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Capítulo 3

Author: Primavera Perdida
Clarice chamou um carro à beira da estrada. Enquanto esperava, preparava-se para comprar uma passagem aérea e ir direto para o aeroporto.

No entanto, o médico ligou naquele momento.

— Sra. Mendes, quando a senhora vai para o exterior para o tratamento conservador?

Clarice estava parada sob a luz amarelada do poste, sua silhueta esbelta alongada no chão.

Ela baixou os olhos, encarando a sombra:

— Agora. Estou indo para o aeroporto.

O tom do médico tornou-se ansioso:

— Não pode! A senhora tem um tumor cerebral. A pressão intracraniana é diferente da de uma pessoa normal. Voar pode causar muitas complicações inesperadas. É obrigatório fazer um teste de pressão antes!

Clarice ficou atônita.

Como assim...

Ela já estava preparada para desaparecer completamente esta noite, mas descobriu que não poderia partir imediatamente.

O médico suspirou aliviado, parecendo grato por ter conseguido contatá-la a tempo:

— Venha ao hospital amanhã para um exame. Vou avaliar suas condições de saúde para ver se pode viajar de avião.

A chamada encerrou-se e o carro chegou.

O motorista baixou o vidro:

— Senhorita, vamos?

Clarice hesitou:

— Vamos. Para um hotel.

Ela evitou propositalmente os hotéis de propriedade de Euzébio. Após fazer o check-in, tomou um banho quente e fechou os olhos para planejar os próximos passos.

Se não podia ir de avião, compraria uma passagem de navio e iria pelo mar. A viagem marítima era lenta, mas poderia apreciar a paisagem. Levar de três a cinco dias para chegar não seria ruim.

Enquanto Clarice pensava, seu nariz começou a coçar de repente.

Ela lutou contra a sonolência e, ao baixar a cabeça, viu que a água da banheira já estava manchada de sangue.

Clarice limpou rapidamente o sangue do nariz, pressionou as narinas e ficou imóvel. Depois de um tempo, levantou-se para dormir.

Seu celular não emitiu nenhum som.

Talvez Euzébio, ao ver aquela carta, ficasse feliz por ela ter sensatamente cedido seu lugar a Florinda.

Clarice deitou-se na cama e, sem perceber, adormeceu.

Ao acordar, arrumou-se para ir ao hospital quando o celular tocou de repente.

Clarice viu [Profa. Teresa] na tela e ficou atordoada por um instante.

Era a professora de Álvaro.

Ela atendeu hesitante:

— Alô, Profa. Teresa...

— É a mãe do Álvaro? A senhora pode vir à escola rapidinho? O Álvaro brigou com outra criança da turma e arranhou a testa do colega até sangrar! Os pais da outra criança estão aqui na escola esperando uma explicação.

A Profa. Teresa soava urgente e explicou a situação rapidamente.

Por instinto materno, o coração de Clarice apertou:

— E o Álvaro? Ele se machucou muito?

— Ele não se machucou, mas se recusa a pedir desculpas. Os pais da criança estão muito bravos.

A Profa. Teresa parecia impotente.

Clarice ponderou por um momento.

Hoje era dia útil, Euzébio certamente estaria ocupado.

Normalmente, era ela quem lidava com todos os assuntos da escola.

Já que ia embora, agiria como mãe uma última vez e ajudaria Álvaro a resolver o problema.

Ao pensar em uma criança sozinha na escola, enfrentando o questionamento de professores e pais, ela ainda sentia pena.

Clarice foi direto para a escola.

Desceu do carro e foi direto para o escritório da Profa. Teresa.

Imaginando a aparência lamentável e desamparada de Álvaro, Clarice inconscientemente acelerou o passo.

No entanto, antes mesmo de entrar, ouviu uma voz doce como água de nascente.

— O Álvaro não fez por mal. Ele foi repreendido pelo professor porque não fez o dever de casa. Quando ele estava de mau humor, seu filho veio zombar dele, e foi aí que a discussão começou. Como pode ser culpa apenas do Álvaro? A senhora não concorda?

Ao ouvir isso, o coração de Clarice estremeceu.

Ela se aproximou e, ao ver a cena lá dentro, sua respiração acelerou subitamente.

Era Florinda.

Ela usava um vestido longo tomara-que-caia de cor clara, com o cabelo meio preso por uma fita de seda branca. Mesmo de costas, ela exalava uma elegância e gentileza absurdas.

Euzébio, de terno preto, ombros largos e cintura estreita, estava de pé ao lado de Florinda.

E Álvaro, em quem ela depositara todo o seu empenho, estava segurando a mão de Florinda, aninhando-se carinhosamente ao lado dela.

Os três pareciam uma família feliz.

