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Tarde Demais para me Amar
Tarde Demais para me Amar
Primavera Perdida

Capítulo 1

Primavera Perdida
Ao ser diagnosticada com câncer no cérebro, descobri duas coisas.

Uma delas era que a minha certidão de casamento com Euzébio era falsa, a outra, que o filho biológico que criei por seis anos também sabia disso e, pior, preferia que outra mulher fosse sua mãe.

Naquele momento, percebi que os sete anos em que abandonei minha família, ocultei minha identidade e sacrifiquei tudo, não passaram de uma piada de mau gosto.

Então, tomei três atitudes para desaparecer completamente da vida desse pai e filho insensíveis.

A primeira: cancelei o jantar à luz de velas de comemoração de sete anos que havia reservado há um mês e saí do grupo de mães da escola do meu filho.

A segunda: procurei o médico para realizar testes de resistência e solicitar medicamentos potentes, garantindo que meu corpo suportasse a viagem para o exterior.

A terceira: liguei para o meu irmão, com quem não falava há sete anos, e disse a ele que eu havia errado e queria voltar para casa.

...

— Sra. Mendes, o tumor cerebral já está comprimindo seus nervos. A senhora precisa tomar uma decisão o mais rápido possível.

No corredor do hospital, impregnado pelo cheiro de desinfetante, as palavras do médico pareciam ecoar incessantemente.

Clarice tremia inteira, apertando o exame que já estava amassado em suas mãos.

Ultimamente, ela sofria com dores de cabeça frequentes, vômitos e sangramentos nasais ocasionais.

Achava que eram apenas sintomas de estresse por noites mal dormidas, mas jamais imaginou que um exame de rotina revelaria tal sentença de morte.

O médico disse que ela precisava escolher um plano de tratamento.

Ou a cirurgia, com cinquenta por cento de chance de sucesso e sobrevivência.

Ou o tratamento conservador, com remédios e quimioterapia, perdendo o cabelo para viver mais alguns anos.

Clarice tinha medo de apostar naquela metade de chance.

Desde pequena, ela tinha pavor até de injeções, quanto mais de deitar em uma mesa de cirurgia fria, enfrentando uma escolha de vida ou morte.

Mas, se não operasse, teria que encarar o crescimento do tumor e uma morte lenta e dolorosa.

Clarice fechou os olhos, pensando em seu marido, Euzébio.

Estava casada com Euzébio há sete anos, ela o amava e queria passar muitos anos ao seu lado.

Além disso, tinham um fruto dessa união, o pequeno Álvaro, um menino lindo e inteligente.

Ao pensar nos dois homens mais importantes de sua vida, uma coragem imensa brotou no coração de Clarice.

Ela se levantou e abriu a porta do consultório.

— Doutor, já decidi. Pode agendar a craniotomia.

O médico manteve a expressão séria:

— Há apenas cinquenta por cento de chance. A senhora não tem medo?

Clarice sorriu:

— Não. Acredito que meu marido e meu filho estarão ao meu lado. Com eles, não temo nada.

O médico assentiu solenemente:

— Certo, agendarei sua cirurgia para daqui a um mês.

Clarice saiu do hospital ansiosa para voltar para casa, buscando o carinho e o apoio do marido e do filho.

A empregada informou que Euzébio não estava, pois havia ido para a empresa.

Clarice correu para o Grupo Mendes e chegou à porta do escritório da presidência.

Antes de entrar, ouviu acidentalmente a voz de um homem.

— Euzébio, se a Clarice souber que você colocou a Florinda como sua secretária, ela vai ficar furiosa, não vai?

Clarice estancou, vendo claramente pela fresta da porta o melhor amigo de Euzébio, Wagner Rocha.

Florinda?

Florinda Rosa?

Ela conhecia aquele nome muito bem, era a mulher que Euzébio guardava no fundo do coração há dez anos.

O homem sentado à mesa mantinha o olhar baixo. O colarinho da camisa preta estava levemente aberto e as mangas dobradas, exalando um ar de seriedade e distanciamento.

Ele respondeu com impaciência:

— Não se meta nos assuntos da minha empresa.

Wagner encolheu os ombros e fez um bico:

— Enfim, todos esses anos eu respeitei a Clarice em consideração a você, mas quem está ao seu redor sabe que vocês só são casados de mentira! Aquela certidão de casamento foi falsificada por mim a seu pedido!

Ao ouvir aquilo, o rosto de Clarice empalideceu rapidamente, e ela ficou paralisada como se tivesse sido atingida por um raio.

O que... ela tinha acabado de ouvir?

O casamento dela com Euzébio... era falso?

Euzébio estava de lado para a porta e não percebeu a presença de ninguém do lado de fora.

Wagner continuou, curioso:

— Euzébio, por que não diz nada? Agora que a Florinda voltou, por que você não se livra logo da Clarice? Falando nisso, se a Clarice não tivesse insistido tanto, se aproveitado da sua bebedeira para te seduzir e engravidar, você nunca teria fingido esse casamento com ela. Isso partiu o coração da Florinda, que só aceitou voltar agora.

Clarice prendeu a respiração.

A pressão intracraniana aumentou, e ela cobriu a boca, lutando desesperadamente contra a ânsia de vômito.

Naquela noite no bar, Wagner estava presente.

