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Capítulo VIII - Salmos 23.4

Author: Érika Gomes
last update publish date: 2021-07-05 09:51:26

Estava devastada, não existia nada dentro dela, como um precipício, sem fundo, vazio, escuro. Há dois dias a batalha havia sido travada, há dois dias o lugar que reconhecia como seu lar, estava sendo reconstruído, há dois dias que Naiara havia morrido.

Deitada sobre sua cama, cabelos lavados, roupa trocada, respirava, mas não vivia. Quando tudo acabou, Naiara caiu no mais profundo desespero e simplesmente se despedaçou por completo, Yekun a protegeu em seus braços e a envolveu com suas asas, tentando conter o grito de dor da menina quando ela viu Miguel levando Agares, após horas deitada no chão, sendo acolhida por Yekun, Amarantha conseguiu tirar a filha dos braços dele e com a ajuda de Charlotte, tirar o vestido, dar banho e colocar roupas limpas. Yekun, assim que Naiara deixou seus braços voou sem olhar para trás, Heylel estava desconsolado, mesmo após ter se curado e voltado a sua aparência física novamente, a luz vermelha ficava à espreita, como se esperando qualquer deslize para ganhar vida novamente, assumir o controle e ele lutava segundo após segundo para que isso não acontecesse.

— Ela precisa reagir. – Amarantha se assustou ao ouvir a voz do marido. Ele deu mais alguns passos para dentro do quarto, não se aproximando muito – Faça alguma coisa amor, traga ela de volta.

Ele praticamente implorava.

— Acredita mesmo que não faria isso se eu pudesse? – Sim, ela faria, claro que faria, não havia nada no mundo mais importante para Amarantha do que a filha. Seus ombros caíram e ela se curvou sobre o corpo inerte da menina – Vamos Lala, por favor, essa dor só você mesmo pode curar, reaja minha filha, reaja.

Cinco dias depois...

Estavam todos sentados na sala, Amarantha e Heylel com os dedos entrelaçados, como se a necessidade de se tocar existisse para mantê-los inteiros, Élida havia aparecido há dois dias atrás e estava encolhida sobre uma poltrona, com os joelhos apoiados no peito. Yekun em pé, andando de um lado para outro, falando coisas sem sentido algum para as outras pessoas.

— Chega!! – Falou alto e saiu andando em direção ao quarto de Naiara – Ela vai sair daquele quarto, vai reagir, vai voltar a viver, agora.

Seguiu o caminho chegando rapidamente no quarto da menina e entrando sem se dar ao trabalho de bater, sabia que ninguém iria responder. Assim que se aproximou da cama, Amarantha e Heylel entraram no quarto.

— Deixe ela Yekun, cada um tem o seu tempo para curar suas feridas – Amarantha falava com sabedoria.

— Ou não – A voz melodiosa de Élida ecoou no quarto – Quem sabe ela não precise de mais de tempo, somente de alguém que a traga de volta. – Deu de ombros.

Yekun sentou na cama ao lado de Naiara e com cuidado se deitou, puxando o corpo da menina para o seu, aconchegando ela em seus braços, uma de suas asas se abriu e envolveu os dois. A cena sendo observada por todos. Com cuidado ele acariciou os cabelos pretos e aproximou os lábios de seu ouvido, sussurrando.

— Não consigo imaginar a dor que está sentindo minha Vida – jamais havia usado aquele apelido carinhoso – mas eu preciso que você volte. Preciso que volte para nós Vida, não consigo respirar te vendo assim, há cinco dias que não vivo, pois não sinto o meu coração batendo Naiara, pois meu coração é você... – Parou respirando profundamente, a dor dilacerando-o – Só volte para mim... por favor... volte.

Naiara abriu os olhos devagar e com a mesma lentidão moveu o corpo, se virando para Yekun e o olhando nos olhos, sentindo-se protegida dentro da bolha que a asa negra lhe proporcionava.

— Ele o levou. – disse baixo e as lágrimas escorriam em sua face.

— Sim Vida... levou. – concordou baixinho a olhando, enquanto seus dedos acariciavam a bochecha dela.

— O que vou fazer sem ele agora?

— Agora, vamos resgatar Agares. – Yekun disse com convicção. Ela tentou sorrir, mas o movimento não chegou aos lábios, alguma coisa dentro dela havia se partido, estava claro em seus olhos.

— Vamos?  - Perguntou baixinho.

