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CAPÍTULO 2

Author: Lira Celestial
Heloísa não perguntou onde Simão havia passado a noite.

E ele também não disse.

Como se as manchetes dos jornais, cheias de rumores entre ele e Isadora, não tivessem nada a ver com a própria esposa.

Simão comia com a elegância habitual.

Heloísa, porém, sentia o gosto amargo da comida.

Engolindo às pressas, perguntou, olhando para ele:

— Sr. Simão, o senhor tem tempo no almoço de hoje? Podemos ir juntos escolher o bolo de aniversário do Igor?

Ela o chamava de Sr. Simão.

Sempre foi assim, e ele nunca a corrigiu.

Simão não levantou os olhos.

— Almoço com um cliente. Sem tempo.

— E à tarde?

O movimento da colher parou por um segundo.

Ele finalmente ergueu o olhar.

Aqueles olhos belos e frios como água pousaram nela, sem emoção.

— Já pedi pra mandarem preparar o bolo do Igor. Não precisa se preocupar.

— Mas eu queria escolher pessoalmente.

Heloísa sempre foi obediente, nunca ousou contradizê-lo.

Mas, dessa vez, queria tentar, era o aniversário do filho.

Simão, no entanto, não lhe deu chance.

As sobrancelhas se franziram.

— Heloísa, não inventa problema onde não tem.

— Sr. Simão, eu sou a mãe do Igor. — Disse ela, firme, pela primeira vez em três anos de casamento.

Como esperado, Simão se irritou.

Perdeu o apetite, largou a colher, pegou um guardanapo e limpou os lábios com calma.

Depois soltou, num tom indiferente:

— Se está entediada, sai pra dar uma volta. Faz compras, vê um filme… o que quiser.

Heloísa ficou olhando enquanto ele se afastava a passos largos.

Seu peito apertava, como se algo a estrangulasse por dentro.

Simão não quis acompanhá-la.

Então ela foi sozinha escolher o bolo de aniversário do Igor.

Além do bolo, Heloísa já havia preparado o presente do filho com antecedência.

Como mal podia vê-lo, não sabia do que ele gostava.

Foi Regina quem contou que ultimamente o Igor anda encantado com bichinhos de pelúcia.

Então Heloísa passou um mês inteiro escolhendo tecidos macios e agradáveis, e costurou, com as próprias mãos, um boneco de cachinhos enrolados.

Esperava que aquele boneco pudesse substituir sua presença e acompanhar o filho nas noites de sono.

À tarde, ela chegou à mansão com o bolo e o presente nos braços.

Do saguão principal vinham sons de piano misturados à melodia alegre de um parabéns animado.

Ao se aproximar, viu a sala cheia de gente.

Isadora estava sentada ao piano, tocando a canção de parabéns.

Senhora Denise segurava o pequeno Igor no colo, sentada diante do bolo, batendo palmas e cantando junto.

E Simão, sentado no sofá, exibia um raro sorriso suave no rosto sempre tão frio.

Quando a música terminou, Isadora se levantou, agachou-se ao lado do menino e acenou para Simão:

— Simão, vem cá! Vamos soprar as velas juntos!

Igor imitou o gesto, sorrindo radiante:

— Papai, vem soprar!

Simão se levantou com um leve sorriso, aproximando-se.

Os três sopraram as velas juntos.

Sob as luzes coloridas, os dois adultos ladeavam o menino, formando uma cena íntima e perfeita, como se fossem uma verdadeira família.

Heloísa apertou o bolo e o brinquedo nas mãos.

A dor era tão intensa que mal conseguia respirar.

Ela era a mãe de Igor.

Era ela quem deveria estar ali, ajudando o filho a apagar as velas.

Mas Isadora a substituía com uma facilidade cruel.

— A Srta. Heloísa chegou. — Avisou alguém dentro da sala.

Os olhos de todos na família Franco se voltaram para a porta.

A expressão da Senhora Denise escureceu quase que imediatamente.

— O que você veio fazer aqui? — Perguntou, sem disfarçar o desdém.

O coração de Heloísa estava tomado apenas pelo desejo de ver o filho.

Engolindo a humilhação, deu alguns passos em direção ao salão principal e respondeu com voz mansa:

— Mãe, hoje é o aniversário do Igor. Eu só queria passar um tempinho com ele.

