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Capítulo 3

Author: Ana Elói
last update publish date: 2026-10-23 13:10:55

August Ward

Por alguns segundos, não consigo me mover. A minha respiração é tão leve que é provável que eu não esteja respirando. Eu não tirei os olhos da estrada e, em um momento qualquer, ela surgiu. Apenas observo a mulher caída no meio da rua, enquanto o som do motor ainda ligado se mistura ao barulho da batida atrás de mim.

— Senhor August! — A voz de um dos meus seguranças me faz reagir.

Destravo o cinto e abro a porta do carro com pressa. O outro veículo para logo atrás, e os dois homens correm na direção da mulher. Eu me apresso para intervir, não sabemos o estado em que se encontra e pode piorar mais a situação.

— Não mexam nela. — Ajoelho-me ao lado dela. — Senhora, consegue me ouvir?

Nenhuma resposta vem dela. Sinto o sangue gelar. Não posso ter matado alguém.

— Ligue para uma ambulância. Agora!

— Já estou ligando, senhor.

Aproximo a mão do rosto dela, sem saber exatamente o que estou procurando. Ela respira. Um alívio imediato percorre meu peito.

É um bom sinal, penso.

— Ela está viva. — murmuro mais para mim do que para que ouçam.

O cabelo comprido, em um tom preto, esconde parte do seu rosto. Afasto alguns fios e consigo enxergar uma mulher muito mais jovem do que imaginei. Há um corte pequeno acima da sobrancelha e algumas marcas nos braços.

Ela precisa ir para o hospital, não sei qual foi a gravidade do impacto do carro nela. Essa mulher não pode morrer.

— Senhor, não devemos movê-la.

— Eu sei. — Minha voz sai mais ríspida do que deveria.

Olho para a rua. Algumas pessoas começam a aparecer nas portas das casas. Uma mulher aponta para meu carro enquanto conversa com outra. Um homem se aproxima devagar, provavelmente querendo descobrir o que aconteceu.

Ótimo. Era exatamente o que eu precisava.

Um acidente em uma cidade onde ninguém me conhece, envolvendo um carro que provavelmente vale mais do que algumas das casas daquela rua.

— Afaste essas pessoas.

— Sim, senhor.

Volto minha atenção para a mulher.

— Ei, consegue me ouvir? — Dessa vez, ela se mexe.

Um gemido baixo escapa dos seus lábios. As pálpebras se abrem devagar, a cada pequeno movimento é um grande alívio. Por alguns segundos, seus olhos parecem perdidos. Então encontram os meus.

E a primeira coisa que vejo neles não é medo. É raiva.

— Você... — A voz dela sai fraca.

— Não tente se mexer. — apoio a mão em seu ombro para impedi-la de levantar.

— Você me atropelou — acusa.

Franzo a testa.

— Eu sei.

— Então pare de ficar mandando em mim.

Fico em silêncio. Mesmo machucada, ela encontra forças para me enfrentar. Interessante, não muito inteligente, mas é interessante.

— Quero te ajudar.

— Já fez o bastante, obrigada. — ela é irônica.

Sua atitude chama a minha atenção. Espero que essa mulher lembre de todos os detalhes e entenda que a culpa não é minha.

— Não fui eu que surgi do nada. — Ela tenta levantar, eu a impeço de novo. — Não te ensinaram que deve olhar para os dois lados antes de atravessar?

Ela fecha os olhos novamente.

— Ótimo. Além de atropelada, vou ter que ouvir sermão de homem rico.

Olho para meu carro. Depois para ela. Homem rico? Pelo menos ela percebeu.

— Sua cabeça parece estar funcionando bem.

— Poderia estar melhor… mas você me atropelou!

— Você atravessou a rua sem olhar.

Os olhos dela se abrem devagar.

— Eu estava olhando.

— Então não olhou direito.

— E você estava dirigindo como se fosse dono da cidade? Se fosse uma criança? Odeio esses ricos que se acham os donos do mundo.

— Eu estava dentro do limite.

— Ah, claro. — A resposta vem acompanhada de uma careta de dor.

Por algum motivo, aquilo me irrita.

— Não vamos discutir agora.

— Não estou discutindo.

— Está.

— Você começou!

Respiro fundo. Essa mulher está machucada e, ainda assim, parece mais preocupada em vencer uma discussão comigo. A sua teimosia dá para se ver de longe, e a minha paciência está acabando a cada segundo.