— Juro que trarei Agares de volta, lhe dou minha palavra, Vida – Ao ouvir o apelido carinhoso, uma pincelada do que poderia ser um sorriso brincou nos lábios da herdeira.

— Promete?

— Prometo.

Ela rompeu em soluços alto, chorando com toda a sua força, se lembrando de uma cena exatamente como aquela, mas ela estava nos braços de um demônio loiro. Naiara chorou por Agares, chorou por não ter conseguido fazer nada para salva-lo, chorou por seu lar ter sido invadido e por seu pai ter cedido e perdido o controle. Chorou por Gabriel e lembrou-se de um sonho, onde ele não era o seu amigo e sim uma coisa que saltava sobre ela. Eles passaram minutos intermináveis nos braços um do outro, Naiara enterrando seu rosto no peito de Yekun que a abraçava com mais força enquanto tentava conter seu desespero.

Todos ainda estavam parados na porta quando a asa de Yekun retrocedeu devagar e Naiara sentou-se na cama ao lado dele, seus olhos ardiam em vermelho, como lava escorrendo de um vulcão em erupção.

— Vamos resgatar Agares!

— Para Diego, estou bem – Gabriel disse ao que pareceu ser a décima vez no último minuto – Já falei para parar – A brutalidade em seu tom de voz preocupava Diego, que não reconhecia mais o irmão.

— Ok, você venceu Gabriel, se está “gritando” que está bem, deixarei você em paz. – Se levantou da cadeira onde estava sentado ao lado de Gabriel e afastou-se com uma maleta de primeiros socorros nas mãos – Somente não esqueça que você sangra, não como os humanos, mas ainda assim sangra, não vai se curar com a mesma rapidez dos demais.

Saiu do quarto de Gabriel o deixando para trás sozinho. Ele estava sentado em sua cama e o grande curativo ao redor de seu pescoço não deixava esquecer o que Agares havia feito. Os sentimentos ferviam em confusão dentro dele, sabia o quanto queria degolar aquele demônio e claro queria jogar tudo o que Naiara havia feito ele sofrer na cara dela, mas lembrar da forma como ele se comportou, do jeito que o corpo dela tremia enquanto ele a tocava, sabia que se ainda fosse totalmente humano, estaria vomitando naquele momento. Uma linha tênue separava o caráter de Gabriel do caráter de Miguel e ele não queria ser igual aquele anjo, de forma alguma. Respirou fundo algumas vezes, tentando afastar da mente as cenas sobre aquela noite, que cismavam em voltar, levantou-se e saiu do quarto, precisava andar, precisava de espaço. Caminhou por um longo tempo, ainda achava engraçado como tudo ali mudava o tempo todo e ainda assim, parecia extremamente igual, era como andar por horas em um esteira na academia, seu corpo se movia, mas a imagem não mudava jamais. Mas para a surpresa de Gabriel deparou-se com algo parecendo uma esquina no final do que lembrava uma rua, viu várias portas fechadas, uma ao lado da outra. Ele começou a andar, olhando para dentro de cada porta, mas não havia nada, somente um cômodo vazio, nada mais. A cena se repetiu por cinco portas seguidas, até se deparar com a sexta, Gabriel olhou pela pequena janelinha e no canto daquele quarto viu Agares, que estava encolhido sobre uma cama. Gabriel tentou abrir a porta, mas o trinco não cedeu.

— Agares. – Disse de forma ríspida, ainda se lembrava bem da sensação da lamina fria cortando seu pescoço. -  Como está?

E como se a pergunta tivesse saído do dono de um circo de horrores, Agares virou o rosto em direção a voz na porta, seu sorriso era mortal e carregado de sarcasmo. Sua face estava completamente desfigurada, havia hematomas e cortes em sua bochecha, seu olho esquerdo estava tão inchado que não abria. Os cabelos loiros compridos, estavam grudados, impregnado de um liquido preto nojento, Gabriel não conseguiu se conter diante do que viu, por mais que não gostasse de Agares, nem em seus melhores dias havia gostado dele, ainda assim, ninguém merecia passar por aquilo. Tentou novamente sem sucesso, abrir a porta, jogou seu corpo contra a madeira, chocando-se com violência, mas nada aconteceu.

— Vai acabar se machucando, bonzinho. – A voz de Agares alcançou Gabriel que de imediato parou o que estava fazendo.

— Eu tenho nome. – Rosnou – E não me lembro de estar preocupado em me machucar no nosso último encontro. – Sem perceber Gabriel levou a mão ao pescoço, tocando a linha fina do corte.

