LOGINA fragilidade do herdeiro
Rocco Mancini Na manhã seguinte eu tentei voltar à normalidade. Não podia deixar que as pessoas à minha volta desconfiasse que a minha vida tinha sido virada de cabeça para baixo da noite para o dia. Eu me enterrei em reuniões com os capos, discutindo rotas de tráfico e a logística da coroação, mas, no fundo da minha mente, a imagem de Scarlett enxugando aquela lágrima solitária me perseguia. À noite, depois de cumprir toda a minha agenda, voltei para casa tentando descansar do dia estressante. O silêncio da ala leste foi quebrado por um choro diferente. Não era o choro de fome ou de fralda suja; era um som agudo, de dor. O instinto, aquele mesmo instinto que me fazia sacar a arma antes de ouvir o clique do gatilho inimigo, me levou até o quarto dele em segundos. Scarlett estava de pé, balançando Luigi freneticamente. O rosto dela estava pálido sob a luz suave do abajur. — O que está acontecendo? — Minha voz cortou o quarto, fazendo-a pular. - Senhor Mancini... Eu... - Ela estava apavorada. — É a gengiva... os dentes estão nascendo. Ele está com febre, Rocco. Eu tentei as compressas, tentei o remédio, mas ele não para. Eu me aproximei. Pela primeira vez, não fiquei na porta. Entrei no campo de visão dela. Luigi estava vermelho, com as pequenas mãos fechadas em punhos. — Você está muito tensa, Scarlett. — eu murmurei, mais para ela do que para o bebê. — Ele sente o seu pânico. Tem que tentar ficar calma. Ela me olha tomando coragem para falar algo que não posso fazer. - Talvez se você pegar ele... - Nego veementemente. Não poderia ir por esse caminho, Luigi era um erro. Uma criança que poderia tirar tudo que conquistei. - Essa é a sua responsabilidade, Scarlett. É por isso que está aqui. - Digo frio sem deixar nenhuma abertura. Ela engole seco. - Entendido Senhor. Começou a caminhar pelo quarto, um passo rítmico que era uma tentativa de acalmar a criança. Luigi escondeu o rosto no seu pescoço, ele estava começando a ficar mais calmo, ou apenas cansado de lutar com a sua irritação. O tremor no meu peito voltou, mas como das outras vezes sufoquei, era o melhor a se fazer. O olhar dela mudou de pânico para mágoa. A decepção, isso porque ela queria que eu aceitasse meu filho. A questão é que ela não entendia porque eu não podia abrir essa porta. — Você consegue. — Sussurrei com a voz baixa. Continue a olhar a cena empassivo. - Ele está se acalmando... - Disse por fim. — Ele é um Mancini, Scarlett. Ele vai ter que se virar muito para não sucumbir aos desafios que irá enfrentar. Ela me olhou diferente, entendeu que eu não estava falando somente de um dente nascendo. Eu estava falando da vida, do que ainda estava por vir. Da morte eminente. Ficamos assim por longos minutos, ela o ninando com mais firmeza, e eu observando de longe. Sem tocar de fato no meu filho. O choro de Luigi diminuiu para um resmungo e, finalmente, para uma respiração pesada de sono. Ela não o colocou no berço imediatamente. — Vai dormir com ele no colo? Ela se apressa a responder. — Não...não... Eu só quero que ele relaxe mais... - Olhei para ela duro. - Fora que é tudo novo, estamos nos adaptando. — Não o acostume, Scarlett. Luigi precisa aprender a ser independente. No nosso mundo, não há espaço para sentimentos que possam nos distrair. Pelo seu olhar, ela queria retrucar, me falar que não era assim, mas ela engoliu seco. - Sim Senhor Mancini... - Ela disse com um tom de desdém. - Um bebê de três meses vai ser doutrinado a não amar. Eu não respondi. Eu não podia. Se eu abrisse a boca, talvez confessasse que era o melhor para ele não sofrer tanto. Entretanto, Scarlett ainda é muito nova e inocente para entender tudo que acontece em sua volta. (...) Meus olhos, treinados para detectar o menor movimento de um inimigo, estavam fixos na cena na minha frente. Scarlett havia pegado no sono na poltrona à minha frente. Sua cabeça estava inclinada para o lado, e a respiração, e a teimosa estava com o meu filho no colo. Ela sempre me desafiava, falava o que achava correto e me empurrava para tentar ter um vinculo com o meu filho. E como fui treinando a fazer, sempre desviava da responsabilidade que sabia que tinha. Ela não estava ali por poder ou por um nome. Ela estava ali por uma criança que o resto do meu mundo considerava um erro. Ela se remexeu, pensei que meu filho iria cair, mas não. Os dois estavam alinhados, acho que nunca mais iriam se separar. Luigi se mexeu, soltando um pequeno suspiro, e por um segundo, seus olhos se abriram. Ele não chorou, como se estivesse reconhecendo a montanha