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last update publish date: 2026-08-30 17:10:27

Sofia Ferrari

Dezenove anos. Se alguém me dissesse aos dez que eu ainda estaria respirando o mesmo ar mofado e tóxico desta casa quase uma década depois, eu teria gargalhado na cara da pessoa ou me jogado da colina mais alta da Sicília. Provavelmente a segunda opção.

A água fria da pia corre entre os meus dedos, e por exatamente três segundos eu me permito fingir que isso é um momento de spa. O calor abafado da cozinha é sufocante, o tipo de mormaço que gruda na pele e faz a camisola parecer uma segunda camada de sofrimento. O sol do meio-dia atravessa as frestas da janela de madeira, desenhando retângulos dourados no chão de azulejo gasto.

A boa notícia? Minha querida tia Clotilde e o insuportável do meu tio Henrique já saíram. A má notícia? O silêncio que eles deixam para trás é tão pesado quanto a presença deles. É aquele tipo de quietude que parece vigiar cada movimento seu, lembrando que você é uma intrusa no próprio teto.

Esfrego a frigideira de ferro com tanta força que o sabão faz espumas gigantes. É o meu ritual diário: limpar a casa de cima a baixo como se eu pudesse, por algum milagre da química, esfregar a minha própria existência para fora deste lugar. Nove anos. Nove longos, intermináveis e miseráveis anos morando com os únicos parentes vivos que me restaram após a morte dos meus pais.

Amanhã é meu aniversário de dezenove anos. E sabe qual é a programação festiva? Absolutamente nada. Zero bolo, zero velas, zero parabéns e um total de zero sorrisos. Para mim, a data é só um lembrete doloroso de que faz exatamente nove anos que papai e mamãe se foram, levando consigo toda a cor da minha vida e me deixando neste orfanato informal movido a rancor e abusos disfarçados de caridade.

Uma lágrima teimosa escapa do meu olho esquerdo. Solto um palavrão baixinho e tento enxugá-la com as costas da mão suja de detergente. Grande erro. O sabão entra direto na minha íris, e a sensação é de que alguém acendeu um palito de fósforo diretamente na minha córnea.

— Mas que droga! — resmungo, fechando os olhos com força. A dor é um facho de fogo líquido.

Dando passos em falso para trás, cega pelo sabão e pela estupidez do momento, puxo a barra do meu vestido florido para tentar limpar o rosto. Eu só consigo piorar tudo. O tecido grosso espalha o produto e gruda na minha pele, me fazendo parecer uma estátua tonta no meio da cozinha.

Meu calcanhar b**e contra a estrutura de metal da geladeira, e o impacto surdo me faz soltar outro muxoxo. Estendo a mão para tentar me apoiar no balcão, mas antes que meus dedos alcancem a foma de madeira, o ar ao meu redor muda.

A temperatura da cozinha não caiu, mas o meu sangue congelou instantaneamente.

Há um cheiro no ar. Não é o cheiro habitual de alho frito ou do desinfetante barato de pinho. É um perfume masculino pesado, amadeirado, impregnado com notas fortes de tabaco, suor e uma dose indigesta de prepotência.

Antes que minha mente cega de sabão consiga processar o perigo, dois braços rígidos e grossos envolvem a minha cintura por trás. Mãos possessivas me prensam contra o metal gelado da geladeira, com uma força que deixa claro que a pessoa ali não está pedindo licença. É uma reivindicação.

— Não era bem assim que eu esperava ser recebido em casa, pequena. Precisa de ajuda com os olhos ou está só treinando para ser cega? — A voz do tio Henrique sopra diretamente contra a curva do meu pescoço. É baixa, rouca e carregada daquele tom aveludado repugnante que me faz querer arrancar a própria pele.

O medo rasteja pela minha coluna como uma centopeia de gelo. Viro a cabeça para o lado oposto, piscando freneticamente enquanto a água dos meus olhos tenta expulsar a química do detergente. Quando minha visão finalmente foca, me deparo com a figura dele.

O olhar de Henrique não está no meu rosto. Ele desce lentamente pelo meu vestido florido, analisando a curva do meu quadril e o tecido esticado sobre o meu peito como se estivesse avaliando o gado na feira. Ele solta um suspiro pesado e quente contra a minha saboneteira, um som que me causa uma náusea tão violenta que chego a dar um leve salto.

— O que você está fazendo aqui? Você devia estar na oficina — digo, a voz saindo mais trêmula do que meu orgulho gostaria de admitir.

Num movimento rápido, puxo o decote do meu vestido para cima e me contorço para quebrar o contato dos corpos. Minhas mãos estão tremendo incontrolavelmente. Ajeito a saia, cobrindo cada milímetro de pele exposta enquanto tento engolir a fúria. Ele me encara com aquele sorriso torto e presunçoso de quem sabe exatamente o efeito desagradável que causa.

— Esqueci minha garrafa de água. Tenho todo o direito de entrar na minha própria casa, não acha? — Ele se aproxima mais um passo, bloqueando minha rota de fuga para a sala. — Onde ela está?

— Está no chão, ao lado da porta... — respondo, dando um passo lateral e mantendo as costas coladas no balcão da pia.

Henrique gira a cabeça com a lentidão calculada de um predador que sabe que a presa não tem para onde correr. Ele olha para a garrafa de plástico amassada no chão, mas não faz menção de se abaixar. Em vez disso, seus olhos voltam para mim, brilhando com uma malícia mal disfarçada.

— Enche com água gelada para mim? A água daqui é sempre mais fresca quando é você quem serve.

A frase vem disfarçada de pedido, mas o tom é um comando explícito. Ele gosta da dinâmica. Ele ama me ver acuada, me curvando para realizar tarefas domésticas idiotas enquanto ele consome cada pedaço do meu espaço pessoal.

— Claro... — murmuro, tentando engolir o bile que sobe pela minha garganta.

Passo por ele em uma esquiva rápida, mantendo a maior distância física que o espaço estreito da cozinha permite. Abro a porta do freezer e a névoa de ar congelado atinge meu rosto como um alívio abençoado. As garrafas de água de vidro estão empilhadas lá no fundo, atrás de sacos de vegetais e carnes congeladas.

Estendo o braço, ficando na ponta dos pés para alcançar a garrafa mais funda. O movimento faz com que minhas costas se arquem e meu vestido suba alguns centímetros na coxa.

Eu deveria ter imaginado. Deveria ter previsto que ele não perderia a oportunidade.

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