LOGIN— Negócio fechado, quer ir no salão amanhã? — Parecia que ele havia lido minha mente.
— Sim. — Ser submissa nunca esteve nos meus planos, mas quem negaria um dia no salão?
— Pode ficar lá enquanto fazemos sua mudança, a partir de hoje você só se preocupa com sua beleza e suas provas na faculdade.
Acenei positivamente.
— Sua virgindade fica pra depois que criarmos confiança, quero que seja um momento especial pra você. Vou chamar o motorista pra te levar embora.
Realmente, recostada num lavatório de salão não se dá pra pensar em muita coisa. Não escolhi meu novo visual, isso foi escolha de Constantino, tudo ele como sempre.
Eu percebi logo de cara que ele queria a sua própria Barbie, por isso talvez alguém tão jovem como eu. Dizem que quanto mais jovem, mais manipulável, mas talvez esse não fosse meu caso. Confesso que sou inocente, mas também sei ser sonsa quando tenho noção do que está acontecendo.
E eu tinha uma pequena noção da arapuca que armaram pra mim.
Eu tinha a teoria que Lourdes tinha uma ideia pra mim há muito tempo, talvez não especificamente para Constantino, mas para o meio do Emerson. Ainda descobriria o quão próximos eles eram.
Acho que Constantino era um mero cliente do cabaré de Emerson, e talvez fosse inocente até certo ponto. Eu digo isso porque ele queria uma garota jovem, dentro da moralidade, para moldar desde cedo.
Inclusive enquanto eu levantava do lavatório e era envolvida pela toalha branca na cabeça, eu lembrei que não sabia a idade de Constantino. Sabia sim que ele era um homem jovem, com menos de 30, talvez ele tivesse mais que 24, mas menos que 28.
Perguntaria certamente quando ele viesse me buscar. Afinal, aquela curiosidade, me tomou por completo, mas eu teria que sofrer com ela, já que a cabeleireira me avisou que teríamos pelo menos 8 horas de procedimento.
Ontem arrumei minhas coisas, deixei a chave com Lourdes, e aguardei o motorista para me levar ao salão, marcamos o primeiro horário que era as 8h. Eu só sairia de lá 16h. Bom, temos que fazer um esforço por um herdeiro de vez em quando
Principalmente um daqueles.
Um Forbes Under 30.
Bonito.
***
Saí do salão loira, muito loira, quase branco o cabelo. E eu tinha um cabelo castanho escuro natural, virgem, igual a mim.
Pelo menos, creio eu, que foi fácil para a profissional descolorir. Mas de qualquer forma foi bastante. Além de loira, bem loira, eu estava com as unhas pintadas de vermelho, um ardente, bem bordô, nas mãos e nos pés, além das extensões em gel. A sobrancelha estava perfeitamente desenhada, inclusive cortaram meu longo cabelo num corte médio, a escova que elas fizeram me deixou com pontas cacheadas.
Enquanto eu estava no carro, me via no espelho retrovisor e sinceramente, não me reconhecia, era outra pessoa, era a Barbie de Constantino.
E sinceramente eu não sabia se isso era bom ou ruim.
De certa forma não fui manipulada, na verdade fui ludibriada, o que é bem diferente.
Mas ele perguntou se eu queria né.
E eu meio que topei.
O motorista me levou até um suntuoso e enorme prédio, ele abre o porta luvas e me entrega um chaveiro. Ele indica cada chave seria de que, sai do carro e abre a porta pra mim.
Saio levemente deslumbrada, nunca imaginei que moraria num local daqueles, na verdade eu morei a vida inteira num sobrado típico de classe média, minha família não era rica, nunca foi. Aquilo era novo.
Totalmente novo.
Eu tinha dito “sim” para uma nova vida. E não tinha ideia da dimensão daquilo até cruzar a porta de vidro da recepção do meu novo prédio.
Dei boa noite pro porteiro, que me devolveu o cumprimento me chamando de “senhorita”.
Sorri e fui em direção ao elevador. Só então notei que o chaveiro tinha uma etiqueta, provavelmente me indicando o número do apartamento. Tomei um susto quando percebi que na verdade, era a cobertura.