Os pais da outra criança foram acalmados pelas palavras de Florinda e pararam de criar caso.

Florinda baixou os olhos, sorriu e afagou a cabeça de Álvaro:

— Álvaro, peça desculpas ao colega, está bem?

Álvaro fez bico e foi obedientemente pedir desculpas.

As duas famílias fizeram as pazes, para alegria de todos.

Os professores que assistiam à cena suspiraram aliviados e olharam para Florinda com admiração.

— Sra. Mendes, a senhora realmente tem jeito com crianças. Agora há pouco, o Álvaro se recusava a pedir desculpas de jeito nenhum. A senhora chegou, disse algumas palavras, e ele obedeceu direitinho.

Euzébio hesitou por um momento e franziu a testa:

— Ela não é...

O pai da outra criança riu, interrompendo-o:

— O Sr. Euzébio tem muita sorte de ter uma esposa assim. Não é como a minha mulher, que tem um gênio terrível! Vocês formam um belo par, desejo felicidades.

Um brilho de desagrado passou pelos olhos de Euzébio, que disse seriamente:

— Ela não é a mãe da criança.

Florinda ficou ligeiramente rígida e abraçou o menino.

Álvaro gritou imediatamente:

— Mesmo que a Florinda não seja minha mãe, ela é muito melhor que a minha mãe!

A situação ficou subitamente estranha.

Os olhos de Euzébio escureceram, e ele encarou Álvaro com advertência.

Clarice observava de longe, e aquela sensação de aperto no peito e tontura voltou.

Ela segurou o batente da porta com dificuldade, presenciando tudo aquilo.

Sentia-se como uma flor devastada, doente e sem nutrientes, prestes a murchar.

Todas as pessoas que ela considerava família pareciam prestes a abandoná-la e se voltar para Florinda, aquela rosa exuberante.

Nesse momento, Álvaro virou a cabeça e viu a pessoa atrás de Florinda.

— Mamãe!

Ele gritou, soltou-se de Florinda e correu para fora da porta.

Ao ver Clarice, Euzébio caminhou em direção a ela sem hesitar.

Essa cena deixou Clarice um pouco atordoada.

No entanto, no segundo seguinte, Álvaro agarrou a ponta da roupa de Clarice com força, o rostinho cheio de raiva.

— A culpa é sua! Por que você não me mandou fazer o dever de casa ontem à noite? Se não fosse por você, eu não teria levado bronca do professor! Nem teria sido zoado pelas outras crianças e brigado! A culpa é toda sua!

Álvaro puxou Clarice e depois a empurrou para trás.

A força de uma criança também pode ser grande.

Clarice não estava se sentindo bem, sentia a cabeça pesada e o corpo leve. Ao ser empurrada, recuou um passo e quase caiu.

No momento crucial, alguém a segurou firmemente nos braços.

Clarice foi envolvida por um peito quente e olhou para trás.

Euzébio baixou a cabeça e encarou Álvaro friamente, repreendendo-o com voz grave:

— Peça desculpas à mamãe! Quem permitiu que você a desrespeitasse assim? Só porque ela não vigiou você fazendo o dever? Você já é grande, não sabe fazer sozinho?

Em casa, Euzébio sempre adotava um estilo de educação rigoroso.

Álvaro tinha muito medo quando Euzébio ficava bravo. Imediatamente tremeu de medo, com os olhos vermelhos, fazendo bico, sem ousar falar nada, nem pedir desculpas.

Clarice firmou-se e empurrou Euzébio suavemente.

Euzébio percebeu imediatamente que algo estava errado com ela e virou-se para examiná-la com preocupação.

— Você está bem?

Clarice balançou a cabeça.

Euzébio segurou a mão dela para acalmá-la e ordenou em voz baixa:

— Álvaro, peça desculpas!

Álvaro estremeceu de susto.

Florinda, que estava parada atrás, tinha o olhar instável. Seus olhos pousaram nas mãos entrelaçadas dele e de Clarice, retirou o olhar num instante e aproximou-se sorrindo.

— Euzébio, não grite tão alto assim. A criança levou bronca do professor e brigou, está de mau humor, é compreensível ter um pouco de birra. Acredito que a mãe do Álvaro não vai se importar, não é?

Clarice levantou os olhos e encarou Florinda.

De perto, ela podia até sentir o leve aroma cítrico em Florinda.

Era exatamente o mesmo cheiro que sentira em Euzébio na noite anterior.

Seu coração estremeceu, e ela instintivamente soltou a mão de Euzébio.

Florinda sorriu com os olhos semicerrados, sem se importar que Clarice não respondesse:

— Euzébio, é a primeira vez que encontro a mãe do Álvaro, não vai nos apresentar?

Euzébio fez uma pausa por um instante.

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