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Capítulo IV - Hebreus 1.4

Author: Érika Gomes
last update publish date: 2021-07-05 09:29:47

Gabriel começava a se cansar de toda aquela situação, ainda deitado sobre a cama de seu novo quarto, cômodo esse que parecia mudar, não somente de lugar, mas os moveis e a disposição deles no espaço, constantemente, era também tão branco quanto a espada que Miguel usava, cegando o menino todas as manhãs. Não havia entendido ainda como as coisas funcionavam naquele lugar, mesmo Diego com toda a paciência que era possível ser destinada à um ser, explicar que estavam somente em um plano inferior da eterna morada e que portanto não havia algo fixo, solido ou constante, estavam somente de passagem, dizendo que era por isso que a cada dia não somente os moveis, mas os cômodos da morada, como a paisagem em volta deles, alteravam de forma. Tudo isso era confuso demais para Gabriel. Esticou o corpo sobre os lençóis extremamente brancos e macios, sentindo a musculatura reclamar, após horas de treino com Diego que segundo uma teoria celestial, toda dor poderia ser curada com um bom treino, incluindo a dor devastadora que Gabriel sentiu em seu coração vendo a amiga tão triste e perdida daquela forma, assim que conseguiu se acalmar o suficiente para ouvir o que Diego teria para falar a respeito da tal guerra, Gabriel ficou ainda mais enfurecido com Naiara, não somente por ter escolhido um lado onde ele não poderia estar, não somente por ter jogado ele de lado e ficado com o seu demônio loiro, mas por sua existência desafiar e colocar a prova tudo o que o mundo conhecia como certo, desde a criação.

Sentou-se na beira da cama e após um piscar de olhos, literalmente, estava pronto, trocado, lavado e alimentado, dessa parte da “magica” ele gostava. Ainda sentia o peso nas costas, como se carregasse o mundo entre os ombros, Gabriel tencionou a musculatura, sentindo as omoplatas se mexer levemente, seu rosto virado, procurava por algo na parte de trás de seu corpo, deixando-o todo torto, fez um esforço mental novamente, como Diego havia ensinado e como se o corpo jogasse parte dele para fora, as costas estalou alto e delas asas brancas, imaculadas, alvas e imensas tomaram toda a extensão do quarto.

— Legal demais! – Gritou empolgado.

Levantou-se, sentindo-se imponente, alto, forte e quase tão musculoso quanto Miguel, havia passado o restante do dia anterior, treinando com Diego como usar suas asas como arma, achava toda aquela situação tão fantástica, que em momento algum se surpreendeu quando elas explodiram de dentro dele a primeira vez, ao contrário, Gabriel teve um acesso de riso que o fez se contorcer e cair sobre os joelhos,  todos os outro anjos ao redor o olhavam sem entender e Diego deixando claro em sua face a dúvida sobre a sanidade mental do irmão mais novo. Ele não conteve o sorriso se lembrando da cena, a porta do quarto se abriu, antes mesmo que ele tocasse a maçaneta e Gabriel avançou rápido ansioso para encontrar Diego, esquecendo-se completamente das asas abertas, caindo no chão do quarto quando elas se chocaram contra os batentes da porta.

— Vai se acostumar com isso irmão, mas aceite meu conselho, não precisa andar com elas tão abertas o tempo todo, será mais fácil, acredite.

Diego estava parado na frente da porta do quarto, rindo e estendendo a mão para ajudar Gabriel a levantar-se. Não havia como perder o humor ao lado dele e Gabriel agradecia ao Pai todos os dias por não ter mais Miguel o treinando. Já havia presenciado o comportamento de Diego com os outros, viu como ele era enérgico, autoritário e até mesmo grosso em suas respostas, mas com Gabriel, estava sempre o tratando como se fosse o irmão mais velho de uma criança muito levada e ele havia passado tanto tempo cuidando de Naiara, que a sensação de ter alguém cuidando dele, era como um copo de chocolate quente em uma manhã fria.

— Então o que teremos hoje? Morte com penas ou cegueira com espada?

— Sabe meu irmão – começou a dizer Diego – precisa mesmo parar com essas suas frases estranhas. – O anjo balançou a cabeça ainda sorrindo e vendo a confusão estampada no rosto de Gabriel, fez com que a lembrança do dia em que perguntou a Naiara sobre o que fariam em uma tarde qualquer, invadisse a mente dele.