que o protegia, e fechou as pálpebras novamente. Naquele instante, a promessa de mantê-lo nas sombras pareceu uma maldição. Scarlett despertou com um sobressalto quando o sol começou a pintar as frestas da cortina. Ela piscou, confusa, até que seus olhos encontraram os meus. Ela ainda estava na poltrona, e eu ainda estava com o bebê. Claramente tinha me ignorado, ela sabia que eu não estava feliz com a sua atitude. — Você... você está aqui? — ela sussurrou, a voz rouca de sono, enviando um arrepio pela minha espinha. - Você voltou para saber se eu iria cumprir a sua ordem. — Eu voltei para ver como ele reagia, não posso levar ele no hospital, Scarlett. — respondi, minha voz saindo mais grave do que o normal. - Quanto a me desobedecer, você ainda vai se encrencar por fazer tudo que eu não mando. Tem que parar de me testar, Scarlett. - Senhor Mancini... - Ela tenta justificar. - Scarlett... Chega! - Digo mais ríspido. - Desculpe Senhor Mancini. Ela se levantou, colocou o pequeno no lugar que ele deveria ter dormido. Deu um beijo na sua bochecha, um ato para me provocar só pode. Digo que ela tem que ser mais firme, ela dá mais carinho. Ela veio na minha direção. O cheiro dela, uma mistura de lavanda e o calor da pele ao despertar, invadiu meus sentidos. — Rocco... — ela murmurou, os olhos castanhos fixos nos meus. — Ele está sem febre — eu disse, ignorando o que ela iria dizer.— Você fez um bom trabalho. Eu me levantei, à minha altura, dominando o espaço dela. Scarlett segurou uma manta sobre o peito, mas sua atenção estava totalmente em mim. — Scarlett — chamei. — Hoje à tarde... Vi o brilho de alegria nos olhos dela, um sorriso que iluminava o quarto de uma forma que o sol jamais conseguiria. - Eu volto para ver como vocês estão... - Ela estava animada. - Não posso deixar Luigi sair desse lugar, ele não pode ficar doente. Tenho uma conhecida que é médica, ela me deve favores, mas somente poderei usar ela em último caso. O brilho sumiu dos seus olhos. Saí sem olhar para trás, ela teria que se virar com o bebê. O compromisso era o ápice da diplomacia de sangue, eu precisava conversar com dois empresários que estavam com alguns problemas. Eles queriam conversar, provavelmente pedir ajuda, e isso era bom para os meus negócios. Eu ajustava as abotoaduras de prata, o rosto e uma máscara de indiferença, quando senti o celular vibrar no bolso interno do smoking. Apenas três pessoas tinham aquele número. E apenas uma delas tinha permissão para me interromper naquela noite. — Fala, Matteo — murmurei, me afastando para um canto sombrio do salão. — Chefe... é o pequeno. A febre voltou. Está mais alta que da última vez. A Scarlett está desesperada, ele não para de chorar e começou a ficar letárgico. O mundo ao meu redor, com suas taças de cristal e promessas de poder, desapareceu. Uma descarga de adrenalina, puramente instintiva, atingiu meu estômago. — Chame a Sandra. Agora. Diga que se ela não chegar na mansão em dez minutos. Eu mesmo vou buscá-la pelo pescoço. Faço o que o marido dela não conseguiu. Ela me deve esse favor, se ela não vir... - Vou passar o recado. - Matteo diz sem exitar - Estou a caminho.Rocco Mancini O mármore branco de Carrara estava frio sob a ponta dos meus dedos, mas o sol da tarde romana tentava, em vão, aquecer a pedra. Eu estava parado ali, em um dos cantos mais silenciosos do cemitério, onde os ciprestes barravam o barulho da cidade e o tempo parecia ter feito um pacto de não agressão com a memória.Nas minhas mãos, um maço de peônias frescas — as favoritas dela. Três anos. Três anos desde que a mulher que eu aprendi a chamar de mãe, sem nunca ter tido a coragem de dizer isso em voz alta, nos deixou por causas naturais. Um conceito estranho para um homem como eu, Rocco Mancini. No meu mundo, as pessoas não morriam de "causas naturais". Elas morriam de chumbo, de traição, de velhice amarga em celas de prisão ou de um coração que parava por causa do estresse de uma vida de crimes.Mas ela... ela morreu em paz. Em sua própria cama, cercada pelo perfume de lavanda e pelo amor de uma filha que ela criou para ser uma rainha.Ajeitei as flores no vaso de bronze, re