Ok, isso era um pouco muito pra mim.
Apertei o botão no elevador e subi ainda em choque. O local era lotado de espelhos, novamente me vi no espelho e tentava buscar traços da minha aparência de sempre. E não encontrei.
Dei graças pois a única pessoa que sobrou na minha vida era minha irmã, nossos pais faleceram desde muito tempo atrás.
Maninha era apenas 4 anos mais velha. Ela teria um diálogo, entenderia eu acho. Sempre fomos parceiras, só tínhamos uma a outra.
Ela talvez ficasse surpresa e me achasse meio burra com a história de como eu conheci Constantino. Provavelmente ela diria que eu quase sofri tráfico humano, lembraria de quando assistíamos fielmente a novela Salve Jorge.
Enquanto eu devaneava pensando na minha irmã a porta do elevador se abriu, revelando uma pequena sala com apenas uma porta a frente.
Peguei o molho de chaves novamente e abri a porta.
A sala era enorme, tudo muito branco e bege, dela dava pra ver a varanda, ali tinha uma hidromassagem, e um espaço de lazer.
Andei pelo apartamento. 3 quartos, 4 banheiros, cozinha enorme, me perguntei o que eu com meus meros 1,65m faria ali, num local tão grande, tão... sei lá.
Nada ali me era familiar, incluindo eu mesma.
Olhei com carinho todos os quartos, todos suíte, porém apenas um tinha closet. Escolhi esse, suas paredes eram de um tom avermelhado meio cereja. Muito bonito, cama King Size com um cobertor preto, coloquei minha modesta mala, que carregava boa parte de tudo que eu tinha em minha cidade natal, no chão e me joguei na cama.
Nunca fui de luxos, na verdade naquele momento me perguntei porque raios topei essa porra de proposta.
Mas na verdade, ali era infinitamente melhor que a quitinete de Lourdes. Isso sim.
Pensei nisso e até me acalmou de certa forma.
Me senti levemente sortuda.
Ou azarada.
Pensei em procurar uma cartomante e ver o futuro disso.
Mas meu pensamento, que quase virou ato, foi interrompido por meu telefone vibrando demais. Era Constantino me ligando. Estranhei apenas uma coisa, ele não me ligou em vídeo, achei que quisesse me ver no novo visual.
Ele não estava romantizando o próprio sofrimento. Ele estava me escolhendo por inteira.Ele estava escolhendo perder algo que o mundo reconhece para preservar algo que não aparece em relatórios. E essa escolha, eu sabia, custava caro. Não apenas a ele, mas a nós dois.Mas também sabia outra coisa, talvez ainda mais incômoda: se ele aceitasse voltar inteiro apenas para o sistema, perderia algo que nenhuma restituição devolveria depois.E eu não estava disposta a assistir isso acontecer de novo.Olhei para ele com atenção renovada. Não como a mulher que o amava, mas como alguém que conhece o custo de cada escolha.— E o que você perde?A pergunta ficou suspensa entre nós por alguns segundos. Ele não respondeu de imediato. Não por cálculo estratégico, mas porque a resposta não cabia numa única palavra.Levantou-se. Caminhou até a janela da sala. A cidade se estendia abaixo como sempre: funcional, indiferente, cheia de vidas que não sabiam, e talvez nunca soubessem, que decisões silencios
A proposta chegou numa terça-feira sem qualquer marcação simbólica.Não era meu aniversário. Muito menos era início de trimestre, quando costumávamos a ter eventos. Não havia data redonda ou repetida, nem coincidência que pudesse ser lida como destino. Era uma terça comum, dessas que passam despercebidas até para quem vive atento. O tipo de dia que se escolhe quando não se quer criar memória, mas quando se quer parecer inevitável.O e-mail chegou cedo, ainda com a luz da manhã filtrada pelas cortinas do quarto. Eu acordei primeiro, como quase sempre. O silêncio ainda tinha cheiro de noite: lençóis mornos, ar parado, o ruído distante da cidade começando a se organizar. O celular de Constantino vibrou sobre o criado-mudo com um som curto, controlado, quase educado demais, não era como os telefones agudos e irritantes que tocavam em pontos de ônibus.Ele não se mexeu de imediato, estava sonolento. Não houve sobressalto de susto ao ser surpreendido, nem aquele reflexo automático de quem t