— Ah...- Gabriel sorriu se lembrando – mas sempre temos duas opções não é mesmo? Naquele dia ou era seres da natureza ou satanás! – E como se o nome pronunciado fosse um selo proibido, ele levou as duas mãos nos lábios enquanto olhava para os lados, se desculpando com o olhar.

— Oras pelo Pai!! – Diego gargalhou alto, atraindo assim a atenção de todos ao redor – Como pode acreditar que não falamos de nosso irmão aqui?

— Nosso... irmão?

— Sim, Lúcifer ainda é querido por alguns aqui, já te contei isso, mesmo outros não entendendo sua traição, mas se o Pai não o rejeita, como poderíamos nós o rejeitar? – fez a pergunta sem esperar por uma resposta – Ele é nosso irmão e por mais... errado ou perturbado que possa estar, ainda é nosso irmão.

Gabriel sentiu a verdade e sinceridade dita em cada palavra, não sabia como Heylel era no momento de sua traição, mas havia visto a bondade dele e a adoração com que olhava para a filha, uma pessoa assim, não poderia ser totalmente ruim.

— Conheci Heylel – começou Gabriel em um tom baixo enquanto andavam para um grande campo com grama baixa e verde, com alguns girassóis enfeitando o lugar e em um canto direito afastado deles, uma pedra alta e arredondada de um cinza tão claro que parecia ter sido pintada por alguém e a imagem de alguma forma o fez lembrar de algo, um sonho talvez. Somente quando estavam parados no meio da campina, reparou que Diego o olhava tão intensamente e seus olhos pareciam desnudar a alma de Gabriel, que continuou o assunto, tentando disfarçar a vergonha que sentiu com aquele olhar – ele ama Naiara, não há como negar, derrubaria os céus para protege-la, isso é um fato.

— Não acredito que sua cria vá precisar de proteção, não depois do que conseguiu fazer.

— Como assim? Que cria? 

— Sim, a menina conseguiu se conectar a natureza da mãe, está aprendendo a lidar com a grandiosidade de seu pai, assim que conseguir entender e dominar quem e o que realmente ela é, não acredito que alguém além dEle, irá conseguir deter sua amiga.

As palavras foram jogadas para fora de forma rápida, quase que atropelando umas às outras, como se ter essa informação somente para si, estivesse de alguma forma, sufocando Diego, que respirou com um certo alivio, após a revelação. Gabriel o olhava quase incrédulo, um pequeno V se formando entre suas sobrancelhas, aquilo ainda parecia loucura demais para ele e por mais que tentasse, jamais iria se esquecer que aquela Naiara, filha de uma bruxa e do diabo, um dia fora somente Lauren, sua amiga linda e completamente fora da realidade. Ele soltou um suspiro forte e longo, deixando as asas se abrirem atrás de suas costas, sentindo todo o poder irradiar em seu corpo, o pensamento que um passado não muito distante e a beleza daquela que havia sido durante anos, o único amor de sua vida, dilacerava Gabriel e seu corpo pediu por movimento, queria somente se perder no treino e esquecer de todo o resto. Suas asas se expandiram ainda mais, ganhando a proporção monstruosa, suas pontas, antes de penas brancas e macias, assumiam a estrutura rígida e afiada, uma arma capaz de abrir ao meio qualquer ser imortal. Gabriel enfim encontrou o olhar de Diego que agora estava com suas asas igualmente abertas, as pernas levemente afastadas e um sorriso mortalmente sarcástico nos lábios.

— Ainda não entendo o poder que uma fêmea exerce sobre vocês mortais.

Gabriel saltou no ar antes mesmo que a frase de Diego estivesse completa, suas asas acompanharam o giro de 360 graus e quando seus pés tocaram o chão, as pontas mortais daquelas penas afiadas, pararam a centímetros da face de Diego, que agora ria abertamente.

— Eu não sou um mortal e Naiara jamais foi uma fêmea qualquer. – Gabriel disse baixo, sem desviar o olhar de Diego – Pronto para o treino?

A gargalhada tão característica de Diego, explodiu entre os dois, os anjos dançavam um ritmo quase perfeito entre si, saltavam e seus corpos giravam enquanto suas asas pareciam ganhar vida e guerrear pela sobrevivência e segurança de seus donos. As penas se chocavam e o som explodia ao redor, como um estrondo estremecendo a terra.

— Feche sua guarda Gabriel, poderia ter arrancado seu pescoço agora mesmo.

