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last update publish date: 2026-09-05 15:32:56

O portão de ferro se abriu com um rangido metálico que pareceu ecoar dentro do crânio de Aurora.

A mansão Salvatore erguia-se diante dela como uma fortaleza medieval, com paredes de pedra escura, torres altas e janelas estreitas que mais pareciam frestas de observação. Nada ali era acolhedor. Nada convidava à entrada. Era uma construção projetada para intimidar, para esmagar qualquer resquício de esperança em quem ousasse cruzar seus limites.

O carro parou em frente à escadaria principal, e um homem de terno preto se apressou em abrir a porta. Aurora hesitou por um instante, sentindo o coração martelar contra as costelas. Cada célula de seu corpo gritava para que ela fugisse, para que corresse o mais longe possível daquele lugar e do homem sentado ao seu lado.

— Desça — ordenou Dante, sem olhar para ela.

A voz dele era fria, desprovida de qualquer emoção. A mesma voz que, poucos minutos antes, recitara os votos matrimoniais diante do padre. A mesma voz que a chamara de "esposa".

Aurora obedeceu.

Saiu do carro com as pernas trêmulas, ajeitando instintivamente o vestido de noiva que agora parecia ridículo. O véu havia caído para trás, enroscado nos cabelos escuros que escapavam do penteado elaborado. Ela sentia o peso das joias no pescoço, nos pulsos, nas orelhas — presentes das famílias, símbolos de uma aliança que acabara de ser selada com sangue e traição.

Dante desceu logo atrás, contornando o carro com passos lentos e calculados. Ele não a tocou. Apenas passou por ela, subindo os degraus da mansão como se ela não passasse de mais uma sombra em seu caminho.

— Venha — disse ele, sem se virar.

Aurora ergueu a barra do vestido e o seguiu.

O interior da mansão era tão imponente quanto o exterior. Mármore escuro no chão, lustres de cristal pendendo do teto alto, escadarias duplas que se curvavam como braços de uma serpente gigante. Quadros antigos decoravam as paredes, retratos de homens e mulheres com olhares severos que pareciam julgá-la em silêncio.

— Este é o seu novo lar — anunciou Dante, parando no centro do saguão principal. — Aprenda a gostar dele.

Aurora engoliu o nó na garganta.

— E se eu não gostar?

Dante virou-se lentamente.

O olhar dele a atravessou como uma lâmina.

— Então aprenda a suportá-lo. O resultado é o mesmo.

Ele continuou andando, e Aurora o seguiu por corredores intermináveis, subindo escadas, passando por portas fechadas que guardavam segredos que ela não queria conhecer. Finalmente, pararam diante de uma porta dupla de madeira escura, esculpida com arabescos intrincados.

— Seus aposentos — disse Dante, empurrando as portas.

O quarto era imenso. Uma cama king-size com lençóis de seda preta dominava o centro, cercada por cortinas pesadas que filtravam a luz do entardecer. Havia um closet aberto, um banheiro de mármore visível através de uma porta de vidro, e uma varanda com vista para os jardins sombrios da propriedade.

— É... bonito — murmurou Aurora, sem saber o que mais dizer.

— Não me interessa o que você acha — respondeu Dante, encostando-se ao batente da porta. — Interessa-me apenas que você obedeça.

Ele a observou por um longo momento, os olhos cinzentos percorrendo seu corpo como se a despissem sem permissão. Aurora sentiu-se exposta, vulnerável, como um animal sob o olhar de um predador.

— Existem regras nesta casa — continuou ele. — E você vai segui-las à risca. Primeira regra: ninguém entra ou sai sem minha permissão. Segunda regra: você não fala com ninguém sobre o que acontece aqui dentro. Terceira regra...

Ele fez uma pausa, e um sorriso cruel curvou seus lábios.

— ...você me obedece. Em tudo. Sem questionar. Sem hesitar. Entendeu?

Aurora ergueu o queixo, desafiando-o.

— E se eu me recusar?

Dante se afastou da porta, aproximando-se dela com a lentidão de um predador que sabe que a presa não tem escapatória.

— Então eu mato seu pai.

O ar desapareceu dos pulmões de Aurora.

— O quê?

