LOGINO beijo ainda queimava na boca de Elara quando o mundo capotou e não foi uma visão suave. Foi um puxão violento, como se alguém tivesse enfiado a mão dentro do peito dela e arrancado a alma para fora. Um segundo, ela estava no colo de Darian, as coxas abertas sobre as dele, o gosto da língua dele ainda vivo na boca. No segundo seguinte, estava de pé em um campo de ossos brancos sob um céu vermelho-sangue.Darian estava ali, mais jovem ou talvez apenas diferente. Sem a cicatriz fina perto do olho, com os cabelos um pouco mais longos e a postura menos cansada. Ele usava uma armadura negra simples, sem coroa, e diante dele havia uma mulher.Elara reconheceu o rosto. Não porque já o tivesse visto, mas porque o sangue dela gritou. Era a primeira. A primeira herdeira tinha cabelos escuros como os de Elara, a mesma marca no pulso, mas os olhos… os olhos estavam completamente negros, iguais aos de Darian quando o poder tomava conta.— Você prometeu — disse a mulher, a voz rouca de quem já hav
As sombras os soltaram como se tivessem sido cuspidas de um lugar sem tempo. Elara cambaleou ao tocar o chão frio de pedra negra. Darian soltou a mão dela devagar, mas não se afastou. Seus olhos ainda estavam negros, e as sombras ao redor de seus pés se moviam inquietas, como se o lugar as incomodasse.— Chegamos — murmurou ele.Elara olhou ao redor.O Lugar Antigo não era exatamente um templo. Era uma catedral subterrânea esculpida na própria montanha. Colunas altas se perdiam na escuridão do teto. No centro, um altar de osso negro subia do chão como se tivesse crescido ali. E por toda parte, gravados nas paredes, estavam os mesmos símbolos que agora marcavam o pulso de Elara, raízes retorcidas, olhos abertos, linhas que pareciam se mover quando ela não olhava diretamente.Darian deu um passo à frente e, no mesmo instante, um gemido baixo e rouco escapou de sua garganta. Ele caiu de joelhos, uma mão apertada contra o peito. As sombras ao redor dele se contorceram violentamente, tenta
A voz de Darian soou distante. Ela piscou, tentando focar, mas a visão começou a turvar. O aposento desapareceu aos poucos, substituído por uma escuridão profunda e sem fim. Não era a escuridão de Vhaldris. Era algo mais antigo. Mais vazio.E então ela a viu.Não como um monstro. Não como a criatura de dentes e olhos que a Igreja descrevia. Era uma presença. Uma forma imensa, feita de sombra e fome, que se estendia além de qualquer limite que a mente humana pudesse compreender. No centro daquela vastidão, havia um rosto. Não humano. Não animal. Apenas um rosto antigo, com olhos que brilhavam com a mesma luz avermelhada da marca de Elara.A voz veio de todos os lugares ao mesmo tempo.— Filha.Elara tentou recuar, mas não havia para onde ir. A presença a cercava, não com violência, mas com um reconhecimento profundo, quase terno.— Você voltou.— Eu não… — a voz de Elara saiu fraca, engasgada. — Eu não sou…— Você carrega o sangue. Você é o último fio que eu tanto esperei.A marca no p
Elara recuou instintivamente, a marca no pulso latejando dolorida, como se algo vivo tivesse se agitado sob a pele. A luz avermelhada que emanava do símbolo iluminou o aposento por um instante, projetando desenhos estranhos nas paredes de pedra negra. Do lado de fora, a figura escura deteve-se no peitoril, imóvel, esperando.Darian não se moveu de imediato. Seus olhos, ainda completamente negros, permaneceram fixos na silhueta. As sombras ao redor de seus pés se agitaram, prontas para atacar, mas ele ergueu uma mão e elas se acalmaram.— Entre — ordenou.A sombra atravessou o vidro sem o menor esforço. No instante em que tocou o chão do aposento, a forma escura começou a se solidificar. Primeiro os contornos de um corpo alto e esguio, depois a textura de uma capa longa, o brilho opaco de uma armadura de escamas negras e, por fim, um rosto.Era uma mulher de pele pálida como mármore antigo, cabelos brancos que caíam até a cintura em ondas pesadas, e olhos de um cinza tão claro que pare
Lá fora, Vhaldris parecia estranhamente tranquila. Pessoas caminhavam pelas ruas como se aquela fosse apenas mais uma noite comum, conversando entre si e seguindo seus caminhos, enquanto luzes azuladas brilhavam entre as construções e refletiam suavemente sobre as pedras das ruas. Por alguns instantes, era difícil para Elara acreditar que, em algum lugar além daquela aparente tranquilidade, homens estavam procurando por ela, seguindo seus rastros e esperando apenas uma oportunidade para encontrá-la.— Então tudo começou hoje? — perguntou, ainda olhando pela janela, tentando conciliar aquela cidade silenciosa com a ameaça que pairava sobre sua cabeça.— Não — respondeu Darian, de maneira firme. Elara virou-se lentamente para ele, franzindo a testa diante da resposta inesperada.— Como assim? Se não começou hoje, então quando tudo isso começou? — perguntou, sentindo uma inquietação.— Hoje foi apenas o momento em que todos perceberam que você havia despertado.— E antes disso? — Elara
— Você sabia que eu estava viva. Sabia quem eu era. Sabia que eu completaria vinte anos. Sabia que o vínculo despertaria e também sabia que alguém viria atrás de mim — disse Elara, enumerando cada revelação com a voz cada vez mais carregada de indignação. — Você sabia de tudo isso muito antes de eu sequer entender o que estava acontecendo comigo. Darian permaneceu em silêncio, imóvel diante dela, e aquele silêncio apenas alimentou a desconfiança que crescia dentro do peito de Elara. — E, mesmo assim, tudo aconteceu exatamente como você esperava. Cada coisa que você sabia acabou acontecendo.— Nem tudo aconteceu como eu esperava — respondeu Darian, finalmente, em um tom baixo e contido. Elara estreitou os olhos com desconfiança.— Então me diga o que deu errado. O que aconteceu de diferente do que você esperava? Darian sustentou o olhar dela por alguns instantes, mas, no fim, desviou os seus olhos. Foi um gesto pequeno, quase imperceptível, mas suficiente para confirmar a suspeita de







