MasukDepois do funeral, papai providenciou para que Michelle saísse de casa. Deu a ela uma casa e dinheiro suficiente para viver, honrando o vínculo formado ao longo dos anos em que a criou.Mamãe reorganizou meu quarto, retirando do depósito meus certificados de premiação e caixas de remédios. Também encontrou o bichinho de pelúcia que Dante havia me dado, com uma das orelhas descosturada.Dante sentou-se no chão, costurando-a de volta desajeitadamente. De repente, lembrou-se de como, sempre que eu ia ao hospital quando criança, me recusava a entrar na sala de exames se não estivesse segurando o brinquedo.Mas mais tarde, eles ficaram tão ocupados que ninguém sequer percebeu que eu não havia conseguido levar meu bichinho de pelúcia favorito quando fui internada.Papai examinou todas as fotos antigas. Elas mostravam minha vida, da infância à idade adulta, sempre com a minha figura bem no centro.Mas, depois que Michelle entrou para a família, minha posição foi gradualmente se deslocand
Mamãe de repente se lembrou da época em que passei pela minha primeira cirurgia, aos três anos de idade.Os médicos haviam alertado sobre os altos riscos envolvidos, e ela me abraçou, chorando no corredor do hospital durante toda a noite. Repetia sem parar que estaria me esperando do lado de fora, correndo ao lado da maca enquanto eu era levada para a sala de cirurgia.Papai certa vez deixou todo o trabalho de lado para me levar e buscar pessoalmente na escola. Houve uma ocasião em que desmaiei durante a aula, e ele correu até lá tão desesperado que chegou a calçar os sapatos nos pés errados.Dante era ainda mais protetor comigo desde que éramos pequenos. Quando meus colegas zombavam de mim por ser tão frágil, ele imediatamente os confrontava e brigava com eles. Quando meu estado piorava no meio da noite, ele me carregava nas costas em busca de ajuda, recusando-se a parar mesmo depois de machucar gravemente os joelhos.Eles costumavam ter tanto medo de que eu morresse. Então, por q
A faca de cortar o bolo escorregou da mão de mamãe e caiu no chão. Ela ficou olhando para Dante, atordoada.Os lábios de Dante se moveram algumas vezes antes que ele finalmente falasse:— O hospital disse que ninguém foi buscar os restos mortais de Lia.Mamãe ficou imóvel por um instante e em seguida, soltou uma risadinha.— Isso é impossível. Lia foi apenas transferida para outro hospital. Quando tinha 18 anos, seu estado era muito pior, e ela conseguiu se recuperar naquela época.O rosto de papai endureceu.— Deve ser um golpe. Se algo realmente tivesse acontecido com ela, por que esperariam tanto para nos avisar?De repente, Dante se lembrou de algo e tirou apressadamente o casaco que havia usado várias vezes. O formulário de estado crítico ainda estava no bolso, mas já estava todo amassado e vincado.Assim que papai viu o aviso em letras vermelhas, elevou a voz:— Por que você não foi ver o médico?Dante ficou paralisado.— Achei que ela fosse se recuperar.A sala de es
Durante as duas semanas em que Michelle ficou internada, ninguém fez um esforço sério para me procurar. Papai pediu ao assistente que investigasse meu paradeiro, mas ele só conseguiu a informação de que eu havia deixado meu quarto original.Assim, papai concluiu que eu tinha sido transferida para outro hospital sem avisar a família.— Ela está nos evitando de propósito.Papai folheou o plano de reabilitação de Michelle, com uma expressão fria.— Ela acha que, fazendo isso, vai nos fazer sentir culpa por termos desistido dela.Mamãe, porém, estava tomada pela inquietação.— Naquela hora, estavam tentando reanimá-la. Será que ela realmente conseguiu se transferir para outro hospital sozinha?Papai não respondeu.Quanto a Dante, ele estava perto da janela, encarando sua última mensagem para mim, na qual exigia saber por que eu me recusava a dar a pulseira a Michelle.Michelle segurou a mão de mamãe, com os olhos avermelhados.— Lia ainda está brava comigo? Se não fosse por mim,
Estava escrito, "A paciente apresenta insuficiência cardíaca grave e corre risco de parada cardíaca a qualquer momento. Por favor, compareçam imediatamente ao hospital."Dante ficou encarando aquelas palavras e em seguida virou-se para sair correndo de volta.Mas, naquele instante, a porta da sala de cirurgia atrás dele se abriu. Michelle, ainda sem estar totalmente consciente, foi levada para fora em uma maca. Instintivamente, ela agarrou a manga dele.— Dante...Ao ver como Michelle estava pálida, ele parou.Mamãe percebeu o formulário na mão de Dante e perguntou, hesitante:— É mesmo um formulário de estado crítico?Dante sentiu a garganta apertar.— O médico quer que a gente vá até lá imediatamente.— Você deveria ir ver o que está acontecendo.Mamãe mal havia terminado de falar quando Michelle franziu as sobrancelhas de repente, sentindo dor.Minha família, que tinha acabado de começar a relaxar, reuniu-se ao redor dela mais uma vez.Papai deu um tapinha no ombro de Dan
No dia da cirurgia de Michelle, meus pais e Dante esperavam do lado de fora do quarto dela antes do amanhecer, enquanto os primeiros flocos de neve caíam.Mamãe penteava seus cabelos, enquanto papai continuava questionando o médico sobre os riscos.Dante se agachou ao lado da cama dela e colocou em seu pescoço o amuleto da sorte que me pertencia. Ele lhe disse:— Não tenha medo. Estaremos esperando lá fora.Eu estava no outro extremo do corredor, observando-os em silêncio. Ninguém percebeu que eu também havia trocado de roupa e vestido um avental hospitalar.Nas primeiras horas da manhã, sofri uma insuficiência cardíaca aguda e fui levada às pressas para a UTI. O médico disse que um quarto comum já não era adequado para mim e que minha família precisava assinar um formulário reconhecendo meu estado crítico.Mas não conseguiram entrar em contato com eles, então a enfermeira me pediu que fosse procurá-los.Eu havia dado apenas alguns passos quando uma dor lancinante me atingiu. Er







