LOGINAssim que me vi na intimidade do meu apartamento, tomei um banho longo e morno, vesti um conjunto folgado de moletom e me afundei no confortável sofá em forma de L.
— Você não quer que eu chame um médico para te examinar? — Não será necessário. Sinto-me melhor. Mas se me trouxeres um copo de uísque com bastante gelo, serei grato. — Não acredito que vais beber! Deves tomar um analgésico e descansar. — Esqueces que sou lutador, não é mesmo? Essa surra não é nada comparada a tantas outras que recebi no ringue — e mesmo assim me levantei. Prepara logo o meu uísque. E assim Gabriel fez. Enquanto bebia, aquele rosto angelical surgiu na minha mente. — Estava preocupado contigo, Matteo. Se não tivesses ligado, eu teria chamado a polícia. — Que exagero. — Ágata contou à irmã, que me contou o que aconteceu entre vocês dois. Diz-me: o que está havendo? — Acabei confundindo… imaginei que quem estava nos meus braços era Katy, não Ágata. E bem, podes imaginar o que aconteceu em seguida. — Nunca vais esquecer aquela mulher, Matteo? — Já esqueci. Agora o que sinto é ódio. — E aquela mocinha que te ajudou? Conheces ela? — Na verdade, não. É uma desconhecida completa, e mesmo assim me socorreu. Só lamento que não tenha aceitado o cheque que lhe ofereci como gratidão. — Isso prova que ainda existe gente boa no mundo. — Boa e linda, Gabriel. Aqueles cabelos escuros e sedosos, aqueles olhos que mais pareciam jabuticabas maduras, aqueles lábios com gosto de mel… quando a beijei, senti que jamais conseguiria soltá-la. — Beijaste-a? — E como beijei! Ainda sinto a pele dela macia e perfumada junto à minha. Se não estivesse ferido, teria feito amor intensamente com aquela mulher. — Julguei que não fosse o teu tipo. Sempre gostaste de mulheres como a irmã dela: altas, esguias… Reparaste que ela tem uma dificuldade numa das pernas? — Machucou-se ao tentar me ajudar a entrar. — Sério? Pensei que… deixa para lá. Estendi o copo vazio em sua direção. Ele entendeu o recado e, a contragosto, encheu novamente. — Já reparei que tens bebido demais, Matteo. E não só bebido — fumado também. Espero que não estejas usando aquelas porcarias outra vez. — Se te referes ao narguilé e à maconha, não vou mentir: consumo às vezes, à noite, quando perco o sono ou me sinto para baixo. Gabriel olhou-me decepcionado. Como se fosse o primeiro… mas eu já estava acostumado a decepcionar quem amo. — Acho melhor ires, Gabriel. Voltas depois. Quero descansar. — Vou agora mesmo. E espero que ouças o meu conselho: para com essas coisas de uma vez, esquece Katy e refaz a tua vida. Aliás, quando estiveres melhor, procura Ágata. Ela merece um pedido de desculpas. Quando fiquei sozinho, deixei a mente vagar pelo passado. — Matteo, querido, tenho uma novidade para te contar. — Diz, meu amor. — Estou grávida. Beijei sua barriga ainda lisa inúmeras vezes, abracei-a com toda a alegria do mundo e sussurrei o quanto a amava. Tolo. Tolo demais. Era nisso que Katy havia me transformado. Ali estava eu, radiante, achando que ganharia um filho… quando na verdade, o que vinha era um irmão. Enchi o copo de novo e bebi de um gole só. O gosto amargo arranhou minha garganta. Repeti até que a garrafa estava vazia. Cambaleante, fui até o quarto e caí sobre os lençóis. Mais tarde, minha mãe e minha irmã vieram me visitar. Ficaram chocadas com o que viram. — Filho, o que foi? Estás horrível. — Foste atropelado por um caminhão, maninho? — Quase isso, Eve. Mas não te preocupes, estou bem. — Devia estar acostumada a te ver sempre cheio de hematomas — observou minha mãe. — E falando nisso: quando é a próxima luta? — No próximo fim de semana, mana. — Não sei por que insistes nesta profissão tão violenta, filho. Poderias assumir os negócios da família. — Não me interesso pela fábrica, mãe. Sou feliz fazendo o que faço. — Que tal um café? — perguntou Eve, esperta, vendo a discussão se formar. — Seria ótimo. Onde está o pó, Matteo? — Não tem, mãe. Faz tempo que não tomo café. — Mas o que comes no desjejum? Levantei a garrafa vazia. Minha mãe me fuzilou com o olhar. — Tu não tens jeito, Matteo. Abriu a geladeira e quase caiu para trás. — Não há nada aqui além de água e bebida! O que tens comido, filho? — Não sinto muita fome. Às vezes peço uma pizza ou um lanche. — Isso não pode continuar! Não permitirei que um Montana morra de fome. Vem, Eve, vamos ao supermercado. — Não precisa, mãe… Foi o mesmo que falar com as paredes. Já as vi arrastando-se para fora, decididas.Aquelas palavras ecoaram pelo quarto como um tiro no meu peito. Por um instante, não consegui reagir. O ar pareceu desaparecer, e minhas pernas fraquejaram sob o peso de uma verdade que eu não estava preparada para ouvir. Ainda há poucos minutos, eu acreditava que estávamos começando a construir uma vida juntos. Agora, cada uma das minhas certezas desmoronava diante dele.— Como é? murmurei, chocada, incapaz de assimilar a crueldade da afirmação.Matteo não desviou os olhos. A expressão, antes marcada por uma ternura que eu julgara sincera, endureceu até se tornar quase irreconhecível. Ele parecia decidido a me fazer entender, mas não a se preocupar com o modo como aquelas palavras me atingiam.— Eu não quero filhos, Lolita. Fui bem claro?Levei alguns segundos para responder. A garganta se fechou, e precisei engolir em seco antes de tentar falar. Eu sabia que aquele assunto era importante. Sabia que deveríamos conversar sobre ele com calma, como duas pessoas que planejavam dividir a
