquanto ela tentava levantar a mochila. Quando ele vomitou, ela baixou a bagagem depressa e começou a procurar alguma coisa para limpá-lo.O passageiro continuou reclamando.Minha vontade foi mandá-lo calar a boca. Em vez disso, peguei a mochila aos pés dela e a coloquei no compartimento.Ofereci a troca de lugar para tirá-lo de perto.Isaura agradeceu sem levantar o rosto. Havia lágrimas em sua bochecha, e ela parecia concentrar todo o esforço em cuidar do filho e conseguir se sentar.Eu queria dizer que era eu. Perguntar como estava, por que tinha ido embora e se alguma vez pensou em me procurar. Nenhuma daquelas perguntas cabia enquanto ela limpava a roupa suja e tentava acalmar uma criança.Sentei ao lado dela.Pouco depois, Isaura encostou a cabeça e adormeceu.Fiquei observando seu rosto por alguns
POV / MAGNUS LANCASTERIsaura olhou para minha boca antes de dizer que eu podia beijá-la.Puxei a cadeira para perto e esperei que se virasse para mim. Quando afastei os cachos de seu ombro, senti sua pele arrepiar sob meus dedos. Ela continuou me olhando, embora apertasse a borda do assento como se precisasse ocupar as mãos.Gostei de perceber que eu a deixava nervosa. Gostei ainda mais quando segurou minha camisa e me puxou para perto.Sua boca era macia. Havia um gosto leve de bebida em seus lábios, e a hesitação dos primeiros segundos desapareceu aos poucos, conforme ela correspondia. Isaura me beijava e se afastava apenas o suficiente para respirar antes de procurar minha boca outra vez.Eu tinha me interessado por ela antes daquele beijo. Ainda assim, não esperava sentir tanta vontade de continuar.Quando perguntei se queria sair dali, ela respondeu olhando nos meus olhos. Acertei a conta, ofereci a mão e saí do bar pensando em como seria ficar com aquela mulher sem uma mesa ent
POV / MAGNUS LANCASTERAntes de Conrad se mudar para o Brasil, nós nos víamos com frequência na Inglaterra. Ele aparecia no meu apartamento, pegava alguma coisa para beber e passava uma hora reclamando das cobranças da família. Eu trabalhava enquanto o ouvia, interrompendo apenas quando precisava lembrá-lo de que ter dinheiro não o dispensava de fazer alguma coisa útil.Ele ria, dizia que eu tinha nascido velho e continuava aparecendo.Depois da mudança, as visitas viraram ligações. Foi numa delas que falou de Isaura pela primeira vez.Eu estava no escritório quando ele enviou uma fotografia e pediu que abrisse.A imagem mostrava uma mulher de cabelos claros e cacheados, sorrindo para quem estava atrás da câmera. Tinha olhos claros, o rosto delicado e uma expressão que não parecia ensaiada.— Minha namorada — ele anunciou.Afastei o telefone do ouvido para olhar outra vez.— Você está namorando?— Há um tempo.— E só está contando agora?Conrad riu.— Você vive ocupado. Ela faz Enferm







