LOGINA semana que se seguiu ao encontro no elevador foi um exercício de dissonância cognitiva para Lara. O sétimo andar era um universo de cores primárias, reuniões ágeis em pé, brainstormings com post-its coloridos e a enervante alegria corporativa de um time de marketing jovem e ambicioso. Seus novos colegas eram agradáveis, seu chefe imediato, o senhor Almeida, um homem de meia-idade com um ar permanentemente atormentado, mas justo. O trabalho era desafiador, mas dentro da esfera do que ela esperara: análises de mercado, esboços de campanhas, relatórios de desempenho.
Mas por trás de cada tarefa, de cada sorriso trocado na copa, da textura áspera do carpete comercial, pairou a sombra do décimo andar. Era como se ela tivesse sido infectada por um vírus silencioso, uma perspectiva que a separava dos outros. Enquanto todos discutiam o como, ela agora também pensava no porquê. Enquanto se preocupavam com o engajamento de uma postagem, ela se pegava ponderando sobre o custo de aquisição de cliente e o retorno sobre o investimento que tanto interessava à "trindade" de Calleb.
Ele não deu nenhum sinal. Nenhum e-mail, nenhuma convocação. Ela não o viu. Mas sua presença era tão palpável quanto o ar condicionado que soprava incessantemente. Era ele, ela sabia, o destinatário final, invisível e onipotente, de todos os relatórios que subiam na cadeia alimentar corporativa. Cada análise sua era feita com um cuidado meticuloso, cada sugestão era ponderada não apenas pelo que agradaria a Almeida, mas pelo que sobreviveria à frieza da sala de reuniões do décimo andar. Ela estava se moldando, regando a semente com a única coisa que tinha: uma atenção obsessiva aos detalhes e uma compreensão recém-nascida do jogo.
Foi numa quinta-feira à tarde, quando o cansaço começava a se instalar e o burburinho do open space diminuía para um zumbido sonolento, que o e-mail chegou. Não era do RH, nem de Almeida. Veio diretamente da assistente de Calleb, uma mulher chamada Sra. Valéria. O assunto era seco e direto: "Convite para uma conversa".
O corpo de Lara gelou. As palavras na tela pareciam pulsar. O convite não era uma pergunta; era uma ordem. O horário: 17h30, no final do dia. O local: Sala 1001, décimo andar.
O resto da tarde foi um borrão. Ela tentou se concentrar numa planilha, mas os números dançavam em sua visão. Toda lógica gritava que era uma armadilha. Talvez ele finalmente tivesse decidido que ela era um investimento ruim. Talvez aquele "tour" tivesse sido uma extravagância momentânea da qual ele se arrependera, e agora ele iria cortar o mal pela raiz, demitindo-a antes que completasse duas semanas. Ou pior: talvez fosse humilhá-la, mostrar-lhe o lugar dela de forma mais explícita.
Às 17h25, com as mãos frias e o estômago em nós, ela estava diante do elevador. O mesmo elevador. Aperta o botão, o coração batendo na garganta. A viagem para cima foi uma repetição agonizante da primeira, mas desta vez sem o elemento surpresa, apenas o peso da expectativa e do medo.
As portas se abriram para o mesmo silêncio aveludado. O carpete azul-marinho pareceu engolir o som de seus passos enquanto ela se dirigia à porta 1001. A placa de latão era simples: "Calleb de Assis - Diretor de Estratégia". Ela respirou fundo, ergueu a mão e bateu na madeira maciça.
- Entre.
A voz era dele, inconfundível, vinda de dentro. Ela girou a maçaneta pesada e entrou.
O escritório era... desconcertante. Não era a cela espartana que ela imaginara, nem a suntuosa caverna de um tirano. Era amplo, com uma parede inteira de vidro que oferecia uma vista deslumbrante da cidade que começava a acender suas luzes contra o crepúsculo. A decoração era minimalista, quase austera. Uma mesa imponente de madeira escura e linhas retas, sem uma migalha ou papel sobre ela, apenas um laptop fino e um monitor curvado. Duas cadeiras de aço e couro preto do outro lado. Uma poltrona de couro envelhecido perto da janela. Nas paredes, nenhum diploma ou foto de família, apenas duas obras de arte abstratas, similares à que ela tinha visto no corredor, explorando tons de cinza, preto e um toque de vermelho carmim. O ar cheirava a couro, a madeira polida e a um silêncio caro.