— O Igor já tem a professora dele, a Srta. Isadora. Não precisa de você.

Professora Isadora?

Heloísa olhou para Simão, confusa.

Ele também a olhava, o rosto de traços perfeitos e frios como mármore, iluminado pela luz dourada, lembrava o de um deus esculpido.

Apenas aqueles olhos, frios como sempre, não traziam nenhum traço de calor.

Se não fosse pelo sorriso terno que dedicara há pouco a Isadora e ao filho, Heloísa pensaria que ele simplesmente não sabia sorrir.

Simão se levantou e foi em sua direção.

As palavras que disse soaram mais como um aviso do que uma explicação:

— Isadora fala vários idiomas e estudou desenvolvimento infantil. Como o Igor está começando a aprender a falar, a mãe a contratou como professora de linguagem dele.

O corpo de Heloísa vacilou levemente.

A cabeça zumbia.

Isadora era musicista, e de repente, havia se especializado em educação infantil?

Só um idiota não perceberia que ela vinha se preparando para entrar na família Franco.

Heloísa sempre soube que Isadora poderia tirar Simão dela, mas nunca imaginou que o filho seria a brecha para isso.

Isadora caminhou até o lado de Simão e estendeu a mão para ela:

— Pode ficar tranquila, Sra. Heloísa. Eu cuidarei muito bem do Igor.

Heloísa olhou para a mão estendida, depois para o rosto bonito e gracioso da mulher.

Ela era realmente muito bonita.

Mais delicada e cheia de charme do que parecia na televisão.

De pé ao lado de Simão, formavam um casal perfeito.

Heloísa mordeu o lábio, encarando o marido com seriedade.

— Eu posso recusar? Eu também falo seis idiomas, e estudei sobre educação infantil. Eu posso cuidar do Igor.

— Que direito você tem de recusar?!

Sra. Denise levantou-se abruptamente do sofá e a encarou com frieza.

— Heloísa, não se esqueça, por mais talentosa que seja, continua sendo uma surda. Eu nunca vou confiar o futuro herdeiro da família Franco a você.

Heloísa já sabia que a sogra a desprezava.

Não queria discutir.

Mas ainda assim, seus olhos continuaram presos ao rosto calmo de Simão, esperando por alguma reação.

O olhar de Simão vacilou por um instante, mas ele ainda assim respondeu com frieza:

— Pergunta pro Igor. Vê se ele quer ir com você.

Heloísa se virou e viu o filho, meio escondido atrás de Isadora, espiando-a com curiosidade.

Ela tirou da sacola o boneco de cachinhos, ajoelhou-se e chamou com ternura:

— Igor, sou a mamãe. Este é o presente que a mamãe fez pra você, de aniversário.

O menino agarrou firme a barra do vestido de Isadora e balançou a cabecinha como um tambor.

— Não quero mamãe... quero madrinha...

Madrinha.

Então Isadora também tinha esse papel.

O coração de Heloísa, já gelado, pareceu congelar de vez.

Isadora se abaixou suavemente, abraçando o menino e o confortando com doçura:

— Igor, a mamãe também te ama, como pode dizer que não quer ela?

— Olha, este bonequinho foi a mamãe quem fez pra você. É lindo, não é?

Ela pegou o brinquedo das mãos de Heloísa e o mostrou ao menino.

Igor olhou o boneco por um segundo e o jogou direto no chão.

— Não quero... feio...

E saiu correndo até o sofá, pegando outro brinquedo novo e dizendo, animado:

— Madrinha... gosto!

A fala ainda era infantil, mas Heloísa entendeu perfeitamente, ele gostava mais do presente que Isadora havia lhe dado.

A Senhora Denise aproveitou para soltar uma ironia:

— Nosso Igor tem bom gosto. Sabe reconhecer que o brinquedo que a madrinha escolheu é feito sob encomenda, muito mais digno de ser guardado.

O rosto de Heloísa empalideceu.

Isadora, em um gesto afetuoso e falso, segurou sua mão trêmula.

— Sra. Heloísa, não fique triste. Crianças nessa idade não sabem o que é certo ou errado. Quando crescer, ele vai entender o que significa mamãe.

Sim.

Uma criança de dois anos não distingue certo de errado.

Aprende apenas o que os adultos à volta ensinam.

E aquelas pessoas... estavam claramente ensinando-o de propósito.
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