MasukAugust Ward
O hotel é pequeno, antigo e cheira a mofo, nada comparado ao que estou acostumado. Ok, eu não esperava luxo, mas algo… decente. O quarto tem uma cama estreita de solteiro, uma televisão que não liga e uma janela que dá para uma rua quieta demais.
A minha única alternativa seria dirigir de volta até a capital depois de um dia como esse, e eu não estava disposto.
Durmo mal. Acordo pior e antes do sol nascer. O meu corpo dolorido e tenso do acidente, e a mente não para um segundo sequer. Fico deitado olhando o teto rachado até o celular vibrar.
É o advogado.
— August — a voz dele soa firme, quase impaciente. — Seu avô perguntou se o acordo já foi oficializado.
Sento na beira da cama.
— Ainda não.
— Você tem menos de um mês — percebo o seu tom apreensivo. — Ele não está bem e cada dia conta.
— Eu sei.
— Então resolva e, de preferência, hoje. — suspira. — O senhor Willis está no hospital da cidade. Fale com ele diretamente. Não espere mais!
Desligo sem responder. Odeio receber ordens, principalmente as que eu não quero cumprir.
Fico alguns segundos com o celular na mão, encarando a tela. Não estou surpreso dele me ligar, a pressão é grande e muita coisa está em jogo. Meu avô nunca deixou nada ao acaso. Mesmo doente, continua puxando as cordas.
Levanto, tomo um banho rápido e me visto. O terno está amassado, mas ainda é melhor do que qualquer outra coisa naquele lugar. Desço até o carro. Os seguranças já estão esperando.
— Hospital municipal — ordeno.
O trajeto é curto. A cidade parece ainda menor de manhã. Poucas pessoas nas ruas, comércios abrindo devagar. Quando chego ao hospital, o mesmo de ontem, sinto um leve desconforto.
Empurro a sensação para longe, preciso de foco.
Na recepção, peço informações sobre o senhor Willis. A atendente me olha de cima a baixo antes de responder. Depois de alguns minutos de espera, um enfermeiro me acompanha até o quarto.
Quando a porta se abre, ele levanta o olhar. Os olhos dele se arregalam.
— Senhor… Ward? — A voz sai rouca.
O homem na cama é mais velho do que imaginei. Rosto magro, cabelo grisalho e pele pálida. Tem o corpo apoiado em travesseiros e um sorinho no braço.
— August Ward — confirmo, parando perto da cama.
Ele demora alguns segundos para processar. Depois, um sorriso lento aparece no rosto cansado. Não é um sorriso de alívio comum. É algo mais profundo. Como se ele tivesse esperado por aquele momento há muito tempo.
Não serei a galinha de ovos de ouro deles.
— Então chegou o dia — murmura. — Finalmente.
Não respondo de imediato. Observo o homem. Apesar da fraqueza, há uma determinação no olhar dele que não esperava encontrar. Não está tão doente como o meu avô, mas parece está bem cansado.
— Vim falar sobre o acordo feito entre o meu avô e o senhor.
— Eu sei. — Ele ajeita o corpo na cama com dificuldade. — Seu avô sempre cumpre o que promete. Mesmo depois de tantos anos. Um acordo feito há muito tempo, é bom ver que ele tem palavra.
Sento na cadeira ao lado da cama. Cruzo as pernas, mantendo a postura.
— Antes de qualquer coisa, quero ser direto. Estou disposto a oferecer uma quantia generosa — falo, observando-o com atenção. — Suficiente para quitar todas as dívidas da fazenda, modernizar a propriedade e garantir estabilidade para a sua família pelos próximos anos. Em troca, o acordo de casamento é desfeito. Agora.
Estou sendo até muito legal com eles. Eu não me importo com o que aconteceu no passado, tempo é dinheiro e estou comprando o meu tempo. Deveria estar focado nos negócios e não estar nessa cidade.
O senhor Willis me encara em silêncio. O sorriso desaparece aos poucos.
— Dinheiro — repete, como se a palavra tivesse um gosto amargo.
— Muito dinheiro. Mais do que essa fazenda vale hoje. Mais do que vocês conseguiriam em uma década.
Ele balança a cabeça devagar.
— Não. — A resposta é simples.
Só posso ter ouvido errado ou esse homem não entendeu direito.
— O senhor não entendeu. Estou oferecendo uma solução limpa — começo a falar devagar para que ele entenda. — Sem casamento. Sem vínculos desnecessários. Apenas dinheiro.
— Eu entendi perfeitamente, senhor Ward. — A voz dele ganha força. — E a resposta continua sendo não.
Inclino a cabeça, estudando-o.
— Por quê? A fazenda está à beira do colapso. Seu filho mal consegue mantê-la. Sua saúde… — faço um gesto vago na direção da cama — não permite que o senhor assuma o controle. Um acordo financeiro resolveria tudo.
