ログイン— Owen. Quanto tempo.Fui pego de surpresa ao ver Grant se aproximar para falar comigo. Ele foi direto ao assunto.— Eu gostava da Lena. Você sabia, não sabia?Assenti. Ouvi um dos amigos dela comentar isso pela primeira vez no encontro da turma, naquela primavera.— Mas desisti. Sabe por quê?Grant não esperou minha resposta.— Porque tudo o que ela sentia passava por você. Quando ficava feliz, nervosa, frustrada ou com medo, tudo girava em torno de você. Mesmo naquela época, eu já via que não sobrava espaço para mim no coração dela. Não ia me enfiar à força na vida de vocês, então desisti.Eu não entendia por que ele me contava aquilo, mas logo veio o motivo.— Andam dizendo que você e Lena se afastaram. Não sei o que aconteceu entre vocês, mas fiquei preocupado de ter contribuído para isso. Por isso, queria esclarecer uma coisa: Lena e eu nunca chegamos a conversar de verdade sobre esse assunto. Nunca houve nada entre nós.Seu tom ficou sério.— E sobre o disco... Eu não s
Lembrei de quando era pequeno. Meus pais viviam me dizendo para não ficar sob o sol forte, mas eu não dava ouvidos. As outras crianças brincavam lá fora, e eu queria estar com elas.Só me assustava quando a claridade se tornava tão intensa que eu não conseguia manter os olhos abertos. Nessas horas, Lena segurava minha mão e ficava ali comigo.Num desses dias, perguntei:— Quando a gente crescer, você vai ser meu outro par de olhos?E, por anos, ela realmente foi.Aos poucos, a menininha das minhas lembranças se confundiu com a mulher sentada à minha frente. Quis dizer alguma coisa, mas não sabia o quê.Agora eu a entendia. Mas entendê-la não apagava o que aconteceu.Depois de um longo silêncio, olhei para Lena.— Isso ficou para trás. Seu arrependimento não muda o passado. Olhe para a frente.Peguei as bebidas e me levantei. Ela me seguiu até a porta e perguntou com cuidado:— Owen, algum dia você vai me perdoar?Permaneci de costas para ela.— Não sei. Agora, não consigo.
A iluminação era fraca, mas ainda consegui ver que os olhos de Lena estavam vermelhos.Eu não a entendia. Lembrava de cada minuto do encontro daquela primavera com a mesma nitidez do dia em que aconteceu.Então por que ela estava ali, daquele jeito?— Lena, foi você quem me pediu para te deixar em paz. Pensei no que disse e percebi que tinha razão. Eu não devia continuar prendendo você a mim.Ela deu dois passos rápidos na minha direção.— Não. Eu me arrependo daquela noite desde então. Disse coisas horríveis, mas não quis dizer nenhuma delas. Queria te pedir desculpas fazia tempo, só que você me bloqueou. Pensei em falar com você pessoalmente quando as aulas começassem. Fui à sua casa, mas sua mãe disse que você já estava em Lakeview.Havia mágoa em sua voz, quase uma súplica.— Owen, você pode me perdoar? Não seja tão duro comigo.— Duro com você?Por um instante, não entendi mesmo. Ainda ouvia as palavras que ela disse do lado de fora daquela sala. Ainda sentia os efeitos d
Lakeview ficava a cerca de três horas de casa. Se acontecesse alguma coisa séria, minha tia morava ali perto.Na maior parte do tempo, eu ficava no alojamento. Passava alguns fins de semana na casa dela e voltava para a minha nas férias mais longas.Além das aulas, entrei para dois clubes estudantis. Foi ali que encontrei pessoas que se interessavam pelas mesmas coisas que eu. Parei de esconder minha dificuldade de enxergar e de fingir que conseguia fazer coisas que não podia.Conforme fui tentando, descobri algo que me surpreendeu: havia muita coisa que eu conseguia fazer perfeitamente bem sozinho.Nas férias de inverno e verão, às vezes arrumava um trabalho de meio período. Na maioria das vezes, porém, viajava com meus pais.Quando a formatura se aproximou, percebi que fazia quase dois anos que não via Lena.Naquele verão, minha família planejou uma longa viagem de carro pelas montanhas rochosas. Poucos dias antes da partida, minha mãe me ligou.— Owen, sobre a viagem... A fam
Minha ausência deu a Lena o verão mais tranquilo que ela viveu em anos. Ainda assim, deixou um vazio dentro dela.Lena planejava aproveitar o começo da faculdade para fazer as pazes comigo. Mas não contava que eu simplesmente fosse embora.— Como ele pôde... Combinamos que íamos para Westbridge juntos.Ela murmurou quase para si mesma e depois olhou para minha mãe, sem saber como reagir.Minha mãe se surpreendeu.— Ele não conversou com você antes de ir? Pensei que sim.Lena balançou a cabeça sem nem perceber. Seu rosto perdeu a cor.Minha mãe se lembrou da nossa conversa no carro e deduziu boa parte do que aconteceu. Ela suspirou.— Lena, você cuidou do Owen durante todos esses anos. Deve ter sido muito difícil para você. Ele enxerga mal desde pequeno, então é claro que sempre me preocupei com ele. Como vocês cresceram juntos, nós nos acostumamos a deixá-lo aos seus cuidados. Sem nunca dizer isso em voz alta, coloquei sobre seus ombros uma responsabilidade que era minha.Ela
A mesa inteira irrompeu em gritos e provocações. Fiquei imóvel, com as mãos entrelaçadas debaixo dela.Não queria deixar Lena constrangida. Já ia dizer alguma coisa quando ela respondeu primeiro, sem mudar a expressão. Sua voz saiu fria.— Nem comecem. Nossas famílias são próximas. Owen enxerga mal, e meus pais me pediram para cuidar dele.Ela falou como se não fosse nada, mas as palavras atingiram meu peito como um bloco de gelo.Tudo o que guardei em segredo, todas as esperanças que alimentei... Do começo ao fim, só eu senti aquilo.Não consegui continuar à mesa. Levantei e fui ao banheiro, onde fiquei até conseguir controlar minha expressão.Na volta, ouvi vozes no corredor, perto do outro banheiro.— Lena, você vive grudada no Owen. Desse jeito, como vai arrumar um namorado? Ele mal enxerga e precisa que você cuide dele o tempo todo. Vai mesmo aceitar isso pelo resto da vida? O Grant claramente está a fim de você. Se perder uma chance dessas por causa de um coitado que vive