Havia curiosidade, além de um tom levemente sedutor na voz que ainda estava em tom baixo.— Onde você não colocaria dinheiro — esclareci, sustentando o olhar — mesmo que todos digam que é seguro.Ele desviou os olhos por um instante mínimo, como quem percorre mentalmente uma cartografia inteira antes de escolher um ponto exato. Depois voltou a me encarar.A frase saiu sem esforço, como algo repetido tantas vezes na cabeça dele que já não precisava ser lapidado. Não havia cinismo, nem orgulho. Era constatação. Uma dessas verdades que só se aprende depois de ver decisões importantes desaparecerem entre assinaturas demais.Assenti devagar. Não como quem concorda, mas como quem reconhece um mecanismo já observado por outros ângulos.— Porque ninguém responde por nada — completei. — Quando tudo é coletivo demais, o erro vira abstrato.Ele me observou por um segundo mais longo. Um desses instantes em que não se avalia a resposta, mas a origem dela. Um canto da boca se moveu, quase um sorris
O escritório não ficava na Faria Lima visível, aquela em que os prédios que competem por atenção e também dos restaurantes onde todos querem ser vistos frequentando. Ficava num recuo estratégico, alguns quarteirões afastados, alto o bastante para enxergar a cidade em amplitude, discreto o suficiente para não virar vitrine. Vidros amplos, mas tratados. Madeira escura. Poucos objetos. Nada ali era decorativo. Tudo tinha função, inclusive a calmaria que precedia o caos.Percebi isso no instante em que entrei.Não havia quadros motivacionais, nem livros expostos para impressionar visitantes ocasionais, nada cafona nesse nível. Os livros estavam guardados. O que se exibia ali não era repertório cultural, era capacidade de decisão. O tipo de lugar onde ninguém levanta a voz porque não precisa.Constantino não me recebeu com afeto. Recebeu com presença.A sala em que estávamos não era grande, mas era precisa em todos os aspectos. Uma vez que tudo ali parecia ter sido escolhido para não distr
A Mansão de Constantino não era ostensiva nem chamativa.Não havia portões monumentais, nem ostentação explícita, nem o tipo de arquitetura que implora para ser Instagramável. Ela se escondia atrás de um muro alto, contínuo, de linhas limpas, interrompido apenas por um portão de metal escuro eletrônico, onde um guarda que ficava numa guarita vigiava, a entrada ,que se abria em silêncio absoluto, sequer rangia, não chamava atenção. Poder de verdade não faz barulho.O bairro era um enclave discreto, desses que não aparecem em reportagens imobiliárias porque não precisam. Ruas largas, árvores antigas, iluminação baixa. Casas afastadas umas das outras, como se cada uma tivesse negociado previamente o direito ao silêncio. Ali, ninguém observava a vida alheia por curiosidade. Observava por hábito.Quando o carro entrou, o caminho até a casa principal se revelou lentamente. Um trajeto de pedras claras, perfeitamente alinhadas, margeado por jardins geométricos demais para parecerem naturais.
Me forcei a voltar à faculdade depois de semanas e foi uma experiência mais estranha do que eu esperava.Não porque algo tivesse mudado, mas porque nada havia mudado.O prédio da Medicina permanecia igual: concreto claro, corredores longos, o cheiro persistente de café requentado misturado a álcool em gel e formol. As pessoas também. Mesmas andanças pelo corredor, mesmas piadas baixas, a mesma urgência artificial de quem corre para não atrasar o próprio lugar na fila.Alguns olhares me localizaram de imediato, como quem reconhece um rosto que já não pertencia ao lugar que um dia foi rotina. Outros desviaram com pressa calculada, fingindo concentração em slides e cadernos, um teatro social muito bem ensaiado. Os cochichos surgiram logo depois, não agressivos, as pessoas ali não costumavam a ser hostis. Mas pior do que isso pra mim, estavam curiosos demais, carreando um cuidado que beirava a obsessão. Aquela curiosidade que se disfarça de preocupação para não assumir invasão.“Você sumi