— Você ouviu perfeitamente. — Dante parou a poucos centímetros dela, inclinando-se até que seus rostos ficassem a um palmo de distância. — Se você me desobedecer, se tentar fugir, se fizer qualquer coisa que eu não aprove... eu mato seu pai. Depois sua mãe. Depois qualquer pessoa que você ama. Entendeu agora?

Aurora sentiu as pernas fraquejarem.

Ele era o diabo.

Não era uma metáfora.

Não era um apelido.

Ele era o diabo em forma de homem.

— Você é um monstro — sussurrou ela.

Dante soltou uma risada baixa, sem humor.

— E agora sou seu marido.

Ele se virou para sair, mas parou na porta.

— Troque de roupa. Há um jantar em sua homenagem daqui a duas horas. Não me faça esperar.

E saiu, fechando a porta com um estrondo.

Aurora ficou sozinha no quarto imenso, abraçando a si mesma em busca de um conforto que não encontraria. As lágrimas ameaçavam cair, mas ela as conteve. Não derramaria uma única lágrima por aquele homem. Não daria a ele essa satisfação.

Pelo menos não ali.

Pelo menos não agora.

Aurora passou a hora seguinte explorando o quarto.

Encontrou o closet abastecido com roupas novas, todas do seu tamanho, todas caras, todas escolhidas com uma precisão que a perturbou. Como Dante sabia suas medidas? Havia quanto tempo planejava aquilo? A traição de Enzo fora uma surpresa para todos, mas algo dizia a Aurora que Dante estava mais do que preparado para aproveitá-la.

O pensamento a fez estremecer.

Ela escolheu um vestido longo de seda vermelha — uma cor que nunca usara antes, considerando-a ousada demais para uma garota criada para ser discreta. Mas aquela era sua primeira noite como esposa de Dante Salvatore. Se ele queria que ela se vestisse para um jantar, ela se vestiria. Mas do seu jeito.

O vestido abraçava suas curvas como uma segunda pele, decotado nas costas até a cintura, com uma fenda lateral que subia até a coxa. Aurora soltou os cabelos, deixando-os cair em ondas escuras sobre os ombros, e aplicou um batom vermelho que encontrou no banheiro.

O reflexo no espelho era o de uma mulher que ela não reconhecia.

Uma mulher mais dura.

Mais fria.

Mais perigosa.

Talvez fosse exatamente essa mulher que precisava ser para sobreviver ao inferno que a aguardava.

As portas do quarto se abriram de repente, e Aurora se virou, sobressaltada.

Dante estava parado no vão, ainda com o mesmo terno preto da cerimônia, mas agora sem o paletó. A camisa branca estava levemente desalinhada, e as mangas estavam dobradas até os cotovelos, revelando antebraços musculosos cobertos de tatuagens.

Ele a observou em silêncio.

Aurora sustentou o olhar.

— Eu mandei você ficar pronta — disse ele, finalmente.

— Estou pronta.

Dante a analisou de cima a baixo, lentamente, sem pressa. O olhar dele parou na fenda do vestido, na curva do quadril, no brilho do batom vermelho. Algo mudou em sua expressão. Uma sombra. Um lampejo de algo primitivo que fez Aurora prender a respiração.

— Esse vestido — murmurou ele, avançando para dentro do quarto. — Quem o escolheu?

— Eu.

Ele parou diante dela, perigosamente perto.

— Eu não disse para você escolher.

— Você disse para trocar de roupa. Não especificou qual.

Dante inclinou a cabeça.

— Está me desafiando, pequena noiva?

Aurora ergueu o queixo.

— Estou apenas seguindo instruções. Como uma boa esposa deve fazer.

O sorriso que curvou os lábios de Dante foi lento e carregado de algo que fez o estômago de Aurora se contorcer.

— Uma boa esposa sabe qual roupa o marido gosta de vê-la vestir — disse ele, avançando mais um passo. — Ou melhor... despir.

Aurora recuou instintivamente, mas a parede a deteve.

Dante estava agora a centímetros dela, e o cheiro amadeirado de seu perfume invadia seus sentidos. Ela sentia o calor que emanava de seu corpo, a solidez de sua presença, a ameaça silenciosa em cada movimento.

— Diga-me, Aurora — sussurrou ele, com a voz rouca. — Você escolheu esse vestido para me provocar?