Gritava Diego em meio ao som ensurdecedor que o colidir das asas trazia na campina onde lutavam. Gabriel ouvia o ensinamento de seu irmão e com a maestria que somente um anjo poderia ter, se moldava a cada detalhe, trazendo precisão ao seu ataque e sabedoria em sua defesa.

— Você é realmente muito bom nisso criança.

Diego sabia exatamente onde tocar para despertar Gabriel, Naiara sempre seria seu ponto mais fraco e lembra-lo da sua inexperiência, chamando-lhe de criança, o irritava ainda mais. Em um giro de corpo, Gabriel pulou por cima de Diego, caindo agachado sobre os ombros dele, entre suas asas, as mãos seguravam firme a cabeça de Diego a forçando para trás, deixando assim seu pescoço completamente exposto, novamente suas asas paradas no ar, perto, muito perto de machuca-lo. Diego sorrio e suas asas se fecharam devagar, com cuidado o anjo virou levemente o rosto para o lado, encontrando assim Gabriel o encarando seriamente, o sorriso de Diego se ampliou em seus lábios e para a surpresa de Gabriel, o anjo se aproximou ainda mais e seus lábios o tocaram de forma suave e gentil, a incompreensão do ato ficou visível na face de Gabriel no instante que sentiu o toque quente, fazendo-o saltar, caindo sem apoio algum ao chão, mas se levantando com a mesma rapidez. Gabriel dava passos largos para trás e o choque daquela situação o deixou sem fala.

— O que foi? – Perguntou Diego tentando se aproximar de Gabriel que ainda andava de costas e suas mãos levantadas, implorando para não ser tocado mais – Calma criança, respire e acalme-se, primeiro me diga porque está assim?

— Como assim, porque estou assim? Você me beijou! – Gabriel gritou alto o bastante para que qualquer dimensão pudesse ouvir.

— E qual o problema nisso? – Diego realmente não estava conseguindo entender e foi a sinceridade em sua face que fez Gabriel parar onde estava.

— Como assim qual o problema? Você. Me. Beijou! – Disse cada palavra separadamente.

— Sim, eu sei. E. Qual. O. Problema? – Perguntou ele imitando o Gabriel.

— Qual o problema? Você é homem... eu sou homem.... Homem não sai por ai beijando outro homem.... Bem, alguns até se beijam... tem aqueles que até se casam, sim, tem outros que vivem dessa forma mesmo, se apaixonam...

— Está perdendo o foco Gabriel.

— Sim sim, desculpa. Mas olha Diego – Gabriel começou a dizer enquanto se aproximava – Eu não sou gay, não gosto de homem.

Aquilo precisava bastar, fora uma boa explicação, Gabriel sentia isso. Ou não...

— Mas eu também não sou gay, ainda não estou entendendo.

— Diego, você me beijou, cara não curto homem.

— Ah, foi isso? – Novamente a risada que mais parecia milhões de trovões juntos, ecoou entre eles. Gabriel ainda o olhava e agora toda a raiva que sentia, dava lugar a confusão, não era essa a reação que ele esperava.

— É.... foi isso... – disse baixo, já sem nenhuma convicção na voz.

— Minha pequena criança, ser criado no mundo mortal não foi algo muito bom – Diego se aproximou e com carinho passou um braço ao redor do pescoço de Gabriel, puxando-o para perto, sentindo o corpo do menino se contrair com o toque, Diego parou o olhando.

— Pare de ser bobo Gabriel, aqui não há sexo.

— Vocês não transam? – A pergunta simplesmente saiu.

— Claro que sim, temos pontos de prazeres que humano algum jamais conseguiria sentir, mas não temos sexo, não existe homem ou mulher, somente a forma que escolheu se apresentar.

— Sabe que essa sua explicação está soando muito, muito confusa mesmo, não sabe?

— Sente-se – Foi quase uma ordem, Diego sentou-se puxando Gabriel com ele – Gabriel, os humanos são limitados em todas as aéreas, amar deveria ser algo livre, sem limites, padrões, deveria ser somente.... Amor. Quando rotulamos a forma como alguém deve ser amado, deixa de ser amor e passa a ser somente fardo. O prazer está relacionado ao toque, ao corpo, ao sentir... E não a condição física de dois corpos.

Gabriel estava paralisado ao lado dele, ouvindo mas não entendendo uma única palavra, tudo o que dizia estava dançando em sua mente e não fazia sentido algum para ele.

— Vocês são todos gays?

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