INICIAR SESIÓNNo dia das fotos de formatura, era outono e estávamos no último ano do ensino médio. Fiz o que sempre fazia: fiquei ao lado de Lena, a garota com quem cresci. Logo, um colega de turma começou a nos provocar: — Vamos, deixem o casalzinho ficar junto! Já ouvi aquela brincadeira centenas de vezes, mas o segredo que eu guardava ainda me fez corar. Lena não disse nada. O fotógrafo começou a contagem regressiva e, enquanto todos gritavam xis para a câmera, ouvi a voz dela bem ao meu lado, baixa e seca de irritação: — Isso cansa. Você pode me dar um pouco de espaço? Era mesmo a Lena. Nasci com a visão fraca, por isso minha audição sempre foi mais aguçada que a da maioria das pessoas. Eu sabia muito bem o que ouvi. Assim que a câmera disparou, ela se virou e voltou para dentro da escola. Fiquei ali por um bom tempo antes de ir atrás dela. Ao passar pelo mural de desejos do lado de fora da nossa sala, estendi a mão e tirei o bilhete adesivo em que anotei a mesma universidade que Lena sonhava em cursar.
Ver más— Owen. Quanto tempo.Fui pego de surpresa ao ver Grant se aproximar para falar comigo. Ele foi direto ao assunto.— Eu gostava da Lena. Você sabia, não sabia?Assenti. Ouvi um dos amigos dela comentar isso pela primeira vez no encontro da turma, naquela primavera.— Mas desisti. Sabe por quê?Grant não esperou minha resposta.— Porque tudo o que ela sentia passava por você. Quando ficava feliz, nervosa, frustrada ou com medo, tudo girava em torno de você. Mesmo naquela época, eu já via que não sobrava espaço para mim no coração dela. Não ia me enfiar à força na vida de vocês, então desisti.Eu não entendia por que ele me contava aquilo, mas logo veio o motivo.— Andam dizendo que você e Lena se afastaram. Não sei o que aconteceu entre vocês, mas fiquei preocupado de ter contribuído para isso. Por isso, queria esclarecer uma coisa: Lena e eu nunca chegamos a conversar de verdade sobre esse assunto. Nunca houve nada entre nós.Seu tom ficou sério.— E sobre o disco... Eu não s
Lembrei de quando era pequeno. Meus pais viviam me dizendo para não ficar sob o sol forte, mas eu não dava ouvidos. As outras crianças brincavam lá fora, e eu queria estar com elas.Só me assustava quando a claridade se tornava tão intensa que eu não conseguia manter os olhos abertos. Nessas horas, Lena segurava minha mão e ficava ali comigo.Num desses dias, perguntei:— Quando a gente crescer, você vai ser meu outro par de olhos?E, por anos, ela realmente foi.Aos poucos, a menininha das minhas lembranças se confundiu com a mulher sentada à minha frente. Quis dizer alguma coisa, mas não sabia o quê.Agora eu a entendia. Mas entendê-la não apagava o que aconteceu.Depois de um longo silêncio, olhei para Lena.— Isso ficou para trás. Seu arrependimento não muda o passado. Olhe para a frente.Peguei as bebidas e me levantei. Ela me seguiu até a porta e perguntou com cuidado:— Owen, algum dia você vai me perdoar?Permaneci de costas para ela.— Não sei. Agora, não consigo.
A iluminação era fraca, mas ainda consegui ver que os olhos de Lena estavam vermelhos.Eu não a entendia. Lembrava de cada minuto do encontro daquela primavera com a mesma nitidez do dia em que aconteceu.Então por que ela estava ali, daquele jeito?— Lena, foi você quem me pediu para te deixar em paz. Pensei no que disse e percebi que tinha razão. Eu não devia continuar prendendo você a mim.Ela deu dois passos rápidos na minha direção.— Não. Eu me arrependo daquela noite desde então. Disse coisas horríveis, mas não quis dizer nenhuma delas. Queria te pedir desculpas fazia tempo, só que você me bloqueou. Pensei em falar com você pessoalmente quando as aulas começassem. Fui à sua casa, mas sua mãe disse que você já estava em Lakeview.Havia mágoa em sua voz, quase uma súplica.— Owen, você pode me perdoar? Não seja tão duro comigo.— Duro com você?Por um instante, não entendi mesmo. Ainda ouvia as palavras que ela disse do lado de fora daquela sala. Ainda sentia os efeitos d
Lakeview ficava a cerca de três horas de casa. Se acontecesse alguma coisa séria, minha tia morava ali perto.Na maior parte do tempo, eu ficava no alojamento. Passava alguns fins de semana na casa dela e voltava para a minha nas férias mais longas.Além das aulas, entrei para dois clubes estudantis. Foi ali que encontrei pessoas que se interessavam pelas mesmas coisas que eu. Parei de esconder minha dificuldade de enxergar e de fingir que conseguia fazer coisas que não podia.Conforme fui tentando, descobri algo que me surpreendeu: havia muita coisa que eu conseguia fazer perfeitamente bem sozinho.Nas férias de inverno e verão, às vezes arrumava um trabalho de meio período. Na maioria das vezes, porém, viajava com meus pais.Quando a formatura se aproximou, percebi que fazia quase dois anos que não via Lena.Naquele verão, minha família planejou uma longa viagem de carro pelas montanhas rochosas. Poucos dias antes da partida, minha mãe me ligou.— Owen, sobre a viagem... A fam
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