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2.1

last update publish date: 2026-09-05 15:33:06

Dante riu.

Não uma risada alta, mas uma risada baixa, profunda, que ecoou pelo quarto como um trovão distante.

— Dignidade não existe em meu mundo, Aurora. Existe poder. Existe controle. Existe sobrevivência. E se você quer sobreviver ao seu primeiro ano como minha esposa, vai aprender a me obedecer.

Ele se aproximou novamente, agarrando seu pulso com força.

— Agora vamos. O jantar nos espera. E você vai sorrir para cada homem que meu pai colocar à nossa mesa. Vai acenar como a esposa perfeita. Vai desempenhar seu papel como uma atriz no palco. Porque se qualquer pessoa suspeitar que este casamento é uma farsa...

Ele apertou o pulso.

— ...você sabe o que acontece.

Aurora engoliu o grito de dor.

— E depois do jantar? — perguntou, com os dentes cerrados.

Dante a puxou para junto de si, inclinando-se até que seus lábios roçassem o lóbulo de sua orelha.

— Depois do jantar — murmurou ele —, eu vou terminar o que comecei. E você vai descobrir exatamente o que significa casar com o Olho do Diabo.

Ele a soltou abruptamente, e Aurora cambaleou.

Dante se virou e caminhou até a porta, abrindo-a com um gesto brusco.

— Tem dois minutos para retocar a maquiagem. Não se atrase.

A porta se fechou atrás dele com um estrondo.

Aurora ficou parada no centro do quarto, o coração ainda acelerado, os lábios ainda formigando da violência do beijo. O sabor metálico do sangue de Dante ainda estava em sua boca.

Ela tocou os lábios com os dedos trêmulos.

O que ela tinha feito?

E pior: o que ele faria agora?

O salão de jantar era um museu de opulência decadente.

Uma mesa longa de mogno polido se estendia sob um candelabro de cristal que pendia do teto como uma teia de aranha brilhante. Homens de terno escuro ocupavam as cadeiras, todos com expressões severas e olhares calculistas. Eram os capos, os conselheiros, os executores do império Salvatore.

Aurora entrou ao lado de Dante, sentindo cada par de olhos sobre si como se fossem agulhas. O vestido vermelho parecia brilhar sob a luz do candelabro, e ela caminhou com a cabeça erguida, fingindo uma confiança que não sentia.

Dante puxou a cadeira para ela na cabeceira oposta à dele, e Aurora sentou-se, mantendo o sorriso ensaiado nos lábios.

— Senhores — anunciou Dante, ocupando seu lugar. — Apresento a vocês Aurora Salvatore. Minha esposa.

Um coro de cumprimentos murmurados percorreu a mesa.

Aurora respondeu com acenos graciosos, como lhe fora ensinado desde a infância. Ela sabia como se comportar em jantares de máfia. Sabia quando falar, quando sorrir, quando baixar os olhos em falsa submissão.

Mas algo estava diferente agora.

Ela sentia o olhar de Dante sobre si a cada instante, como um farol queimando sua pele. Mesmo quando conversava com os outros convidados, ele a observava, avaliando cada movimento, cada palavra, cada microexpressão.

O jantar se arrastou por horas.

Pratos sofisticados foram servidos e retirados, taças de vinho esvaziadas e preenchidas novamente. Aurora mal tocou na comida, o estômago embrulhado pela tensão. Ela respondeu perguntas sobre a cerimônia, sobre o vestido, sobre os planos para a lua de mel — mentindo com naturalidade sobre cada detalhe.

— E o jovem Enzo? — perguntou um dos capos, um homem de cabelos grisalhos e cicatriz no rosto. — Não compareceu ao jantar?

O silêncio caiu sobre a mesa como uma névoa.

Dante levou a taça de vinho aos lábios, bebendo lentamente antes de responder.

— Meu irmão está... indisposto. Precisou se retirar mais cedo.

— Indisposto? — insistiu o homem. — Que pena. Esperava encontrá-lo para dar os parabéns pela noiva.

Dante pousou a taça na mesa com um som seco.

— A noiva é minha, Alberto. E você não precisa dar parabéns a mais ninguém.

O tom era gelado, e o tal Alberto recuou, compreendendo o recado.

Aurora manteve os olhos fixos no prato, sentindo o coração acelerar. O ar na sala parecia carregado de eletricidade, como se a qualquer momento uma tempestade pudesse explodir.

— Com licença — murmurou ela, levantando-se. — Preciso ir ao banheiro.

Dante a observou enquanto ela se afastava da mesa. Não disse nada, mas o olhar era um aviso: comporte-se.

Aurora caminhou pelo corredor com passos rápidos, buscando uma saída, uma janela, qualquer coisa que a afastasse daquela prisão dourada. Dobrou uma esquina e parou, apoiando as mãos contra a parede fria.

Seu corpo tremia.

Sua mente girava.

Ela fechou os olhos, tentando recuperar o fôlego, quando ouviu passos se aproximando.

— Você parece perdida.

A voz era familiar.

Demasiado familiar.

Aurora se virou e viu Enzo.

Ele estava parado no corredor mal iluminado, ainda com o terno amassado, os cabelos desalinhados, os olhos vermelhos. Parecia um homem que passou as últimas horas em um inferno particular.

