LOGINAugust Ward
O médico me acompanha pelo corredor. Abre a porta e nos deixa sozinhos. A senhorita insuportável está sentada na cama. Um curativo cobre parte da sua testa. Saber que está respirando é o suficiente, não quero uma morte em minhas mãos.
Ela ergue os olhos quando me vê.
— Você de novo.
— Também não estou feliz de te ver.
Revira os olhos.
— Pegou as minhas coisas? Ou vou ter que eu presto queixa? — ameaça.
Eu estreito os olhos.
— Só pretende prestar queixa se não tiver pego as suas coisas?
— Sim. Graças a Deus, eu estou bem. Então me dê as minhas coisas e pode ir embora.
Sento na cadeira no canto do quarto.
— Bom, não está comigo.
— Como assim, não?
Ela olha para o celular do lado da cama, com certeza tentada a ligar para a polícia.
— Mandei entregar na sua casa.
— O quê?! Quem te contou onde eu moro? Ah, esquece! Essas pessoas são umas fofoqueiras.
Ignoro o escândalo que ela está fazendo.
— Será que agora eu posso saber o seu nome?
Afrontosa, ela empina o queixo no ar.
— Kelly Willis.
O sobrenome me deixa em alerta. Foi negligente da minha parte não querer saber mais sobre essa família, sabia sobre a falência, foi o suficiente, e agora pode ser que eu esteja na frente de um dos integrantes.
— Por acaso a sua família é a dona de uma das fazendas da cidade?
Kelly me olha desconfiada.
— Sim, por quê?
— Nada. — me levanto. — Quer que eu ligue para alguém?
— Não. — deita na cama. — Já entrei em contato. Você pode ir.
— Mal educada — murmuro.
Eu saí do quarto, decidido a ir até a fazenda. Tenho que falar diretamente com o senhor Willis. Pela aparência jovem, essa pode ser uma prima ou até mesmo a nora.
A mulher está viva. As coisas dela foram entregues na casa dela agora eu vou seguir com o meu compromisso e, com sorte, vou embora sem ver o rosto dela de novo.
Saio do hospital sem olhar para trás. O carro dos seguranças já está esperando, entro no banco do passageiro desta vez. A última coisa que quero agora é dirigir. Quero apenas acabar com isso o mais rápido possível.
— Me leva até a fazenda Willis.
O motorista confirma com um aceno e acelera. A estrada continua ruim, maldito lugar. Cada buraco me lembra o quanto estou longe de tudo que conheço. Depois de quase meia hora, avisto o portão enferrujado. O nome “Willis” ainda está gravado em uma placa de madeira desgastada pelo tempo.
A propriedade é grande, mas sem segurança suficiente para proteger. Terras extensas, cercas antigas, um celeiro que já deve ter sido de bom uso.
Dá para imaginar que, algum dia, aquilo gerou lucro de verdade. Que as terras produziram. Que a casa principal foi o centro de alguma prosperidade.
Hoje, porém, o que vejo é abandono disfarçado de resistência. A grama está alta demais em alguns pontos e a pintura da casa descascou. Um trator parado há tempo demais, coberto de ferrugem. Nada ali parece valer de alguma coisa.
Patético. O que meu avô pretende com isso? Fazer com que perca meu tempo?
O carro para em frente à casa. Desço. Um homem sai pela porta da frente antes mesmo que eu chegue aos degraus.
Mais novo que eu, cabelo curto, rosto cansado. Usa uma camisa simples e botas sujas de terra. Ao me ver, ele engole em seco e arruma a postura imediatamente.
Finalmente alguém que saiba quem eu sou.
— Boa tarde… senhor. — a voz falha. — O senhor é…?
— August Ward. — murmuro em bom som.
Os olhos dele se abrem um pouco demais. Ele limpa as mãos na calça antes de estender uma.
— Kleber Willis. É uma honra, senhor Ward. Uma verdadeira honra. — ele começa a falar rápido demais. — Não esperávamos… quer dizer, não sabíamos que o senhor viria pessoalmente.
Aperto a mão dele sem entusiasmo, somente por educação, e o toque é rápido. O que chama a minha atenção é o aperto ser muito firme da parte dele, como se ele quisesse provar algo.
— Vim resolver a pendência com a sua família. — digo contra gosto. — Onde está o seu pai?
Kleber passa a mão pelo cabelo, nervoso. Olha para o lado, depois para mim de novo.