Calleb não estava atrás da mesa. Estava de pé diante da janela, de costas para ela, as mãos nos bolsos do paletó, que ele tinha retirado, revelando suspensórios finos sobre uma camisa branca imaculada. Ele se virou lentamente. Seu rosto estava iluminado pela luz fraca do fim de tarde, acentuando os ossos salientes de suas maçãs do rosto e a sombra de sua mandíbula forte.
- Lara. Sente-se. - Ele indicou uma das cadeiras em frente à mesa com um gesto breve.
Ela obedeceu, sentando-se na borda da cadeira, a coluna ereta como uma vara. Ele caminhou até a sua cadeira, do outro lado, mas não se sentou. Inclinou-se, apoiando as pontas dos dedos na superfície polida da mesa, e inclinou-se para a frente. O olhar de tempestade varreu-a da cabeça aos pés, e ela sentiu-se como um diagrama sendo analisado.
- Uma semana - ele começou, sua voz um baixo constante e controlado. - Tempo suficiente para se adaptar ao ritmo do sétimo andar. Tempo suficiente para mostrar padrões.
Lara engoliu em seco. - Eu... tenho me esforçado para me integrar à equipe e compreender as dinâmicas do departamento, senhor.
- Esforço é irrelevante. Resultados são tudo. - Ele endireitou-se e pegou um tablet fino da gaveta da mesa. Passou os dedos pela tela. - O seu relatório sobre a análise de concorrência da campanha 'Verão Azul'. Conclusões óbvias, mas a metodologia foi... meticulosa. A sua sugestão para o reposicionamento do produto secundário na reunião de terça-feira. Ingênua em sua execução, mas o raciocínio estratégico por trás era sólido. Você pensa. Não apenas executa.
Ela não sabia o que dizer. Um elogio? Uma crítica disfarçada? - Obrigada, creio eu.
Ele ignorou o comentário e colocou o tablet de volta na gaveta. - O senhor Almeida está satisfeito. Diz que você é 'aplicada'. - A palavra soou como um insulto em sua boca. - Aplicada. Como um cão bem treinado.
Lara sentiu um calafrio. - O senhor Almeida é um bom chefe.
- O senhor Almeida é um administrador competente. Ele mantém as engrenagens do sétimo andar girando. Mas ele não pensa no próximo ano. Ele pensa no próximo trimestre. Existe uma diferença fundamental. - Ele finalmente sentou-se, a cadeira girando levemente sob seu peso. Ele encarou-a através da vastidão da mesa. - E você, Lara? No que você pensa?
Ela sentiu a armadilha se fechando. - Penso em fazer um bom trabalho. Em aprender. Em crescer na empresa.
- Mentira.
A palavra foi dita com uma calma tão absoluta que foi mais cortante do que um grito. Lara sentiu como se tivesse levado um tapa.
- Eu... desculpe?
- Você ouviu perfeitamente. - Ele cruzou as pernas, relaxado, o predador que sabia que a presa estava encurralada. - 'Crescer na empresa'. É o que está escrito no manual do estagiário. É o que se diz nas entrevistas. Não é a verdade que queima dentro de você. Eu a vi no elevador. Não era apenas medo. Era... ambição. Uma fome contida. Você não quer apenas 'crescer'. Você quer subir. Você quer chegar aqui. - Ele apontou para o chão, para o carpete azul-marinho. - E você sabe, no seu íntimo, que ser 'aplicada' e fazer um 'bom trabalho' não é suficiente para isso. São necessárias outras... qualidades.
