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Capítulo 4

last update publish date: 2026-07-16 23:02:13

BETINA

Naquele dia, depois de receber a ligação que mudaria tudo em minha vida, precisei voltar a me concentrar, porque ainda estava em horário de expediente.

Foi difícil.

Passei o restante do dia aturdida e em êxtase com a notícia.

Ao fim do expediente, peguei meu carro e segui direto para casa.

Eu ainda não tinha contado a novidade para ninguém e precisava desabafar. Caso contrário, iria explodir... ou implodir, não sei ao certo.

Só sabia que estava à beira de um colapso com tudo o que havia acabado de acontecer.

Ao chegar em casa, já sabia que minha mãe havia voltado do trabalho pelo horário.

Estacionei o carro na rua e segui para dentro, procurando por ela.

Sabia que estava na cozinha pelo cheirinho de café recém-passado.

Corri até lá, chamando por ela.

Minha mãe é uma mulher belíssima. Aos quarenta e três anos, tem cabelos cacheados castanho-escuros na altura dos ombros, olhos da mesma cor dos cabelos, pele bronzeada, lábios grossos e um lindo sorriso.

Quando a vi, comecei a falar atropelando as palavras.

— Mãe, mãe! A senhora não sabe quem me ligou!

Ela olhou em minha direção com os olhos arregalados.

— Betina, minha filha, calma! Respira para falar, senão eu não consigo entender.

Com a xícara de café nas mãos, ela inspirou profundamente e soltou o ar, gesticulando para que eu fizesse o mesmo.

Obedeci e comecei a falar.

— A senhora não sabe quem ligou para mim... — falei com empolgação. — A agência de au pair, mãe!

Eu estava ansiosa demais para esperar a resposta dela.

— Mentira, minha filha!

Minha mãe veio em minha direção com um sorriso nos lábios e me abraçou, parabenizando-me.

— Eu não falei que você ia conseguir, meu amor? Uma garota inteligente e esforçada como você sempre alcançará os próprios sonhos.

Naquele momento, eu era só lágrimas e felicidade.

Sou a caçula de três irmãos.

Minha mãe se casou muito jovem com meu pai e, aos dezoito anos, teve meu irmão mais velho, Bruno, hoje com vinte e cinco anos.

Três anos depois nasceu meu irmão do meio, Bernardo, que hoje tem vinte e dois anos.

Dois anos mais tarde, nasci eu, atualmente com vinte anos.

Quando meu pai e meus irmãos chegaram do trabalho, contei a novidade para eles.

Como imaginei, todos me desejaram boa sorte e ficaram felizes por mim.

Eu amava muito a minha família.

Eles fariam muita falta.

                                   ♡♡♡♡♡

Mais tarde, já em meu quarto, abri o e-mail que a agência de au pair havia me enviado.

Providenciei tudo o que era solicitado e enviei a documentação de volta.

Lá também informava que a host family seria responsável pela compra da passagem aérea e por me buscar no aeroporto assim que eu chegasse ao estado da Flórida.

Resolvi me inscrever no programa de au pair porque meu sonho sempre foi morar e estudar nos Estados Unidos, e vi que aquela seria a maneira perfeita de realizar esse objetivo.

Eu me mudaria para lá fazendo aquilo que sabia e amava: cuidar de crianças.

Além disso, receberia um salário para isso e não precisaria me preocupar com aluguel nem alimentação, já que essas despesas ficariam por conta da família anfitriã.

Para completar, meus requisitos iam muito além do mínimo exigido pelo programa.

Resolvi unir o útil ao agradável e lutar por aquilo com que sempre sonhei.

Sempre fui muito esforçada e dedicada quando queria conquistar alguma coisa.

Comecei a estudar inglês sozinha aos doze anos, pela internet.

Algum tempo depois, meus pais conseguiram pagar um curso de inglês, que me ajudou muito no aprendizado.

No início, eu sabia que não podia pedir que eles arcassem com esse custo logo de cara.

Naquela época, nossa situação financeira era mais difícil.

Eles tinham três filhos para criar e precisavam trabalhar muito para dar conta de todos nós.

Quando perceberam que eu realmente estava me esforçando, decidiram apertar um pouquinho mais o orçamento para me matricular no curso.

Sempre fomos uma família humilde, mas meus pais nunca permitiram que faltassem comida na mesa e muito amor dentro de casa.

Aos dezoito anos, tirei minha carteira de motorista, outro requisito exigido pelo programa.

Logo depois, comecei a trabalhar na creche onde atuo até hoje como auxiliar.

Foi lá que consegui a qualificação mais importante: as horas de experiência cuidando de crianças.

Faltava apenas tirar o passaporte, que eu ainda não tinha.

Mas isso foi fácil.

Providenciei tudo rapidamente e, assim que estava com toda a documentação em mãos, me inscrevi no programa de au pair.

Terminei tudo o que precisava fazer, desliguei o notebook e liguei para minha melhor amiga, Sara.

Eu precisava contar sobre a viagem e queria que ela fosse comigo ao shopping durante a semana para comprar algumas coisas que pretendia levar.

Enquanto a ligação chamava, um nó se formava em minha garganta e meus olhos se enchiam de lágrimas.

Afinal, aquela seria nossa última semana juntas.

Sara era minha confidente desde os nove anos.

Ela sabia tudo sobre mim, assim como eu sabia tudo sobre ela.

Além da minha família, só Sara sabia o quanto eu havia sofrido depois de descobrir que os últimos cinco anos da minha vida tinham sido uma mentira.

— Alô... Quem fala? — a debochada pergunta assim que atende.

— Ah, para de graça, sua vaca!

Minha amiga não se aguenta e cai na gargalhada do outro lado da linha.

— Ih, alá! Olha como você fala, sua ridícula!

Caímos as duas na risada.

— Fala, garota! O que você quer, que está me ligando em vez de mandar mensagem?

Fico em silêncio por alguns segundos.

Eu sabia que, assim que contasse a novidade, nós duas começaríamos a chorar.

— Então... sabe aquela ligação que eu estava esperando sobre o programa de au pair?

A primeira lágrima escorreu pelo meu rosto, enquanto um nó amargo se formava em minha garganta.

— Eu recebi hoje, amiga... e já vou embora no sábado.

Escuto a primeira fungada de Sara e sei que ela já está se debulhando em lágrimas.

Eu também não consigo mais segurar o choro.

Passamos o minuto seguinte apenas ouvindo uma à outra chorar.

— Amiga, você sabe o quanto eu torço pela sua felicidade e o quanto apoio esse sonho, né? Estou muito feliz por você, de verdade. — Sara fala com a voz embargada pelo choro. — Mas vou sentir muita saudade de ter você por perto. Eu sei que não é o fim da nossa amizade, mas vai ser diferente... Vamos estar separadas por um oceano.

— Eu sei... Mas, pelo menos, temos a tecnologia a nosso favor. Vamos poder compartilhar tudo, como sempre fizemos. Afinal, não é um oceano que vai acabar com uma amizade de doze anos.

Choramos mais um pouco, relembrando tudo o que já vivemos juntas.

Sinceramente, não consigo me lembrar de nenhum momento importante da minha vida que eu não tenha compartilhado com Sara.

Amigas.

Sempre e para sempre.

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