— O que você está fazendo aqui? — sibilou ela.

— Eu moro aqui — respondeu Enzo, dando um passo à frente. — Ou esqueceu que sou um Salvatore?

— Você perdeu o direito de se chamar isso hoje.

Enzo recuou como se tivesse levado um tapa.

— Aurora, eu...

— Não — interrompeu ela, erguendo a mão. — Não ouse falar comigo. Não ouse se explicar. Não ouse pedir desculpas. Você me humilhou no dia do nosso casamento. Transou com a minha prima. Me abandonou no altar.

— Eu não sabia que você ia encontrar...

— Isso piora tudo! — Aurora avançou para ele, os olhos ardendo de fúria. — Você preferiu me deixar como idiota na frente de todo mundo a ter a coragem de terminar o noivado como um homem. Você é um covarde, Enzo. E agora seu irmão pagou o preço por sua covardia.

Enzo a encarou, e algo sombrio passou por seus olhos.

— Dante não é herói, Aurora. Ele é pior do que eu. Muito pior.

— Eu sei exatamente o que ele é — respondeu ela, com a voz firme. — E ainda prefiro a crueldade dele à sua falsidade.

Enzo estendeu a mão para tocá-la, mas Aurora recuou.

— Não me toque — disse ela, com desprezo. — Nunca mais.

Ela se virou para voltar ao jantar, mas Enzo a segurou pelo braço.

— Aurora, espere. Eu posso tirar você dessa. Posso convencer meu pai a anular o casamento. Posso...

— Solte-a.

A voz de Dante cortou o ar como uma lâmina.

Enzo congelou.

Aurora também.

Dante surgiu das sombras do corredor, os olhos cinzentos brilhando com fúria contida. Ele caminhou lentamente em direção aos dois, cada passo carregado de ameaça.

— Eu disse para soltá-la — repetiu ele, com a voz baixa e letal.

Enzo obedeceu, afastando-se de Aurora como se ela fosse feita de fogo.

— Dante, eu só estava...

— Não quero ouvir desculpas. — Dante parou diante do irmão, que era alguns centímetros mais baixo. — Você já causou danos suficientes hoje. Ou acha que trair a noiva e desaparecer não teve consequências?

— Eu não desapontei só ela, Dante. Eu desapontei a família.

— Você desapontou a mim. — Dante agarrou o colarinho da camisa de Enzo, puxando-o para si. — E homens que me desapontam pagam caro.

— Dante — chamou Aurora, instintivamente.

Ele a olhou.

— Volte para o salão, Aurora. Agora.

— Eu não vou deixar você matar seu irmão.

Dante soltou uma risada curta, sem humor.

— Eu não vou matá-lo. Ainda não. Meu pai não me perdoaria por sujar o chão da casa no dia do meu casamento.

Ele empurrou Enzo para trás, fazendo-o cambalear.

— Mas você vai sair daqui, Enzo. Vai desaparecer por um tempo. E quando voltar, vai me agradecer por não ter arrancado seus olhos por olhar para minha esposa.

Enzo o encarou, os punhos cerrados.

— Ela era minha noiva, Dante.

— Era. Agora ela é minha esposa. E se você tocar nela novamente, eu mato você. Independentemente do que o pai disser.

O silêncio se estendeu por um momento.

Então Enzo se virou e desapareceu pelo corredor, os passos ecoando até se perderem na escuridão.

Dante voltou-se para Aurora.

— Deveria ter me obedecido e voltado para o salão.

— Eu não sou um cachorro para seguir ordens.

Ele avançou, encurralando-a contra a parede.

— Não. Cachorros são leais. Você é uma coisa diferente.

— O quê?

Dante a encarou intensamente.

— Uma ameaça. Para mim. Para minha sanidade. Para tudo que construí.

Ele ergueu a mão e limpou com o polegar o batom vermelho que borrara no canto da boca dela durante o confronto. O gesto foi surpreendentemente gentil, mas o olhar dele permanecia duro.

— Você me mordeu — disse ele, baixinho.

— Você me beijou sem permissão.

— Eu não preciso de permissão para beijar minha esposa.

Aurora o encarou.

— Então eu não preciso de permissão para morder meu marido.

Dante ficou imóvel por um instante.

Então, lentamente, ele sorriu.

Um sorriso genuíno, perigoso, que não alcançava os olhos.

— Você é fascinante, Aurora. Uma mistura de coragem e estupidez que eu nunca vi em nenhuma mulher.

— Fico lisonjeada — respondeu ela, com ironia.

Dante se inclinou, aproximando os lábios do ouvido dela.

— Aproveite essa coragem enquanto pode. Porque esta noite... — Ele mordiscou levemente o lóbulo de sua orelha. — ...eu vou tomá-la. E não vai restar nada de resistência em você.

Aurora estremeceu.

— Você pode me obrigar a casar. Pode me obrigar a sorrir para seus capos. Pode me obrigar a viver nesta casa. Mas nunca vai me obrigar a desejar você.

Dante recuou, olhando-a nos olhos.

— Veremos.

Ele se virou e caminhou de volta para o salão.

Aurora ficou parada no corredor, o coração aos saltos, a mente em turbilhão.

Ela sabia que a noite estava apenas começando.

E que, antes do amanhecer, teria que enfrentar o diabo em seu próprio reino.

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