— Meu pai… ele está no hospital, senhor. A saúde dele não anda boa, faz um tempo. Minha mãe fica com ele quase o tempo todo. Eu… eu estou cuidando das coisas por aqui. — dá um passo para o lado. — Mas o senhor que…
A cada palavra que sai da sua boca, é com muita rapidez. Como se tivesse medo de que eu interpretasse a ausência do pai como falta de respeito.
— Entendo.
— Mas posso ajudá-lo, senhor Ward. Qualquer coisa que precisar. A fazenda ainda tem potencial. Sei que as aparências… — ele olha ao redor, constrangido — não estão das melhores, mas estamos trabalhando. E se o senhor veio por causa do acordo… estamos abertos a conversar. Totalmente abertos! É uma oportunidade, sabe? Para as duas famílias.
Puxar o saco, seguro a vontade de revirar os olhos. Exatamente o que eu esperava de alguém na posição dele. A voz dele carrega uma mistura de nervosismo e esperança desesperada, não consegue nem esconder o quão ferrado está.
Como se eu fosse o salvador da pátria, e garanto que não é o caso.
— O acordo foi feito entre o meu avô e o seu. Eu só estou aqui para cumprir o que foi exigido.
— Claro, claro. E nós respeitamos isso. A família Willis sempre teve… consideração pelos Ward. Mesmo depois de… de tudo. — engole em seco. — Se o senhor quiser ver os documentos, as terras, o que restou… posso mostrar agora. Ou amanhã. Ou quando for melhor para o senhor.
Ele continua falando e falando. Não vim aqui para ouvir bajulação, vim para fechar um problema e ir embora. E é quando ele sugere eu entrar que aproveito a oportunidade para ir embora.
— Está tarde — interrompo.
Kleber para no meio da frase.
— Senhor?
— Seu pai está doente. Não faz sentido tratar de assuntos importantes sem a presença dele, seria melhor deixar isso para outra ocasião. — Por mim, seria nunca.
Tenta esconder o misto de alívio e de decepção. Talvez as coisas não tenham saído como ele planejava.
— Sim… claro. Faz sentido. Podemos remarcar, quando o senhor preferir. Eu… eu aviso minha mãe. E assim que meu pai melhorar…
— Você será contatado.
Não dou espaço para mais conversa. Viro as costas e caminho de volta ao carro. Kleber ainda fala alguma coisa atrás de mim, um “foi uma honra”, mas eu não respondo.
Entro no carro e fecho a porta com mais força do que o necessário.
— Volte para a cidade — ordeno ao motorista.
Enquanto o carro se afasta da fazenda, olho pela janela uma última vez. As terras que um dia devem ter valido alguma coisa agora parecem apenas um peso. E eu, por obrigação, terei que me amarrar a elas.
Pelo menos, por enquanto, adiei o inevitável.
August WardO quarto continua fedendo a mofo. A cama é estreita demais, o colchão afunda no meio e a janela emperrada deixa entrar um barulho de grilos que parece zombar de mim. Odeio esse lugar. Odeio a cidade. Odeio o fato de ainda estar aqui.Estou sentado à mesa precária com o tablet ligado. Não estou mais querendo correr o risco de ter mais surpresas pelo caminho, confesso que ignorei estudar aonde eu estava entrando, acreditando que conseguiria reverter esse casamento. Infelizmente são mais ambiciosos do que pensei que seria um. Por que uma quantidade de dinheiro agora, se eles podem garantir por um bom tempo a proteção da minha família vinculada à deles? Vejo os arquivos sobre a família Willis abertos um ao lado do outro. Nomes, idades, histórico financeiro, fotos antigas. Eu deveria ter feito isso no primeiro dia. Fui negligente e a negligência tem preço.Começo pelo patriarca: doente, hospitalizado, teimoso como uma mula. Depois o filho, Kleber: fraco, bajulador, desespe
Elisa WillisO corpo dói de um jeito que nem o remédio consegue fazer seu devido efeito. Estou deitada de lado, olhando a parede descascada do meu quarto, quando a porta se abre. Eu só queria um tempo sozinha, mas estou em casa e é um sinal claro de que não vai acontecer.— Ainda deitada? — A voz de Kelly corta o silêncio. — Impressionante. Você consegue dar trabalho até quando está machucada.Respiro fundo, contando até três.— Bom dia para você também, Kelly.— Bom dia? — ela ri sem humor nenhum. — A gente mal tem dinheiro para comer direito e você ainda arruma jeito de ir para o hospital. Sabe quanto custa uma consulta, Elisa? Ou você acha que o mundo gira em torno das suas dores?Sento na cama com dificuldade. O curativo na testa puxa a pele, ainda bem que não foi sério. Não sou fã de hospital e saí antes que minha mãe desse conta de que eu estive lá, e não foi para ver o pai.— Eu fui atropelada.— E quem te mandou atravessar a rua que nem uma distraída? Agora a gente tem mais um
