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Três Horas Para Ela, Dez Minutos Para Mim
Três Horas Para Ela, Dez Minutos Para Mim
Author: Fazendeiro

Capítulo 1

Author: Fazendeiro
Enquanto isso, ele me enviou uma mensagem:

[Minha apresentação acabou. Aqueles dez minutos que eu reservaria para você esta semana ficam para a semana que vem.]

Eu apaguei a conversa e não respondi.

Já que Meu Grande Amor tinha ganhado nova ouvinte, também era hora de eu sair de cena.

......

Quando Vicente Campos chegou em casa, já era quase uma da manhã. Ele arrastava o estojo do violoncelo e ainda vestia a camisa preta que usara na apresentação.

Só quando chegou atrás de mim e viu a palavra "Viena" na tela, seus passos pararam de repente.

— Você foi a Viena hoje?

— Fui. — Eu mantive os dedos no mouse do notebook e apaguei uma anotação duplicada na transcrição de uma gravação. — Recebi uma pauta de última hora para entrevistar um maestro brasileiro.

— Que horas você chegou lá?

— À tarde.

Vicente ficou em silêncio por dois segundos:

— Por que você não foi me procurar?

— Eu estava ocupada com o trabalho. Assim que a entrevista acabou, eu voltei.

Eu não levantei a cabeça. Pelo canto dos olhos, vi os ombros dele relaxarem visivelmente.

Era como se ele finalmente tivesse certeza de que eu não havia entrado naquele teatro, nem visto tudo o que aconteceu depois que o público foi embora.

Ele colocou o estojo do violoncelo encostado na parede e massageou o punho.

— Hoje eu toquei por tempo demais, e minha mão começou a ter espasmos de novo. — Ele se sentou ao meu lado com naturalidade e estendeu a mão direita para mim. — Massageie minha mão e depois prepare um banho de ervas para aliviar o cansaço.

Nos últimos oito anos, aquilo quase havia se tornado um hábito entre nós, algo que dispensava qualquer explicação.

Na época em que as lesões de Vicente estavam no pior estágio, a mão direita dele mal conseguia segurar um copo d'água.

Para aprender a massageá-lo, eu procurei uma fisioterapeuta e anotei em um caderno a posição de cada músculo.

Qual músculo pressionar quando determinado dedo ficava rígido.

Qual medicamento administrar quando a dor se intensificava.

Bastava ele fechar os olhos, e eu já sabia do que ele precisaria no segundo seguinte.

Mas, naquela noite, eu apenas olhei para a mão dele.

As pontas dos dedos estavam avermelhadas, com marcas recentes do atrito.

Era o tipo de marca deixada por horas demais tocando sem parar.

Três horas.

Para fazer Natália Barros dormir, ele havia tocado, repetidas vezes, a música que compusera para mim em um teatro vazio.

Era por isso que ele estava cansado.

Era por isso que a mão dele doía.

E era por isso também que, depois de voltar para casa, ele queria que eu aliviasse aquela dor.

Eu fechei o notebook:

— Peça para a sua equipe de apoio cuidar disso.

A mão de Vicente ficou suspensa no ar:

— O quê?

— Você tem um fisioterapeuta à sua disposição. — Eu guardei o notebook na bolsa e continuei. — Depois das apresentações, peça para ele massagear você.

Ele me encarou, e a testa dele foi se franzindo aos poucos:

— Bianca, você ainda está irritada porque eu não fiquei aqueles dez minutos com você esta semana?

Eu não respondi.

Ele recolheu a mão, e a voz dele ganhou um pouco de cansaço:

— Você viu como a minha agenda está ultimamente. Eu não deixei de ficar com você de propósito.

— Eu sei.

— Então fica para a semana que vem. — Ele parecia estar tentando resolver uma discussão sem importância. Depois de pensar por um instante, ofereceu o que considerava uma compensação generosa. — Na semana que vem, eu aumento o tempo para vinte minutos. Está bom assim?

Vinte minutos.

O dobro dos dez minutos combinados.

Eu deveria ficar feliz?

Se fosse antes, eu teria ficado.

Eu teria deixado a noite inteira livre com antecedência, cancelado todo o meu trabalho, escolhido um restaurante com cuidado e confirmado várias vezes se ele não teria uma apresentação de última hora.

Mesmo que, no fim, só me restassem vinte minutos que fossem realmente meus, eu ainda me consolaria dizendo a mim mesma que ele tinha feito o possível.

Mas, na noite anterior, ele se sentou em um teatro vazio e tocou por três horas inteiras para Natália.

Ela dormia na primeira fileira.

Com medo de que o fim da música a despertasse, ele suportou a dor no punho e repetiu aquela melodia sem parar.

Qualquer uma daquelas execuções durava mais de vinte minutos.

Então, o tempo que eu esperava a semana inteira para passar com ele mal bastava para fazer outra mulher adormecer.

Eu baixei os olhos e não respondi.

Vicente esperou alguns segundos.

Talvez ele tenha tomado meu silêncio como aceitação, porque a expressão tensa em seu rosto foi se suavizando:

— Não deixe a água do banho ficar quente demais. Prepare tudo como de costume.

Depois de dizer isso, ele se virou e entrou no banheiro.

O som da água logo começou.

Eu não fui pegar o pacote de ervas.

Também não me agachei ao lado da banheira, como fazia antes, para ajustar a temperatura da água para ele.

Eu abri o notebook outra vez e entrei no sistema interno da empresa.

A carta de confirmação da minha transferência para a América do Norte já estava ali, quieta, havia algumas horas.

O período da transferência seria de três anos.

A partida aconteceria dali a sete dias.

No fim da página, havia um campo em branco esperando pela minha assinatura.

Do banheiro, veio a voz de Vicente:

— Bianca, a água já está pronta?

Eu segurei o mouse e parei por um segundo sobre o botão de confirmação.

Então cliquei.

Uma mensagem surgiu no sistema.

[Solicitação confirmada com sucesso.]

Eu olhei para a tela e, pela primeira vez, não respondi à pergunta dele.

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