Lara ficou em silêncio, o coração batendo tão forte que ela temia que ele pudesse ouvir. Ele estava lendo sua alma com uma precisão aterradora. Era como se ele tivesse vasculhado os cantos mais sombrios e ambiciosos de sua mente, aqueles que ela mal admitia para si mesma.- Não sei do que está falando - sussurrou, mas a voz faltou, sem convicção.- Claro que sabe. - Ele inclinou-se para a frente novamente, sua voz baixando para um tom quase confidencial, íntimo e, por isso, ainda mais perigoso. - Você acha que eu cheguei a esta cadeira sendo 'aplicado'? Sendo um bom menino que fez seu dever de casa? Existe um ecossistema aqui, Lara. Uma selva de vidro e aço. Existem alianças que se formam nos corredores, inimizades que nascem em reuniões, informações que valem mais do que ouro. Existem regras não escritas. E eu... - ele fez uma pausa dramática, seus olhos fixos nos dela - ... eu sou o mestre dessas regras.Ele abriu uma gaveta e tirou um pequeno crachá. Era o crachá de visitante tempo
A semana que se seguiu ao encontro no elevador foi um exercício de dissonância cognitiva para Lara. O sétimo andar era um universo de cores primárias, reuniões ágeis em pé, brainstormings com post-its coloridos e a enervante alegria corporativa de um time de marketing jovem e ambicioso. Seus novos colegas eram agradáveis, seu chefe imediato, o senhor Almeida, um homem de meia-idade com um ar permanentemente atormentado, mas justo. O trabalho era desafiador, mas dentro da esfera do que ela esperara: análises de mercado, esboços de campanhas, relatórios de desempenho.Mas por trás de cada tarefa, de cada sorriso trocado na copa, da textura áspera do carpete comercial, pairou a sombra do décimo andar. Era como se ela tivesse sido infectada por um vírus silencioso, uma perspectiva que a separava dos outros. Enquanto todos discutiam o como, ela agora também pensava no porquê. Enquanto se preocupavam com o engajamento de uma postagem, ela se pegava ponderando sobre o custo de aquisição de c
Ele continuou a andar. Lara seguia, uma sombra silenciosa, absorvendo cada palavra, cada nuance. Ele não estava apenas mostrando o andar; estava dando uma aula sobre poder, sobre percepção.- Os andares de baixo - continuou ele, sua voz soando clara no silêncio - são fundamentais. Eles são as mãos que constroem, as vozes que vendem, as mentes que criam. Mas é fácil perder a perspectiva quando se está imerso no fazer. Ficar preso no 'como' e esquecer o 'porquê'. O sétimo andar preocupa-se com a próxima campanha. O décimo preocupa-se com o próximo ano. Os próximos cinco.Pararam em frente a uma parede de vidro fumê que dava para uma sala de reuniões vazia. Uma mesa de cristal comprida, rodeada por cadeiras de couro preto. Uma tela que ocupava uma parede inteira.- Esta é a sala onde sonhamos com o futuro. E onde matamos ideias. - Seu olhar era frio ao percorrer a sala vazia. - É mais importante saber o que não fazer, do que se encher de entusiasmo por projetos fadados ao fracasso. Senti
Mas o dedo não desceu.Em vez disso, desviou, pairando por um instante, antes de pressionar com decisão o botão no topo do painel. O número 10 acendeu-se em um vermelho solene.Um clique quase inaudível, e o elevador, que já começava a desacelerar para a parada programada no sétimo andar, retomou sua subida suave e implacável. A mudança de direção foi tão sutil quanto aterradora. Lara sentiu a leve pressão nos ouvidos, a sensação de estar sendo levada para um lugar para o qual não tinha comprado passagem.Ela olhou para o homem, seus olhos agora wide abertos, uma pergunta silenciosa e alarmada congelada em seus lábios.Ele se virou novamente para encará-la, e desta vez havia um traço de algo naquele olhar de tempestade, uma centelha de interesse, ou talvez apenas a frieza de um cientista que decidiu mudar o curso do seu experimento.- O sétimo andar pode esperar - disse ele, a voz ainda baixa, mas agora com uma nuance que soava quase como um desafio. - Vamos fazer um tour. O décimo an
O primeiro som que Lara registrou ao cruzar a porta giratória de vidro fumê do edifício Mirage Corporate não foi o burburinho profissional dos funcionários, nem o clique elegante de saltos no mármore, mas o som estrondoso de seus próprios pulmões lutando por ar. Ela tinha corrido os três quarteirões que separavam o ponto de ônibus da entrada monumental, com os saltos pretos e novos, desconfortáveis, uma pequena traição, martelando a calçada num ritmo de pânico. O vestido cinza, impecável há vinte minutos atrás em seu minúsculo apartamento, agora colava-se às suas costas com o suor frio da ansiedade. O primeiro dia. O grande dia. E ela estava atrasada.O saguão era um monumento ao frio bom-gosto. Um vasto canyon de mármore branco cheio de veias cinza, onde o ar cheirava a limpeza agressiva e a dinheiro velho. Luzes embutidas no teto duplamente alto lançavam padrões geométricos de claridade sobre o piso, que refletia as silhuetas apressadas de figuras em ternos impecáveis. Lara sentiu-s