Deitada ao lado de Matteo, apoiei o rosto em seu peito nu, firme e marcado pelo perfume que eu tanto amava. Era uma sensação acolhedora e inexplicável estar ali, envolvida por seus braços, sentindo o pulsar constante de seu coração. O início do nosso casamento não fora nada parecido com o que eu desenhara em meus sonhos de infância. Tantas tempestades haviam desabado sobre nós em tão pouco tempo, tantas feridas do passado dele haviam vindo à tona... Mas, quando estávamos assim, no silêncio do nosso quarto, todas as sombras pareciam evaporar.Nesses momentos, a minha razão fugia completamente de mim. Eu me entregava a uma onda de afeto tão avassaladora que, às vezes, sentia um medo genuíno desse sentimento. Era um amor profundo, visceral, que me mantinha cativa e vulnerável a qualquer gesto ou palavra dele.— Te amo muito, Matteo… sussurrei com a voz embargada de carinho, rompendo a quietude do quarto.Matteo, que até então parecia distraído encarando o teto com o olhar perdido em p
Terminado o banho, percebi que Matteo precisava de um momento de isolamento para se recompor. Sequei minhas mãos, dei-lhe um beijo terno na testa e saí do banheiro, fechando a porta para lhe dar toda a privacidade necessária para se secar e se vestir com calma.Caminhei até a cozinha, disposta a cuidar da saúde fragilizada do meu marido. Preparei uma sopa leve e nutritiva, com legumes frescos e um caldo suave, ideal para um estômago agredido pelo excesso de álcool. Acomodei a tigela fumegante em uma bandeja charmosa, acrescentei um copo de água fresca e rumei de volta para o quarto.Ao cruzar a porta, encontrei Matteo em pé ao lado da cama. Ele terminava de secar os cabelos escuros com uma toalha felpuda. Meu olhar maroto, no entanto, desviou-se inevitavelmente para a calça de moletom cinza que ele vestira. Ela estava caída perigosamente baixa em sua cintura, revelando a linha marcada do seu quadril e a entrada do seu abdômen definido. Sentindo minhas bochechas esquentarem novamente
Matteo dormiu ininterruptamente durante todo o dia. O sol cruzou o céu, a tarde caiu e a noite voltou a tomar conta da cidade enquanto eu permanecia ao seu lado, trocando compressas frias sobre sua testa e velando seu sono agitado. Já estava desesperada, cogitando seriamente a ideia de chamar um médico para examiná-lo, quando ele finalmente deu sinais de despertar. Entretanto, sua primeira reação ao abrir os olhos não foi falar comigo. Tomado por uma náusea súbita e violenta, Matteo saltou da cama cambaleando, correu em direção ao banheiro e ajoelhou-se diante do vaso sanitário. Durante quase meia hora, o som angustiante de seus espasmos e vômitos ecoou pelo cômodo.Aproximei-me devagar, parando na batente da porta e observando a cena com o coração apertado.— Matteo... Você está bem? perguntei, a voz doce repleta de cuidado.Não obtive nenhuma resposta verbal, apenas o som arfante de sua respiração descontrolada. Tomei coragem e entrei no ambiente. Matteo estava sentado diretamente
De todas as imagens que desenhei em minha mente para o dia do meu casamento, a última coisa que eu imaginaria era terminar a noite completamente abandonada, sozinha em um apartamento frio. A dor de ver o carro de Matteo acelerar pela avenida, deixando-me para trás na calçada sob a luz pálida dos postes, cortava minha alma como uma lâmina afiada. Com as mãos trêmulas e o peito oprimido por um choro sufocado, caminhei até o banho. Enchi a banheira de hidromassagem, misturando sais perfumados e algumas gotas de óleo de oliva, buscando desesperadamente um alento para o frio que se instalara em meus ossos.Removi o vestido tom creme aquela peça delicada que fora escolhida com tanto carinho para celebrar a união com o homem que eu amava e deixei que o tecido deslizasse até o chão como um símbolo de todas as minhas expectativas frustradas. Ao me afundar na água morna, fechei os olhos e deixei que as lágrimas salgadas finalmente rolassem sem freio pela minha face.Hoje era para ser o dia
Ela soltou um soluço doloroso e cobriu o rosto com as mãos, desabando em choro. Mas a minha empatia havia sido completamente exterminada. A mulher que deveria ter me protegido, a mulher por quem eu lutei durante anos para manter a dignidade, havia acabado de se curvar diante do homem que destruíra as nossas vidas. Ela simplesmente não se importara com os meus sentimentos, nem com a minha honra, nem com o meu casamento.— Matteo, por favor… Ouça a sua mãe — pediu Lolita, dando um passo à frente com a voz doce e assustada, tentando intervir naquele cenário catastrófico. — Ela está sofrendo…— Venha, Lolita! Vamos embora daqui agora mesmo! — ordenei, sem olhar diretamente para ela, focado apenas em sair daquela casa amaldiçoada.— Senhora Florência, eu… — Lolita tentou se despedir, buscando manter a educação e o afeto que sempre demonstrara.— Não gaste suas palavras com essa senhora! — cortei-a severamente, a voz ecoando pelas paredes do salão.— Ela é a sua mãe, Matteo! — argument