Wagner sabia muito bem que ela não tinha oferecido bebida a Euzébio. Foi uma empresa rival que colocou afrodisíaco na bebida dele, e ela se ofereceu voluntariamente como "antídoto", acompanhando Euzébio ao hotel.

Por que jogavam toda a culpa nela?

Wagner riu levemente:

— Quando você vai dar um status oficial para a Florinda e trazê-la para casa com todas as honras? Se não fosse pela doença cardíaca dela na época, que a fez ir embora para não te atrapalhar, a Clarice nunca teria encontrado essa brecha. O lugar de Sra. Mendes sempre deveria ter sido da Florinda!

Euzébio ergueu os olhos, descontente.

Seu olhar transmitia um aviso gelado.

— Eu e Clarice tivemos o Álvaro...

Clarice tremia tanto que mal conseguia ficar de pé.

Não aguentando mais, virou-se e correu para o banheiro.

Por isso, não ouviu o restante do que Euzébio disse.

Clarice vomitou até sentir que desmaiaria.

Não sabia se era pelo nojo da verdade ou pela reação fisiológica da doença.

Uma funcionária entrou, assustou-se e lhe entregou lenços de papel.

Clarice pegou com os olhos vermelhos e deu um sorriso que mais parecia um choro:

— Obrigada. Não diga ao Euzébio que estive aqui.

Ela se virou e saiu cambaleando da empresa, vagando pelas ruas como uma morta-viva, relembrando o primeiro encontro com Euzébio.

Sete anos atrás, ela era uma designer de renome internacional, liderando a joalheria do irmão, sem qualquer ligação com Euzébio.

Numa viagem a negócios, assim que Clarice saiu do hotel, seu vestido rasgou repentinamente.

Prestes a ficar exposta, foi Euzébio quem saiu de um Maybach, inclinou-se e entregou-lhe o paletó impecavelmente passado.

— Amarre na cintura.

Aquela frase curta resolveu o pânico e o constrangimento de Clarice num ambiente estranho.

Ao erguer a cabeça, ela se apaixonou pelo rosto bonito de Euzébio.

Desde então, Clarice não conseguiu esquecê-lo. Pediu ao irmão para usar suas conexões, criando oportunidades de trabalho para se aproximar de Euzébio e conquistá-lo.

Mesmo sabendo que Euzébio tinha uma paixão antiga que havia partido sem se despedir, ela nunca recuou.

Após o incidente da bebedeira, eles tiveram relações, ela engravidou e o casamento aconteceu naturalmente.

Clarice ainda se lembrava de perguntar a Euzébio na noite de núpcias por que ele se casou com ela, já que ela não havia exigido responsabilidade.

O sempre frio Euzébio olhou para ela pela primeira vez e disse lenta e solenemente:

— Quero dar a você e à criança um lar.

Por causa dessa frase, Clarice se dedicou inteiramente ao casamento, cuidando do marido e do filho, abandonando sua carreira contra a forte objeção do irmão e decidindo ficar no país.

Mas agora, descobria que o casamento pelo qual sacrificou tudo nem sequer existia.

Euzébio nunca a considerou sua esposa, durante sete anos, pensou em outra mulher enquanto fingia ser marido dela!

O coração de Clarice sangrava, sentia-se uma piada completa.

Ela tomou uma decisão.

Se a cirurgia fosse um sucesso dali a um mês, ela levaria Álvaro embora. Euzébio não precisaria mais se preocupar com o filho que tinha com ela e poderia se casar com quem quisesse.

Ao pensar no filho, Clarice recuperou as forças.

Correu para casa e, assim que subiu as escadas, ouviu Álvaro conversando com o mordomo.

— Mordomo, se a mamãe soubesse que o casamento dela com o papai é falso, ela ficaria muito triste?

Os olhos de Clarice se arregalaram.

O mordomo sorriu gentilmente:

— Não tem jeito, o senhor não gosta da senhora, você sabe disso.

Álvaro bufou com sua voz infantil:

— Na verdade, eu também não gosto da mamãe. Gosto mais da Florinda, ela é tão gentil. Toda vez que a mamãe me leva para a empresa, ela me dá um monte de doces e brinquedos, diferente da mamãe, que só diz que comer besteira faz mal e me manda estudar. Que chato! Seria tão bom se a Florinda pudesse se casar com o papai.

Clarice apertou as palmas das mãos, sentindo uma dor no coração que quase a fez desmaiar.

Até a criança que ela criou com tanto esforço era, assim como Euzébio, fria e insensível.

Clarice lembrou-se das cenas de amor materno e harmonia conjugal, percebendo que tudo não passava de um sonho.

Um pesadelo disfarçado de doçura.

Quando seu irmão se opôs veementemente ao seu casamento longe de casa, temendo que ela sofresse, ela deveria ter ouvido.

Se o irmão soubesse o que Euzébio fez e a atitude da criança, provavelmente viria armado para tirar satisfação.

Clarice piscou os olhos ardentes e desceu as escadas.

A esperança de enfrentar a morte na mesa de cirurgia pelo marido e pelo filho se despedaçou.

Ela foi para a sala, pegou o celular e fez uma ligação.

— Mano, vou me divorciar. Você vem me buscar para voltar para casa?
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