— Qual é o seu nome?

Ela demora alguns segundos para responder.

— Não interessa.

— Preciso saber para o atendimento médico.

— Eles vão descobrir.

Passo a língua pelos dentes, tentando conter a irritação. Oh, mulherzinha insuportável.

— Você sempre é assim?

— Assim como?

— Difícil.

Um sorriso quase imperceptível aparece no canto da boca dela.

— Só com homens arrogantes.

Meu maxilar trava. Antes que eu possa responder, escuto a sirene se aproximando. Finalmente. A ambulância para alguns metros à frente e vem com o que precisa para ajudá-la.

Afasto-me para deixá-los trabalhar. Enquanto eles examinam a mulher, um deles pergunta se sou parente.

— Não. — A palavra sai rápida demais.

Não sou. Nem quero ser. A dose de aturar essa mulher foi o suficiente.

Ela é colocada na maca. Antes de ser levada para a ambulância, seus olhos encontram os meus novamente.

— A minha compra...

Agora vejo as coisas de mercado espalhadas pelo chão. Itens de limpeza, remédios e entre outras coisas.

— Eu vou resolver.

— Pega tudo — manda. — Não esquece de nada, melhor, deixa o…

— Eu cuido de tudo — falo mais forte.

Ela faz uma careta raivosa.

— A última coisa que preciso agora é do seu dinheiro. — Aquela frase me surpreende.

Ninguém dessa cidade deve imaginar quem sou. É claro, devem viver em um mundinho pacato.

— Não estou oferecendo dinheiro.

— Então, o quê?

— Responsabilidade.

Ela me encara por alguns segundos, surpresa. E, pela primeira vez, fica sem saber o que falar, parece que finalmente calei a encrenqueira. A desconhecida que atropelei é colocada na ambulância.

Fico parado no meio da rua, observando o veículo partir.

— Senhor? — Meu segurança se aproxima. — O hospital fica a vinte minutos daqui. Devemos acompanhar?

Olho para a ambulância desaparecendo na estrada.

— Sim. — Entro no carro novamente. 

Meu celular continua no chão do carro. Pego o aparelho e vejo dezenas de chamadas perdidas.

Minha mãe. A Ward Group. O advogado. Ignoro todas. Tenho problemas maiores para resolver agora.

— E as coisas dela, senhor?

— Quero que alguém fique e cuide do que ela comprou. Quero que comprem tudo novo e em quantidade maior. Faça uma compra reforçada e consiga o endereço dela para enviar tudo.

— Sim, senhor. — Ele afasta para acatar a minha ordem.

Meu olhar permanece na estrada. Foi tudo tão rápido e ela ainda teve a coragem de me enfrentar. Ainda tendo coragem de falar do meu dinheiro como se fosse algo ruim. Mas, pela primeira vez em muito tempo, alguém olhou para mim sem saber quem eu era e não teve medo.

Essa cidade é uma bola de confusão, preciso resolver minhas coisas logo e sair daqui. A outra parte da minha segurança vem comigo ao hospital.

Chegamos ao pequeno hospital da cidade alguns minutos depois. O local é simples demais para alguém acostumado aos hospitais particulares de Nova York, mas não perderia o meu tempo reclamando.

Desde que faça o seu serviço, é o suficiente para mim. Entro atrás dos médicos.

— Senhor, precisa aguardar aqui.

— Ela está bem? Acabou de dar entrada. — Exijo saber. — Uma mulher de cabelo preto e longo…

— Ainda estamos avaliando.

Sem me dar a devida atenção, ele segue pelo corredor. Pego meu celular.

Uma mensagem do advogado aparece na tela.

Sr. Filipe: August, não se esqueça de que precisa falar com a família Willis assim que chegar."

E ainda tem isso. Paro no meio do hospital, encaro o corredor em que o médico sumiu. Uma sensação estranha atravessa meu peito.

Seria coincidência demais. Para a atual situação que a família da minha futura esposa carrega, não seria uma mulher tão ousada como essa.

Guardo o celular e espero. Quase uma hora depois, um médico finalmente aparece.

— O senhor é o responsável pela paciente?

— Fui eu quem estava dirigindo o carro.

— Ela sofreu algumas escoriações, mas não há sinais de fratura grave. Vamos mantê-la em observação.

Balanço a cabeça, concordando.

— Posso vê-la?

O médico hesita.

— Ela está consciente. Seja rápido, por favor.

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