MasukAugust Ward
Observo seu corpo fraco sobre aquela cama de hospital, ainda sem conseguir acreditar que o homem que, durante anos, controlou nossa família como se todos fôssemos meros soldados, agora está doente.
Os olhos cinzentos do meu avô se voltam para mim depois que ele exige que todos saiam do quarto.
Aproximo-me da cama, mantendo as mãos nos bolsos da calça e sem desviar a atenção dele.
— É o meu prodígio.
Não sei se há orgulho em sua voz ou apenas a necessidade de ter certeza de que seu legado continuará em boas mãos.
— Quero que continue no comando, August.
O homem está nas últimas, mas falar de dinheiro, poder e negócios parece ser justamente o que o mantém vivo. Não fico surpreso com a sua atitude, sou o CEO da Ward Group, e não é à toa que me passou o comando da empresa.
— Vou continuar com o trabalho...
— E vai cumprir as minhas condições.
Franzo a testa.
— Como assim?
Ele respira fundo, como se até falar estivesse exigindo mais esforço do que deveria. Um detalhe que não o impediria.
— Um casamento.
Duas palavras são suficientes para fazer meu corpo inteiro paralisar.
— Seja inteligente. Conquiste-os antes que a caça seja você. — continua a dizer.
Um casamento por contrato não é exatamente uma novidade para famílias ricas como a minha. Poder, alianças e sobrenomes sempre estiveram ligados. Um casamento pode fortalecer negócios, aproximar famílias e, principalmente, manter aquilo que todos nós levamos décadas para construir.
Não pode ser qualquer pessoa, é sempre bem calculado.
— É o que esperam de mim.
Ser previsível, porém, é oferecer munição ao inimigo.
— Então faça com que não seja, August — esbraveja.
Ele interrompe a frase para respirar mais fundo. Mesmo debilitado, ainda existe a mesma autoridade naquele olhar e em sua voz. Não vai deixar que o lugar em que está agora o abale.
— Eu criei você para ser o meu sucessor. Está na hora de honrar esse compromisso.
Não tenho sequer a oportunidade de responder. A enfermeira entra no quarto e pede que eu saia. Meu avô precisa descansar, mas, até mesmo doente, continua encontrando uma maneira de manter tudo sob seu controle.
Ergo a cabeça, cumprimento rapidamente as pessoas no corredor e deixo o hospital.
Não vou para o trabalho.
Muito menos para a mansão da família.
Vou direto ao escritório do advogado do meu avô, que não demonstra surpresa ao me ver entrando sem avisar.
— August, é uma honra...
— Condições. — Vou direto ao assunto. — O que aquele velho quer de mim?
Ele não se abala com a forma como falo. Ninguém gosta do senhor Ward o suficiente para se surpreender com a minha irritação. Vai se é uma raridade encontrar alguém que se importa com ele e não com o seu dinheiro.
O advogado volta a se sentar atrás da mesa.
— Um casamento. Você continua no controle da empresa e, posteriormente, terá que garantir um herdeiro.
— Não vai acontecer.
— August...
— E se ele morrer antes de conseguir isso?
— Você terá que cumprir do mesmo modo.
Ele estende sobre a mesa um documento assinado pelo homem que me criou. Pego os papéis. Meu avô tinha tudo planejado desde o início. No fim, ele também não confia em mim.
Não aceitam que eu tenha conquistado, em poucos anos, coisas que eles levaram décadas para construir. Agora querem um casamento para validar aquilo que já conquistei sozinho.
Uma família...
Justamente o exemplo de família que eu nunca tive.
O advogado empurra outra pasta em minha direção. Abro. Leio algumas informações e não consigo evitar uma risada sem humor.
— Não está certo.
— August...
— Ele quer que eu me case com uma falida — jogo a pasta sobre a mesa. — Impossível.
Segundo os documentos, aquela família já teve muito dinheiro. Provavelmente na época em que meu avô conheceu o homem com quem fez esse acordo. Mas as informações atualizadas contam uma história completamente diferente.
A fortuna desapareceu com o passar dos anos. Má administração, dívidas e decisões ruins fizeram com que perdessem praticamente tudo. Agora são fazendeiros do interior tentando manter o pouco que restou.
Que patético! Nós não somos uma instituição de caridade. No mínimo, aquilo só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Estou perdendo meu tempo com uma grande estupidez.
— Meu avô viu como eles estão agora?
O advogado suspira antes de assentir.
— Sim, August. Seu avô sabe de tudo e ainda quer manter a negociação.
Afasto-me da mesa, passando uma das mãos pelo cabelo.
— É difícil acreditar que um homem como ele esteja disposto a sujar o nome da nossa família. — Uma risada amarga escapa da minha garganta. — Vão fazer brincadeiras com os nossos nomes. É um prato cheio para a mídia.
Esse tal “velho amigo” deve saber alguma coisa sobre o meu avô. Algum segredo. Algum podre que o obrigou a aceitar esse acordo. É a única explicação plausível.