Cadê o bom senso? É dinheiro suficiente para que ele tente novos médicos para tentar ajudá-lo.
— Resolveria as dívidas — corrige. — Não resolveria o que importa.
— E o que importa, exatamente?
Ele demora para responder. A fraqueza que via antes vai sumindo aos poucos. Ele está disposto a falar e a imagem de um negociador nato. Quando fala, a voz está mais baixa, mas firme.
— Há coisas que o dinheiro não apaga. Seu avô sabe disso — me olha sério. — Esse casamento não é só sobre a fazenda. É sobre uma promessa antiga. Sobre reparar os erros do passado.
Sinto a irritação exalar de mim no ar. Curvo o corpo para frente. Não fui eu que cometi esses erros, e não deveria ser eu a pagar.
— Eu não tenho interesse em promessas antigas. Tenho interesse em eficiência. Em não prender minha vida a uma família que…
— Que falhou? Falidos e sem poder algum — ele completa, sem ofensa na voz. — Eu sei o que pensam de nós e não discordo de tudo. Cometemos erros. Muitos! Mas o acordo permanece.
Fico em silêncio por alguns segundos. Esperava que não fosse ceder, mas ele está se superando para um cara que está doente em uma cama.
Dá para ver que tem força para lutar pelo que quer, a imagem dele em uma cama não exala muito poder. Pode ter sido um bom negociador um dia, mas em algum momento se perdeu.
— Então o senhor confirma que deseja seguir com o casamento?
— Confirmo. — Os olhos dele se encontram com os meus. — E espero que o senhor também cumpra a parte que lhe cabe. Porque, se esse casamento acontecer, a fazenda fica protegida. Minha família tem uma chance. E eu… posso partir em paz, se for o caso.
A frase final pesa. Está com a mesma disposição do meu avô, e isso me irrita demais. Levanto da cadeira.
— O casamento vai acontecer — digo, a voz fria. — Dentro do prazo estipulado. Os detalhes serão tratados pelos advogados.
O senhor Willis assente. Há alívio no rosto dele, e um pouco de gratidão. Não parece ser um idiota como o livro dele.
— Obrigado, senhor Ward.
Viro as costas e saio do quarto sem mais palavras. O que quero não será feito, eu não vou me render fácil. Vou casar e cumprir esse contrato de merda. Assim que acabar o tempo, cada um vai seguir a sua vida.
No corredor, o ar parece mais pesado. É uma sensação de perda, sem controle do que está por vir. Caminho até a saída com passos firmes. Do lado de fora, o sol já está brilhando no alto. Entro no carro e fecho a porta.
— De volta ao hotel — ordeno.
Enquanto o veículo se afasta do hospital, aperto o maxilar. Tentei. Ofereci uma saída limpa e o filho da mãe é mais esperto que o filho e recusou.
Talvez tivesse ido falar com a pessoa errada. Esquece! Agora não resta outra opção.
O casamento vai acontecer.
E eu vou garantir que dure apenas o tempo necessário.
August WardO quarto continua fedendo a mofo. A cama é estreita demais, o colchão afunda no meio e a janela emperrada deixa entrar um barulho de grilos que parece zombar de mim. Odeio esse lugar. Odeio a cidade. Odeio o fato de ainda estar aqui.Estou sentado à mesa precária com o tablet ligado. Não estou mais querendo correr o risco de ter mais surpresas pelo caminho, confesso que ignorei estudar aonde eu estava entrando, acreditando que conseguiria reverter esse casamento. Infelizmente são mais ambiciosos do que pensei que seria um. Por que uma quantidade de dinheiro agora, se eles podem garantir por um bom tempo a proteção da minha família vinculada à deles? Vejo os arquivos sobre a família Willis abertos um ao lado do outro. Nomes, idades, histórico financeiro, fotos antigas. Eu deveria ter feito isso no primeiro dia. Fui negligente e a negligência tem preço.Começo pelo patriarca: doente, hospitalizado, teimoso como uma mula. Depois o filho, Kleber: fraco, bajulador, desespe
Elisa WillisO corpo dói de um jeito que nem o remédio consegue fazer seu devido efeito. Estou deitada de lado, olhando a parede descascada do meu quarto, quando a porta se abre. Eu só queria um tempo sozinha, mas estou em casa e é um sinal claro de que não vai acontecer.— Ainda deitada? — A voz de Kelly corta o silêncio. — Impressionante. Você consegue dar trabalho até quando está machucada.Respiro fundo, contando até três.— Bom dia para você também, Kelly.— Bom dia? — ela ri sem humor nenhum. — A gente mal tem dinheiro para comer direito e você ainda arruma jeito de ir para o hospital. Sabe quanto custa uma consulta, Elisa? Ou você acha que o mundo gira em torno das suas dores?Sento na cama com dificuldade. O curativo na testa puxa a pele, ainda bem que não foi sério. Não sou fã de hospital e saí antes que minha mãe desse conta de que eu estive lá, e não foi para ver o pai.— Eu fui atropelada.— E quem te mandou atravessar a rua que nem uma distraída? Agora a gente tem mais um
