LOGINAna Depois de desligar o telefone com a Katy, inspirei fundo e deixei o celular sobre a mesa da cozinha. A resposta dela ainda ressoava na minha cabeça: o Ian passaria o dia com ela, então eu deveria focar 100% no meu encontro com o Julien.Sorri sozinha, balançando a cabeça. A Katy conhecia bem a minha rotina. Como médica residente, meu dia a dia costumava ser uma espiral de plantões exaustivos, jalecos amassados e cafés tomados às pressas nos corredores do hospital. Ter um sábado de folga inteiro para mim era um luxo raro — e saber que a Katy estava bem acompanhada pelo Ian me dava a paz de espírito necessária para finalmente desacelerar e me dedicar a mim mesma.Caminhei até o espelho do corredor e parei por um instante para me encarar. Alta, com meus cabelos loiros, lisos e cortados na altura dos ombros em um chanel moderno, e os olhos verdes bem delineados. Anos de disciplina divididos entre o hospital e a academia garantiam que eu estivesse em boa forma, mas o cansaço dos pla
Ian Parker O dia já tinha começado torto com o trânsito infernal da tempestade da noite anterior, mas ver a Katy empacotada em um sobretudo e cachecol na sala de reuniões fez um alerta soar na minha cabeça. Ela estava impecável na apresentação, perfeita nos números, mas a palidez sob a luz fria da sala não enganava.Mais tarde, ao passar pelo corredor do setor contábil, fui interceptado por Valentina. Ela ostentava aquele sorriso venenoso de quem achava que tinha um trunfo nas mãos.— Procurando sua contadora favorita, Ian? — provocou, ajeitando uma pasta. — Se for isso, perdeu a viagem. A Katy estava quase caindo pelas tabelas, morrendo de febre, e foi embora mais cedo. Pelo visto, a tempestade de ontem à noite fez uma vítima.Valentina me encarou de canto de olho, claramente esperando que eu perdesse o controle, abandonasse a postura profissional e saísse correndo atrás da Katy ali mesmo. Manteve os olhos fixos em mim, buscando qualquer fissura na minha armadura.Não dei esse
Katy Nunes Saí da agência com a cabeça fervilhando. Cheguei em casa, tomei um banho demorado e me deitei, mas o sono simplesmente não vinha. A ansiedade pela reunião do balanço na manhã seguinte fazia meu peito acelerar a cada vez que eu fechava os olhos. Sem paciência para encarar o teto, me levantei, vesti um top, calça legging e tênis de corrida, e decidi ir para a orla. Era noite de quinta-feira, e o movimento suave dos quiosques acesos parecia um convite. Achei que gastar energia me faria finalmente relaxar.Comecei a correr no calçadão, sentindo o vento noturno. O ritmo era bom, mas de repente o céu simplesmente desabou. Uma chuva torrencial e congelante me pegou em cheio. Em vez de parar, continuei correndo no meio do temporal, usando o caminho de volta para casa para não congelar de vez.Quando passei pela porta do meu apartamento, já passava de uma da manhã. Arrancando as roupas encharcadas no banheiro, vesti um roupão macio e me joguei na cama, exausta.Na manhã de sexta
Ian Parker Saí do setor com passos firmes em direção ao elevador e fui direto para a garagem do prédio. O trânsito da quinta-feira à noite estava considerável, mas cheguei ao meu prédio em cerca de vinte minutos.O silêncio do meu apartamento sempre foi o meu refúgio favorito, mas nos últimos dias a presença do Julien tinha transformado o ambiente. Meu apartamento era o reflexo exato da minha personalidade: linhas retas, arquitetura minimalista, tons de cinza, preto e madeira nobre. A sala ampla era integrada por grandes painéis de vidro de fora a fora, revelando as luzes distantes lá fora, enquanto o mobiliário moderno trazia um ar refinado e impecável. Tudo tinha o seu lugar exato, sem excessos — até o Julien espalhar suas lentes e cases de câmera de couro pela mesa de jantar.— Achei que você tivesse desistido e me deixado para carregar tudo sozinho — comentou Julien assim que entrei na sala, ajeitando a jaqueta sobre o ombro.— Tive uns últimos relatórios para assinar antes d
Ian Parker Assim que a porta se fechou e os passos da Katy desapareceram pelo corredor, a atmosfera da minha sala mudou drasticamente. A presença dela ainda parecia pairar no ar — o cheiro suave do perfume de baunilha, a faísca nos olhos castanhos quando veio me confrontar sobre a secretária, e aquela postura impecável de profissional que tentava esconder o ciúmes gritante.Soltei um suspiro pesado, recostando-me na minha cadeira de couro. Eu ainda estava processando a provocação do início da manhã. Ouvir um "Não. Não tenho namorado" saindo da boca dela na cantina, com meia dúzia de funcionários ao redor — incluindo aquele sujeito novo que claramente tentava um movimento —, fez o meu sangue ferver. Mandei a mensagem na hora só para lembrá-la de que eu não pretendia assistir àquilo de camarote.No entanto, o foco agora era a figura parada à minha frente.Valentina ajeitou a pasta contra o peito, dando dois passos lentos em direção à minha mesa. O olhar dela alternava entre a porta
Katy NunesO silêncio do meu apartamento me recebeu como um abraço cansado. Ian tinha me deixado na porta do prédio e seguido para o seu compromisso com os investidores. Sem um pingo de fome e com a cabeça martelando de apreensão, nem pensei em fazer jantar. A imagem da Valentina na garagem, encostada na pilastra com aquela pasta no peito e os olhos arregalados ao me ver entrar no carro do Ian, não saía da minha mente.Tomei um banho demorado na tentativa de lavar a tensão do dia, vesti um pijama confortável e me deitei. Fiquei rolando na cama por um tempo, remoendo cada possibilidade do que aquela mulher faria a partir das oito da manhã seguinte. Exausta, terminei pegando no sono.Na manhã seguinte, acabei de me ajeitar quando o celular tocou na mesa de cabeceira. O nome do Ian brilhou na tela.— Bom dia, minha baixinha. Estou terminando de me arrumar. Passo aí em dez minutos para te buscar — disse a voz grave do outro lado.— Bom dia, Ian... Não precisa. Na verdade, é melhor não