O problema é que agora eu também tenho que carregar esse fardo? Não. Esse problema não é meu.
Não chego sequer a olhar as informações da mulher. O estado em que a família se encontra já é suficiente para saber que não posso me submeter a isso. É uma vergonha!
— Temos a família Johnson, os Lancaster e... — ando pela sala ampla do escritório em busca de soluções.
— Não é algo discutível, August. — Paro diante da porta. — Mas, caso esteja disposto a aceitar, terá que conversar com o seu avô.
A raiva percorre meu corpo. Fecho a mão com força e acerto um soco no ar, incapaz de conter a frustração. Ele não podia fazer isso comigo. Não sou como Michael e os outros, suas marionetes e obsessores.
Passei os últimos anos seguindo cada uma de suas exigências. Não errei uma única vez. Fiz tudo o que esperavam de mim e conquistei o controle da empresa. Quando finalmente pensei que estava livre das garras daquele homem, ele aparece com mais uma surpresa para provar que eu estava completamente enganado.
— Quanto tempo tenho? — pergunto, sem me dar ao trabalho de olhar para ele.
— Um mês para oficializar tudo.
O velho quer uma garantia. Quer assistir a tudo enquanto ainda está vivo.
Só existe uma coisa que importa agora: não perder a autoridade sobre a empresa e, principalmente, não deixar que Michael coloque as mãos naquilo que deveria ser meu.
A família Ward continuará no poder.
E esse casamento será apenas um detalhe.
Ignoro as ligações que começam a chegar da Ward Group. Minha mãe, Male, tenta falar comigo diversas vezes, mas não atendo nenhuma chamada.
No dia seguinte, pego a estrada. Preciso chegar logo para resolver as pendências com a família Willis. Não vou perder mais tempo questionando as decisões do meu avô.
Dessa vez, decido dirigir sozinho. Talvez algumas horas ao volante sejam suficientes para colocar a cabeça no lugar. Um dos carros com meus seguranças segue logo atrás.
Quando chego à cidade, já é tarde.
Paro para pedir informações e descubro que ainda preciso enfrentar mais meia hora de estrada. Entro em uma rua péssima para dirigir, ainda estando na cidade e não na parte rural. Meu carro chama atenção, cidade pequena, todo mundo deve se conhecer.
O carro balança a cada buraco, fazendo minhas mãos apertarem o volante.
— Ótimo...
O lugar parece cada vez mais distante de qualquer coisa que eu conheça. Em um buraco que passa, meu celular acaba caindo do suporte. Não ameaço pegar, quero alguma estabilidade nessa rua para conseguir pegar o aparelho.
Então, sem aviso, uma pessoa atravessa a rua às pressas.
— Merda!
Piso no freio com toda a força. O carro derrapa. Por uma fração de segundo, vejo apenas uma mulher diante do meu capô.
Não existe tempo suficiente.
Meu carro a atinge.
O impacto faz meu corpo ser lançado contra o cinto de segurança. E, no segundo seguinte, ouço uma batida ainda mais forte. O carro dos meus seguranças atinge a traseira do meu.
Fico imóvel por alguns segundos.
O coração dispara como se a qualquer momento fosse sair do meu peito. Então olho para frente, apertando com mais força o volante. A mulher está caída no asfalto.
E, pela primeira vez em muito tempo, não faço ideia do que fazer.
August WardO quarto continua fedendo a mofo. A cama é estreita demais, o colchão afunda no meio e a janela emperrada deixa entrar um barulho de grilos que parece zombar de mim. Odeio esse lugar. Odeio a cidade. Odeio o fato de ainda estar aqui.Estou sentado à mesa precária com o tablet ligado. Não estou mais querendo correr o risco de ter mais surpresas pelo caminho, confesso que ignorei estudar aonde eu estava entrando, acreditando que conseguiria reverter esse casamento. Infelizmente são mais ambiciosos do que pensei que seria um. Por que uma quantidade de dinheiro agora, se eles podem garantir por um bom tempo a proteção da minha família vinculada à deles? Vejo os arquivos sobre a família Willis abertos um ao lado do outro. Nomes, idades, histórico financeiro, fotos antigas. Eu deveria ter feito isso no primeiro dia. Fui negligente e a negligência tem preço.Começo pelo patriarca: doente, hospitalizado, teimoso como uma mula. Depois o filho, Kleber: fraco, bajulador, desespe
