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last update publish date: 2026-10-15 17:04:32

O quarto mergulhou num silêncio denso, apenas cortado pelo som distante do vento que uivava do lado de fora, batendo contra as janelas altas como se quisesse entrar. Aurora permaneceu imóvel, os dedos ainda pairando sobre o zíper do vestido, o coração martelando contra as costelas com uma força que ela temia ser audível. Dante não se moveu. Não desviou os olhos. Apenas ficou ali, parado a três passos de distância, as mãos relaxadas ao longo do corpo, a postura de quem observa uma presa encurralada saboreando cada segundo antes do bote.

— Você vai ficar aí me encarando a noite inteira? — perguntou Aurora, e sua voz saiu mais firme do que esperava, embora o tremor em seus dedos a traísse.

Dante inclinou a cabeça levemente, e a luz âmbar das velas que decoravam o quarto dançou sobre a cicatriz fina em sua sobrancelha esquerda, aquela marca pálida que cortava o arco do olho como uma lembrança de violência antiga. Ele não sorriu. Mas algo nos cantos de sua boca se moveu, um quase-sorriso que era mais ameaçador do que qualquer expressão de raiva.

— Estou esperando — disse ele, com a voz grave e baixa, arrastando as sílabas como quem saboreia um vinho caro. — Você disse que tiraria o vestido. Eu estou apenas aguardando o cumprimento da sua palavra.

— Você é cruel até nas palavras.

— Eu sou muitas coisas, Aurora. Cruel é apenas a que as pessoas escolhem lembrar.

Ele deu um passo à frente, e o som de seus sapatos contra o chão de madeira escura ecoou como um tambor lento. Aurora sentiu o cheiro dele se intensificar — madeira de sândalo, couro curtido, algo metálico que ela não conseguia identificar, talvez pólvora, talvez sangue, talvez apenas a essência de um homem que passara a vida inteira cercado por morte. Ela recuou um passo instintivamente, e as costas tocaram a superfície fria da janela. O vidro estava gelado contra sua pele através do tecido fino do vestido, e o contraste com o calor que emanava de seu próprio corpo a fez estremecer.

Dante parou a um palmo dela.

— Vire-se — ordenou ele.

— O quê?

— O zíper está nas suas costas. Você não consegue alcançá-lo sozinha. Vire-se.

Aurora engoliu em seco. Havia algo humilhante naquela ordem, algo que a fazia sentir-se ainda mais vulnerável do que já estava. Mas ele tinha razão — o zíper do vestido de noiva era longo, ia da base da nuca até a curva lombar, e seus dedos não alcançariam nem metade dele.

— Eu posso chamar a Carmela — disse ela, numa tentativa desesperada de adiar o inevitável.

— Carmela está dormindo. E mesmo que não estivesse, não permitiria que outra pessoa tocasse em você esta noite. Vire-se.

A última palavra saiu como um chicote.

Aurora fechou os olhos por um instante, respirando fundo. O ar do quarto estava carregado de cera de vela, madeira polida e o perfume dele, e cada inspiração parecia arrastar aquele cheiro para dentro de seus pulmões, marcando-a por dentro como ele já a marcara por fora com o anel em seu dedo. Ela se virou lentamente, de frente para a janela, e observou o reflexo dos dois no vidro escuro — ela, pequena e pálida dentro do vestido branco, e ele, alto e sombrio atrás dela, uma sombra que parecia engolir toda a luz do quarto.

Os dedos de Dante tocaram a base de sua nuca.

Aurora prendeu a respiração.

O toque foi surpreendentemente leve, quase delicado, enquanto ele puxava o zíper para baixo. O som metálico dos dentes se separando cortou o silêncio como uma lâmina, e Aurora sentiu o vestido afrouxar ao redor de seu torso, o tecido pesado de renda e cristais escorregando pelos seus ombros. Ela levou as mãos ao peito para segurá-lo, mas Dante foi mais rápido — seus dedos envolveram os pulsos dela, afastando suas mãos com firmeza, e o vestido caiu no chão numa poça de seda e tule, deixando-a apenas com o sutiã de renda branca, a calcinha de seda e as meias finas presas por uma liga delicada.