Antônio Vitorino Roma sempre teve um peso diferente da Toscana. Enquanto as colinas toscanas sugeriam paz e o sussurro do vento nas parreiras, Roma gritava história, poder e o eco de impérios que subiram e caíram sob o sol de mármore. Eu estava parado na varanda da mansão de Luigi, observando o jardim impecável, mas meus ouvidos estavam atentos ao caos que reinava dentro de casa.Cinco anos.Cinco anos se passaram desde que me tornei o Sottocapo dos Mancini. Cinco anos desde que vi meu filho, Valerio, abrir os olhos pela primeira vez. Muita coisa mudou, e ao mesmo tempo, nada mudou. Eu ainda era o homem que limpava o caminho para o trono, mas agora, minhas mãos, que antes só conheciam o frio do metal, conheciam o calor de mãos pequenas e o perfume de Vincenza que parecia se tornar mais doce a cada estação.Hoje, a mansão de Luigi era o epicentro de uma tempestade. Não era uma guerra de clãs, mas algo muito mais aterrorizante para um homem como o meu cunhado: o nascimento do seu prime
Vincenza Vitorino As horas seguintes foram um borrão de esforço e uma intensidade que eu nunca imaginei ser capaz de suportar. Eu, que sempre prezei pelo controle, pela estética perfeita, pela elegância inabalável, vi-me reduzida à minha essência mais pura. Eu era força. Eu era vida. Eu era a ponte entre o nada e a existência.Antônio não saiu do meu lado por um segundo sequer. Ele não era apenas um espectador; ele era a minha âncora. Quando a dor parecia insuportável, eu apertava sua mão, e ele absorvia a minha agonia com uma paciência de granito.— Olhe para mim, Vincenza — ele dizia, sua voz sendo o único som que eu conseguia processar em meio ao caos das contrações. — Você é a mulher mais forte que este mundo já viu. Você consegue. Eu estou aqui. Eu sempre estarei aqui.Lá fora, eu sabia que a família esperava. Rocco, meu pai, provavelmente estava andando de um lado para o outro no escritório, fumando um charuto atrás do outro, impaciente para conhecer o neto que ele já considera
Vincenza Vitorino O sol da Toscana nunca pareceu tão pesado e, ao mesmo tempo, tão cheio de promessas como naquela tarde. O ar estava carregado com o aroma de uvas maduras e terra aquecida, um perfume que, para qualquer outra pessoa, significaria apenas o fim de mais uma estação, mas para mim, era o cheiro do destino se cumprindo.Eu estava parada diante da janela do meu ateliê na nossa casa aqui, observando as sombras dos ciprestes se alongarem sobre as colinas. Minha mão, quase por instinto, repousava sobre o topo da minha barriga, sentindo a curva perfeita que abrigava o meu maior segredo, a minha obra-prima mais absoluta. Eu não tinha feito festas. Não houve "chá de revelação" com confetes azuis ou fumaças coloridas para o deleite de convidados ávidos por espetáculo. Para uma mulher que viveu sob os holofotes de Milão e Paris, e sob as sombras perigosas da máfia, o espetáculo era algo que eu reservava para o mundo exterior.O que eu tinha com aquele bebê era algo silencioso. Algo
Antônio Vitorino O peso do paletó de lã fria sobre meus ombros não era apenas o peso de um corte impecável de alfaiataria italiana. Era o peso de uma vida inteira. Enquanto eu terminava de ajustar o nó da gravata de seda preta diante do espelho da nossa suíte na Toscana, meus olhos — os mesmos olhos que aprenderam a ler o perigo antes de aprenderem a ler poesia — refletiam a gravidade do que estava prestes a acontecer.Hoje não era apenas um sábado de sol entre as videiras. Hoje, o sangue encontraria o seu novo destino.Eu me especializei para este momento desde os meus treze anos. Enquanto outros garotos da minha idade em Milão estavam preocupados com chuteiras de futebol ou em como impressionar meninas nas praças, eu estava em porões úmidos aprendendo a desmontar uma Glock com os olhos vendados. Eu estava em reuniões silenciosas, sentado em um canto, observando como o meu pai, Matteo, e o grande Rocco Mancini negociavam a vida e a morte com a mesma calma com que se pede um expresso
Vincenza Vitorino O escritório do meu pai sempre foi um lugar de sombras e decisões que alteravam o curso da história — não a história que se lê nos livros escolares, mas a história real, aquela escrita nos becos de Milão, nos portos de Sicília e nas salas de reuniões luxuosas de Roma. Ali, o cheiro de carvalho antigo misturava-se ao aroma de charutos caros e ao frio metálico das armas guardadas em gavetas de fundo falso.Mas hoje, o ar estava diferente.Eu estava sentada em uma das poltronas de couro bordô, minha barriga de oito meses agora uma presença imponente que ditava a minha postura. Ao meu lado, Antônio permanecia de pé, como uma estátua de granito, sua mão descansando levemente no meu ombro — um gesto que para o mundo era de possessão, mas para mim era puro suporte. À nossa frente, a mesa de mogno maciço parecia pequena diante dos três homens que definiam o meu mundo: meu pai, Rocco; meu irmão, Luigi; e meu marido, Antônio.A pauta da reunião deveria ser a expansão das rota