Elisa WillisO corpo dói de um jeito que nem o remédio consegue fazer seu devido efeito. Estou deitada de lado, olhando a parede descascada do meu quarto, quando a porta se abre. Eu só queria um tempo sozinha, mas estou em casa e é um sinal claro de que não vai acontecer.— Ainda deitada? — A voz de Kelly corta o silêncio. — Impressionante. Você consegue dar trabalho até quando está machucada.Respiro fundo, contando até três.— Bom dia para você também, Kelly.— Bom dia? — ela ri sem humor nenhum. — A gente mal tem dinheiro para comer direito e você ainda arruma jeito de ir para o hospital. Sabe quanto custa uma consulta, Elisa? Ou você acha que o mundo gira em torno das suas dores?Sento na cama com dificuldade. O curativo na testa puxa a pele, ainda bem que não foi sério. Não sou fã de hospital e saí antes que minha mãe desse conta de que eu estive lá, e não foi para ver o pai.— Eu fui atropelada.— E quem te mandou atravessar a rua que nem uma distraída? Agora a gente tem mais um
August WardO hotel é pequeno, antigo e cheira a mofo, nada comparado ao que estou acostumado. Ok, eu não esperava luxo, mas algo… decente. O quarto tem uma cama estreita de solteiro, uma televisão que não liga e uma janela que dá para uma rua quieta demais. A minha única alternativa seria dirigir de volta até a capital depois de um dia como esse, e eu não estava disposto.Durmo mal. Acordo pior e antes do sol nascer. O meu corpo dolorido e tenso do acidente, e a mente não para um segundo sequer. Fico deitado olhando o teto rachado até o celular vibrar.É o advogado.— August — a voz dele soa firme, quase impaciente. — Seu avô perguntou se o acordo já foi oficializado.Sento na beira da cama.— Ainda não.— Você tem menos de um mês — percebo o seu tom apreensivo. — Ele não está bem e cada dia conta.— Eu sei.— Então resolva e, de preferência, hoje. — suspira. — O senhor Willis está no hospital da cidade. Fale com ele diretamente. Não espere mais!Desligo sem responder. Odeio receber
August WardO médico me acompanha pelo corredor. Abre a porta e nos deixa sozinhos. A senhorita insuportável está sentada na cama. Um curativo cobre parte da sua testa. Saber que está respirando é o suficiente, não quero uma morte em minhas mãos.Ela ergue os olhos quando me vê.— Você de novo.— Também não estou feliz de te ver.Revira os olhos.— Pegou as minhas coisas? Ou vou ter que eu presto queixa? — ameaça.Eu estreito os olhos.— Só pretende prestar queixa se não tiver pego as suas coisas?— Sim. Graças a Deus, eu estou bem. Então me dê as minhas coisas e pode ir embora.Sento na cadeira no canto do quarto.— Bom, não está comigo.— Como assim, não?Ela olha para o celular do lado da cama, com certeza tentada a ligar para a polícia.— Mandei entregar na sua casa.— O quê?! Quem te contou onde eu moro? Ah, esquece! Essas pessoas são umas fofoqueiras.Ignoro o escândalo que ela está fazendo.— Será que agora eu posso saber o seu nome?Afrontosa, ela empina o queixo no ar.— Kell
August WardPor alguns segundos, não consigo me mover. A minha respiração é tão leve que é provável que eu não esteja respirando. Eu não tirei os olhos da estrada e, em um momento qualquer, ela surgiu. Apenas observo a mulher caída no meio da rua, enquanto o som do motor ainda ligado se mistura ao barulho da batida atrás de mim.— Senhor August! — A voz de um dos meus seguranças me faz reagir.Destravo o cinto e abro a porta do carro com pressa. O outro veículo para logo atrás, e os dois homens correm na direção da mulher. Eu me apresso para intervir, não sabemos o estado em que se encontra e pode piorar mais a situação.— Não mexam nela. — Ajoelho-me ao lado dela. — Senhora, consegue me ouvir?Nenhuma resposta vem dela. Sinto o sangue gelar. Não posso ter matado alguém.— Ligue para uma ambulância. Agora!— Já estou ligando, senhor.Aproximo a mão do rosto dela, sem saber exatamente o que estou procurando. Ela respira. Um alívio imediato percorre meu peito.É um bom sinal, penso.— E
August WardObservo seu corpo fraco sobre aquela cama de hospital, ainda sem conseguir acreditar que o homem que, durante anos, controlou nossa família como se todos fôssemos meros soldados, agora está doente.Os olhos cinzentos do meu avô se voltam para mim depois que ele exige que todos saiam do quarto.Aproximo-me da cama, mantendo as mãos nos bolsos da calça e sem desviar a atenção dele.— É o meu prodígio.Não sei se há orgulho em sua voz ou apenas a necessidade de ter certeza de que seu legado continuará em boas mãos.— Quero que continue no comando, August.O homem está nas últimas, mas falar de dinheiro, poder e negócios parece ser justamente o que o mantém vivo. Não fico surpreso com a sua atitude, sou o CEO da Ward Group, e não é à toa que me passou o comando da empresa.— Vou continuar com o trabalho...— E vai cumprir as minhas condições.Franzo a testa.— Como assim?Ele respira fundo, como se até falar estivesse exigindo mais esforço do que deveria. Um detalhe que não o