— Você estava esfregando seu pau virgem na minha namorada e da forma que a tocava achou que o corpo de Naiara viesse com manual em Braille. – Agares cuspia as palavras com desprezo.

Gabriel sabia o que havia feito, a vergonha por sua atitude assombraria suas lembranças para sempre, mas não iria recuar, não na frente de Agares.

— E acredite, ela continua deliciosa.

Agares pulou da cama e se jogou contra a porta, colocando o braço entre as grade da pequena janela, tentando puxar Gabriel.

— Eu vou matar você, seu anjo de merda. – Gritava enquanto Gabriel ria e se afastava mais um pouco – Vem aqui, chegue perto o suficiente para que eu possa continuar o que comecei.

            — Acalme-se Agares, está ficando despenteado. – Ele gargalhava da própria piada.

— Acha justo a forma como está agindo com esse prisioneiro Gabriel? – A voz sábia e forte de Diego sobressaltou Gabriel, que de imediato parou de rir e afastou-se mais um pouco. Ele arqueou a sobrancelha e olhou para Diego.

— Quem sou eu irmão para encontrar justiça? Essa função não cabe a Ele? – Apontou de forma irônica para cima. Diego balançava a cabeça se negando a acreditar no que via e ouvia.

— Meu irmão... o que está acontecendo com você? – Ele se aproximou um pouco – Cadê o menino cheio de vida e bom humor que chegou aqui há semanas atrás?

— Como Miguel disse, aquele menino nunca existiu.

— Deixou que as palavras de Miguel envenenasse seu coração, arrancando o melhor de você.

— Perdi o melhor que havia em mim no momento em que ela me mandou embora.

Sem dizer mais uma palavra, Gabriel virou-se e afastou-se deles com passos firmes e decididos.

— O que anda acontecendo com ele? – Agares perguntou, quebrando a bolha de pensamentos de Diego, que o olhou com piedade e um pedido silencioso de desculpa.

— Queria poder mudar tudo isso. – Apontou para o caminho que Gabriel foi e para onde Agares estava preso – Mas não posso, não sei como ou o que fazer, não sem me colocar contra meus irmãos. – O peso daquela verdade esmagava o peito de Diego.

— Talvez seja o momento de mudanças.

Diego ouviu o que Agares havia dito, mas não respondeu nada, somente se virou e começou a afastar-se enquanto falava sobre os ombros.

— Voltarei rapidamente com cuidados para seus machucados e comida.

Aquilo, era tudo o que ele poderia fazer, por enquanto.

— Só não entendo o porquê vamos precisar dele. – Naiara repetia aquela frase novamente.

Era a vigésima vez que falava a mesma coisa, desde que havia voltado para a vida, ela estava inquieta. Mesmo após Yekun obriga-la a tomar um banho demorado, alegando que não conseguiram lavar os cabelos dela direito e ele não cheirava mais tão bem como antes, o que fez ela correr para o chuveiro e garantir que tudo estava como sempre e depois de comer o suficiente para alimentar um exército. Ela não parou de andar de um lado para outro, ouvindo o que seu pai falava e não gostando da ideia de pedir ajuda ao terceiro reino do Sheol.

— Vocês mesmo disseram que ele é cruel e não se liga a ninguém. – Ela continuou argumentando – Como querem se lançar em uma missão suicida até o terceiro reino e convencer Azazyel a se aliar a nós em uma guerra contra a guarda Celestial?

Ninguém respondeu, Naiara olhava a cada um ali presente e notava a falta de esperança em todos eles, não sabia o que exatamente estava acontecendo, mas tinha certeza que estavam deixando de lhe contar algo. Desabou no sofá ao lado de Yekun, sem se preocupar com o que pensariam, ela deixou a cabeça descansar no ombro dele e respirou profundamente. Era o retrato da desolação.

— Nós vamos conseguir. – Yekun afirmou beijando o alto da cabeça de Naiara.

— Todos vocês estão falando isso a horas, mas não me falam o porquê precisamos da ajuda de Azazyel para chegar lá – Ela apontou para cima e revirou seus olhos em total insatisfação.

— Não precisamos. – Heylel se endireitou ao lado de Amarantha, decidido a contar a filha toda a verdade.

— Mas se não precisamos... – As palavras perderam forças e ela não conseguiu completar a frase.

— Querida ninguém entra lá sem ser convidado, não há como chegar ao segundo céu, não sem ser levado por um anjo ou por Ele.

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