August WardO hotel é pequeno, antigo e cheira a mofo, nada comparado ao que estou acostumado. Ok, eu não esperava luxo, mas algo… decente. O quarto tem uma cama estreita de solteiro, uma televisão que não liga e uma janela que dá para uma rua quieta demais. A minha única alternativa seria dirigir de volta até a capital depois de um dia como esse, e eu não estava disposto.Durmo mal. Acordo pior e antes do sol nascer. O meu corpo dolorido e tenso do acidente, e a mente não para um segundo sequer. Fico deitado olhando o teto rachado até o celular vibrar.É o advogado.— August — a voz dele soa firme, quase impaciente. — Seu avô perguntou se o acordo já foi oficializado.Sento na beira da cama.— Ainda não.— Você tem menos de um mês — percebo o seu tom apreensivo. — Ele não está bem e cada dia conta.— Eu sei.— Então resolva e, de preferência, hoje. — suspira. — O senhor Willis está no hospital da cidade. Fale com ele diretamente. Não espere mais!Desligo sem responder. Odeio receber
August WardO médico me acompanha pelo corredor. Abre a porta e nos deixa sozinhos. A senhorita insuportável está sentada na cama. Um curativo cobre parte da sua testa. Saber que está respirando é o suficiente, não quero uma morte em minhas mãos.Ela ergue os olhos quando me vê.— Você de novo.— Também não estou feliz de te ver.Revira os olhos.— Pegou as minhas coisas? Ou vou ter que eu presto queixa? — ameaça.Eu estreito os olhos.— Só pretende prestar queixa se não tiver pego as suas coisas?— Sim. Graças a Deus, eu estou bem. Então me dê as minhas coisas e pode ir embora.Sento na cadeira no canto do quarto.— Bom, não está comigo.— Como assim, não?Ela olha para o celular do lado da cama, com certeza tentada a ligar para a polícia.— Mandei entregar na sua casa.— O quê?! Quem te contou onde eu moro? Ah, esquece! Essas pessoas são umas fofoqueiras.Ignoro o escândalo que ela está fazendo.— Será que agora eu posso saber o seu nome?Afrontosa, ela empina o queixo no ar.— Kell
August WardPor alguns segundos, não consigo me mover. A minha respiração é tão leve que é provável que eu não esteja respirando. Eu não tirei os olhos da estrada e, em um momento qualquer, ela surgiu. Apenas observo a mulher caída no meio da rua, enquanto o som do motor ainda ligado se mistura ao barulho da batida atrás de mim.— Senhor August! — A voz de um dos meus seguranças me faz reagir.Destravo o cinto e abro a porta do carro com pressa. O outro veículo para logo atrás, e os dois homens correm na direção da mulher. Eu me apresso para intervir, não sabemos o estado em que se encontra e pode piorar mais a situação.— Não mexam nela. — Ajoelho-me ao lado dela. — Senhora, consegue me ouvir?Nenhuma resposta vem dela. Sinto o sangue gelar. Não posso ter matado alguém.— Ligue para uma ambulância. Agora!— Já estou ligando, senhor.Aproximo a mão do rosto dela, sem saber exatamente o que estou procurando. Ela respira. Um alívio imediato percorre meu peito.É um bom sinal, penso.— E
August WardObservo seu corpo fraco sobre aquela cama de hospital, ainda sem conseguir acreditar que o homem que, durante anos, controlou nossa família como se todos fôssemos meros soldados, agora está doente.Os olhos cinzentos do meu avô se voltam para mim depois que ele exige que todos saiam do quarto.Aproximo-me da cama, mantendo as mãos nos bolsos da calça e sem desviar a atenção dele.— É o meu prodígio.Não sei se há orgulho em sua voz ou apenas a necessidade de ter certeza de que seu legado continuará em boas mãos.— Quero que continue no comando, August.O homem está nas últimas, mas falar de dinheiro, poder e negócios parece ser justamente o que o mantém vivo. Não fico surpreso com a sua atitude, sou o CEO da Ward Group, e não é à toa que me passou o comando da empresa.— Vou continuar com o trabalho...— E vai cumprir as minhas condições.Franzo a testa.— Como assim?Ele respira fundo, como se até falar estivesse exigindo mais esforço do que deveria. Um detalhe que não o







