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Capítulo 2

Author: Fazendeiro
Na manhã seguinte, agendei meu atendimento no centro de solicitação de vistos.

O processo para obter o visto de trabalho necessário à minha transferência para o exterior estava sendo conduzido às pressas.

Eu precisava confirmar pessoalmente uma série de documentos.

Coloquei os documentos em uma pasta e tirei a mala do alto do armário.

Quando a mala tocou o chão, uma fina camada de poeira se levantou.

Fazia três anos que eu havia comprado aquela mala, mas nunca a tinha usado.

Vicente não gostava de viajar.

Para ser mais exata, ele não gostava de viajar comigo.

Ele podia atravessar mais de dez países por causa de apresentações, mas sempre dizia que as viagens particulares prejudicavam seu desempenho como músico.

Eu tinha acabado de colocar algumas roupas de inverno na mala quando o celular tocou.

Era Vicente.

Assim que atendi, ouvi uma grande agitação do outro lado da linha.

Alguém chamava um médico. Outra pessoa tentava ajustar os equipamentos às pressas.

Rui, o empresário dele, falou em voz baixa:

— Bianca, Vicente estava no meio da gravação quando perdeu o controle da mão de repente.

Eu segurava uma pilha de documentos do visto e não disse nada.

— Agora ele se trancou na sala de descanso e não abre a porta para ninguém. — Rui falou, ainda mais aflito. — Bianca, você precisa vir logo. Ele só escuta você.

Ao longo de oito anos, eu havia recebido ligações assim muitas vezes.

Na pior delas, Vicente quebrou o arco do violoncelo, e as lascas de madeira cortaram a palma da mão dele.

Quando eu arrombei a porta, ele estava encolhido no canto da parede, com as mãos cobertas de sangue.

Ele agarrou a minha manga e me perguntou várias vezes se nunca mais conseguiria tocar.

Naquela noite, fiquei ao lado dele até o amanhecer.

Ele disse:

"Bianca, se não fosse por você, eu talvez já estivesse morto."

— Bianca?

Rui ainda me apressava.

— Eu vou ligar para o médico dele. — Falei, abrindo a lista de contatos no celular. — Peça para o médico ir até aí e cuidar dele.

— Mas Vicente não deixa ninguém entrar agora.

— E Natália?

Rui fez uma pausa do outro lado da linha:

— Ela está na porta.

— Então peça para ela ficar com ele.

Eu desliguei e enviei o número do médico.

Dez minutos depois, Vicente me ligou pessoalmente:

— Por que você não veio?

A voz dele estava rouca, e dava para perceber a raiva que tentava conter depois de perder o controle.

— Eu estou resolvendo os trâmites da minha transferência de trabalho. — Respondi, olhando para a fila de pessoas do outro lado da vidraça. — O seu médico já está a caminho.

— Eu não quero médico.

— Então de quem você precisa?

Ele ficou em silêncio por um instante:

— Você sabe muito bem.

É claro que eu sabia.

Ele precisava de alguém que segurasse sua mão e verificasse, dedo por dedo, se ainda conseguia mover cada dedo.

Precisava de alguém que lhe dissesse repetidas vezes, enquanto sua respiração ficava cada vez mais irregular, que ele não precisava ter medo.

Mas eu tinha feito aquilo durante oito anos.

Eu acreditei, um dia, que, se eu continuasse ao lado dele, ele acabaria olhando para mim também quando eu precisasse.

Só mais tarde entendi que ser necessária não era o mesmo que ser amada.

— Vicente, eu não posso correr até você todas as vezes.

A respiração dele ficou pesada de repente ao telefone:

— Você ainda está fazendo birra?

— Não estou.

— Só porque eu não fiquei com você, agora você nem liga mais para a minha mão? — Ele parecia finalmente ter encontrado uma explicação para o meu comportamento estranho. — Quando a gravação terminar, eu compenso você. Se você quiser jantar ou ver um filme, tudo bem.

Eu baixei os olhos e vi um funcionário chamando a minha senha:

— Chegou a minha vez.

— Bianca!

Eu desliguei o telefone e caminhei até o guichê de atendimento.

À tarde, o estúdio dele publicou um comunicado anunciando o adiamento da gravação.

Natália também postou uma foto.

Na imagem, ela estava agachada diante da porta da sala de descanso, com água e remédios ao lado.

A legenda tinha apenas uma frase.

[Sempre existe alguém que precisa ficar.]

Eu olhei em silêncio por alguns segundos e fechei a tela do celular.

À noite, quando voltei para casa, retirei meu nome do campo de representante autorizado na ficha médica de Vicente.

No campo destinado ao novo contato de emergência, indiquei Natália.

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