— Eu não quero provocar você.

— Mentira.

Ele ergueu a mão e roçou os dedos pela fenda do vestido, subindo lentamente pela pele nua de sua coxa. O toque foi elétrico, inesperado, e Aurora engoliu um suspiro.

— Tire a mão de mim — ordenou ela, com a voz vacilante.

Dante sorriu.

— E se eu não tirar?

— Eu...

Ele apertou a mão em sua coxa, puxando-a para si com força. Aurora colidiu contra seu peito duro, sentindo o batimento cardíaco dele, acelerado, contra o seu.

— Você é minha esposa — rosnou ele, contra seu ouvido. — Sua obediência me pertence. Sua boca me pertence. Seu corpo me pertence. E se eu quiser tocá-la, eu vou tocá-la. Se eu quiser beijá-la...

Ele recuou o rosto, encarando-a nos olhos.

— ...você vai me beijar. Entendeu?

Aurora sentiu um turbilhão de emoções — medo, raiva, desejo, confusão. Ela odiava aquele homem. Odiava com cada fibra do seu ser. Mas havia algo nele, algo na intensidade de seu olhar, no calor de seu toque, que despertava sensações que ela nunca experimentara.

— E se eu me recusar? — desafiou ela, sem reconhecer a própria voz.

Dante a encarou por um longo momento.

Então, sem aviso, ele a beijou.

Não foi um beijo suave.

Foi um beijo feroz, possessivo, devastador.

Os lábios dele pressionaram os dela com uma urgência brutal, e Aurora sentiu o mundo girar. Uma das mãos de Dante subiu para sua nuca, segurando-a firme, enquanto a outra deslizava por sua cintura, colando-a ainda mais contra seu corpo.

Ela tentou resistir.

Tentou empurrá-lo.

Tentou negar o fogo que se espalhava por suas veias.

Mas o corpo traiu a mente.

Sua boca se abriu sob a pressão da dele, permitindo que sua língua invadisse, explorasse, dominasse. Aurora gemeu contra os lábios de Dante, as mãos subindo involuntariamente para seus ombros, agarrando o tecido da camisa branca com desespero.

O beijo era guerra.

Era posse.

Era condenação.

Dante a ergueu do chão, envolvendo suas pernas em torno de sua cintura, e a prensou contra a parede. Aurora sentiu a dureza do corpo dele contra o seu, a evidência inegável de seu desejo, e o choque a atingiu como um soco.

Ele a queria.

E o pior: ela também o queria.

Aurora odiou a si mesma por isso.

Odiou o corpo que respondia ao toque do inimigo, a boca que se entregava ao beijo do monstro, o coração que acelerava não de medo, mas de excitação.

Dante mordeu seu lábio inferior, puxando-o levemente, e Aurora sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— Você é minha — sussurrou ele, com a voz rouca, contra sua boca. — Diga.

— Nunca — respondeu ela, ofegante.

Dante sorriu.

— Teimosa. Eu gosto de mulheres teimosas. Torna a dominação muito mais doce.

Ele a beijou novamente, mais devagar desta vez, mas não menos intenso. A língua dele dançava com a dela em uma coreografia perversa, e Aurora sentia as defesas ruírem uma a uma.

Foi então que ela o mordeu.

Não foi um mordisco acidental de paixão.

Foi uma mordida deliberada, forte o suficiente para ferir, para provar sangue, para marcar território.

Dante recuou com um grunhido, levando a mão ao lábio inferior. Havia sangue escorrendo, um fio vermelho que contrastava com a pele pálida.

Ele olhou para o sangue nos dedos.

Depois olhou para Aurora.

Algo selvagem brilhou em seus olhos.

— Você me mordeu — disse ele, lentamente, como se saboreasse cada sílaba.

Aurora o encarou, respirando com dificuldade, o batom vermelho borrado nos lábios inchados.

— Eu não sou sua — declarou ela, com a voz trêmula, mas firme. — E nunca serei.

Dante limpou o sangue com as costas da mão, sem desviar o olhar dela.

— Você não tem ideia do que acabou de fazer, pequena noiva.

— Tenho sim. — Aurora se afastou da parede, alisando o vestido com mãos instáveis. — Defendi a única coisa que me resta: minha dignidade.

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