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Capítulo 3

作者: Jéssica
Meu estojo caiu no chão, espalhando canetas, borrachas e uma régua. O cartão de inscrição para a prova escorregou até parar a pouco mais de um metro dali.

— Ah, foi mal. Não te vi.

Era um garoto que eu não estava reconhecendo, e por isso, não consegui lembrar de onde o conhecia. Não lhe dei atenção e me abaixei para pegar o cartão.

Meus dedos estavam prestes a alcançá-lo quando o garoto pisou no papel. Ele se inclinou até ficar perto do meu rosto e falou num tom carregado de deboche:

— Você é cego mesmo ou só faz cena? Seus olhos realmente parecem estranhos.

— Isso não é da sua conta.

Puxei o cartão, mas ele não saiu debaixo do sapato.

— Seja verdade ou mentira, você continua sendo um coitado que precisa da ajuda dos outros. Então para de se pendurar na Lena. Não seja tão egoísta, tá?

Ergui os olhos. Seu rosto me parecia vagamente familiar.

— Tira o pé. O que existe entre mim e Lena não é da sua conta.

— Nossa, você é mesmo...

Ele girou o sapato sobre o cartão, rasgando o papel fino ao meio. Antes que terminasse a frase, alguém o empurrou com força e o fez cambalear para o lado.

Lena estava ali, com uma expressão gelada.

— Qual é o seu problema?

O garoto ficou sem reação por um instante.

— Qual é o meu problema? Não fiz de propósito. Já pedi desculpas.

Lena recolheu o cartão rasgado e as canetas espalhadas, colocando tudo nas minhas mãos.

— Vou te levar até sua sala.

Segui atrás dela de cabeça baixa, com o estojo apertado contra o peito. Ao passarmos pelo garoto, ouvi seu comentário entre dentes:

— Esse ceguinho faz um drama por tudo.

Reconheci a voz. Era o garoto que esteve em frente ao meu prédio naquela noite, junto de Grant.

Lena me acompanhou até a sala onde eu faria a prova antes de ir procurar a dela. Por alguns minutos, tive a sensação de que tudo era como antes. Mas a frieza e a impaciência que senti nela não foram fruto da minha imaginação. Eu já não conseguia entendê-la.

Quando o SAT finalmente terminou, parecia que a escola inteira respirava mais leve. Naquela noite, terminei de organizar minhas anotações e peguei o celular.

Grant publicou a foto de um disco. A legenda dizia:

[Uma surpresa que veio na hora certa. Ainda não parei de ouvir. Obrigado pelo presente.]

Era exatamente o disco que dei a Lena, até a mensagem de aniversário que eu mesmo gravei na capa.

O presente que comprei para ela. E Lena o entregou a Grant.

A mágoa veio tão depressa que meus olhos arderam. Liguei para ela.

— Você deu ao Grant o presente de aniversário que eu te dei?

Ela respondeu com um murmúrio indiferente:

— É. Eu estava conversando com Grant e descobri que ele também gosta do disco. Então levei para ele ouvir.

Apertei o celular com força. Minha voz saiu rouca.

— Passei duas semanas procurando esse disco. Você deu meu presente a outra pessoa sem nem me avisar. Não acha que passou dos limites?

Lena pareceu irritada.

— É só um disco. Você me ligou para me julgar por causa de um disco?

— Não é pelo disco. Você desprezou tudo o que aquele presente significava para mim. — Minha voz saiu trêmula.

— Você me deu, então é meu e eu faço o que quiser com ele. Você não tem direito de se meter.

Abri a boca, mas não consegui dizer nada.

— Isso cansa.

Ela desligou.

Fiquei sentado, segurando o celular, com uma dor apertando meu peito. Eram exatamente as palavras que Lena disse no dia das fotos de formatura.

Depois daquela ligação, paramos de nos falar. Só nos vimos outra vez quando nossa turma organizou um encontro naquela primavera.

Eu não queria ir, mas era a primeira vez naquele ano que alguém organizava alguma coisa para a turma. Meus pais insistiram, e dona Carol ainda pediu a Lena que ficasse de olho em mim.

Foi nosso primeiro encontro desde a briga. Lena passou o trajeto inteiro de mau humor. Tentei puxar conversa algumas vezes, mas ela só respondia com um "hum" ou um "tá".

Logo, acabei desistindo.

Seguimos o resto do caminho em silêncio, como dois desconhecidos que, por acaso, sabiam tudo um sobre o outro.

O restaurante estava barulhento, com todos falando uns por cima dos outros. Fiquei apenas bebendo meu refrigerante e ouvindo as conversas.

Por causa da minha visão, não conseguia olhar para uma tela por muito tempo. Evitava o sol forte sempre que podia e, depois de escurecer, quase não enxergava nada. Basquete, jogos, passeios de bicicleta... Não havia uma única conversa naquela mesa da qual eu pudesse participar.

Mal sentamos e eu já queria ir embora.

Então alguém sugeriu brincar de verdade ou desafio. Depois de algumas rodadas, a garrafa apontou para Lena. Ela escolheu verdade.

Alguém abriu um sorriso.

— Lena, você cuida tão bem do Owen. Gosta dele?
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