August WardO hotel é pequeno, antigo e cheira a mofo, nada comparado ao que estou acostumado. Ok, eu não esperava luxo, mas algo… decente. O quarto tem uma cama estreita de solteiro, uma televisão que não liga e uma janela que dá para uma rua quieta demais. A minha única alternativa seria dirigir de volta até a capital depois de um dia como esse, e eu não estava disposto.Durmo mal. Acordo pior e antes do sol nascer. O meu corpo dolorido e tenso do acidente, e a mente não para um segundo sequer. Fico deitado olhando o teto rachado até o celular vibrar.É o advogado.— August — a voz dele soa firme, quase impaciente. — Seu avô perguntou se o acordo já foi oficializado.Sento na beira da cama.— Ainda não.— Você tem menos de um mês — percebo o seu tom apreensivo. — Ele não está bem e cada dia conta.— Eu sei.— Então resolva e, de preferência, hoje. — suspira. — O senhor Willis está no hospital da cidade. Fale com ele diretamente. Não espere mais!Desligo sem responder. Odeio receber
August WardO médico me acompanha pelo corredor. Abre a porta e nos deixa sozinhos. A senhorita insuportável está sentada na cama. Um curativo cobre parte da sua testa. Saber que está respirando é o suficiente, não quero uma morte em minhas mãos.Ela ergue os olhos quando me vê.— Você de novo.— Também não estou feliz de te ver.Revira os olhos.— Pegou as minhas coisas? Ou vou ter que eu presto queixa? — ameaça.Eu estreito os olhos.— Só pretende prestar queixa se não tiver pego as suas coisas?— Sim. Graças a Deus, eu estou bem. Então me dê as minhas coisas e pode ir embora.Sento na cadeira no canto do quarto.— Bom, não está comigo.— Como assim, não?Ela olha para o celular do lado da cama, com certeza tentada a ligar para a polícia.— Mandei entregar na sua casa.— O quê?! Quem te contou onde eu moro? Ah, esquece! Essas pessoas são umas fofoqueiras.Ignoro o escândalo que ela está fazendo.— Será que agora eu posso saber o seu nome?Afrontosa, ela empina o queixo no ar.— Kell
August WardPor alguns segundos, não consigo me mover. A minha respiração é tão leve que é provável que eu não esteja respirando. Eu não tirei os olhos da estrada e, em um momento qualquer, ela surgiu. Apenas observo a mulher caída no meio da rua, enquanto o som do motor ainda ligado se mistura ao barulho da batida atrás de mim.— Senhor August! — A voz de um dos meus seguranças me faz reagir.Destravo o cinto e abro a porta do carro com pressa. O outro veículo para logo atrás, e os dois homens correm na direção da mulher. Eu me apresso para intervir, não sabemos o estado em que se encontra e pode piorar mais a situação.— Não mexam nela. — Ajoelho-me ao lado dela. — Senhora, consegue me ouvir?Nenhuma resposta vem dela. Sinto o sangue gelar. Não posso ter matado alguém.— Ligue para uma ambulância. Agora!— Já estou ligando, senhor.Aproximo a mão do rosto dela, sem saber exatamente o que estou procurando. Ela respira. Um alívio imediato percorre meu peito.É um bom sinal, penso.— E
August WardObservo seu corpo fraco sobre aquela cama de hospital, ainda sem conseguir acreditar que o homem que, durante anos, controlou nossa família como se todos fôssemos meros soldados, agora está doente.Os olhos cinzentos do meu avô se voltam para mim depois que ele exige que todos saiam do quarto.Aproximo-me da cama, mantendo as mãos nos bolsos da calça e sem desviar a atenção dele.— É o meu prodígio.Não sei se há orgulho em sua voz ou apenas a necessidade de ter certeza de que seu legado continuará em boas mãos.— Quero que continue no comando, August.O homem está nas últimas, mas falar de dinheiro, poder e negócios parece ser justamente o que o mantém vivo. Não fico surpreso com a sua atitude, sou o CEO da Ward Group, e não é à toa que me passou o comando da empresa.— Vou continuar com o trabalho...— E vai cumprir as minhas condições.Franzo a testa.— Como assim?Ele respira fundo, como se até falar estivesse exigindo mais esforço do que deveria. Um detalhe que não o