O ar frio do quarto eriçou sua pele.

— Não se cubra — disse Dante, e sua voz tinha um tom diferente agora, mais rouco, mais profundo, como se algo dentro dele tivesse se despertado. — Não há nada de que se envergonhar.

— Você está me olhando como se eu fosse um objeto — respondeu Aurora, sem se virar, a voz trêmula apesar de sua determinação em parecer forte.

— Estou olhando para você como se você fosse minha. Porque é.

Ela sentiu a mão dele pousar em sua cintura, quente através do tecido fino da calcinha, e seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse intervir — um arrepio que subiu pela coluna, uma contração involuntária dos músculos, uma resposta que a envergonhou profundamente. Dante deve ter sentido, porque sua respiração mudou atrás dela, tornando-se mais pesada, mais lenta.

— Vamos — disse ele, e a mão em sua cintura a guiou para longe da janela, através do quarto, em direção a uma porta que Aurora não havia notado antes.

---

A porta dava para um banheiro que parecia saído de um sonho — ou de um pesadelo, dependendo da perspectiva. O chão era de mármore preto polido, tão brilhante que refletia as chamas das velas espalhadas por todas as superfícies, criando um labirinto de luz e sombra que dançava nas paredes. No centro, uma banheira de pedra encastrada no chão, grande o suficiente para quatro pessoas, já estava cheia de água fumegante que soltava vapores perfumados de lavanda e algo mais amadeirado, talvez cedro ou sândalo. Toalhas brancas dobradas com precisão militar repousavam sobre um banco de madeira escura, e um conjunto de frascos de vidro âmbar alinhados na borda da banheira continha óleos e sais de banho que pareciam caros demais para serem usados.

— Você preparou isso? — perguntou Aurora, surpresa apesar de si mesma.

— Ordenei que preparassem — corrigiu Dante, soltando a mão de sua cintura para começar a desabotoar a própria camisa. — Há uma diferença entre fazer e ordenar. Eu raramente faço coisas com as próprias mãos.

— Exceto tirar o vestido de noivas relutantes.

Dante parou com os dedos no terceiro botão e a encarou. Havia um brilho de diversão em seus olhos cinzentos, algo que Aurora não esperava ver naquele rosto duro.

— Você tem uma língua afiada, pequena noiva. Isso vai lhe custar caro um dia.

— Já me custou tudo o que eu tinha.

A resposta saiu antes que ela pudesse pensar, e por um momento algo cruzou o rosto de Dante — algo rápido, quase imperceptível, como uma sombra passando sobre a água. Mas desapareceu antes que Aurora pudesse identificar, e ele voltou a desabotoar a camisa com movimentos precisos e econômicos.

Aurora desviou o olhar, subitamente consciente de sua própria semi-nudez. Ela cruzou os braços sobre o peito, mas o gesto pareceu patético mesmo para seus próprios olhos. O que importava? Ele já a tinha visto de todas as formas possíveis em sua mente, tinha certeza. Homens como Dante Salvatore não deixavam nada à imaginação.

— Entre na banheira — ordenou ele, e o som do tecido caindo no chão a fez se virar.

Dante estava nu da cintura para cima.

Aurora sentiu a boca secar.

Ela sabia que ele era um homem forte — isso era evidente mesmo através do terno impecável, na largura dos ombros, na forma como ocupava o espaço. Mas ver era diferente. O peito dele era largo, coberto por uma camada de pelos escuros que desciam em uma linha fina até o umbigo, e cada músculo parecia esculpido em pedra — não os músculos de academia, mas os de um homem que passara a vida inteira usando o corpo como arma. Havia cicatrizes. Muitas. Uma longa linha pálida que atravessava o lado esquerdo do abdômen, outra menor perto da clavícula, e uma terceira que sumia sob a linha do cinto, como se alguém tivesse tentado abri-lo ao meio e falhado.

— Você está me olhando — disse ele, e não havia vaidade na voz, apenas uma constatação.

— Estou avaliando o inimigo — respondeu Aurora, e sua voz saiu mais rouca do que pretendia.

Dante riu.

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