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last update Tanggal publikasi: 2026-08-30 17:11:03

Em menos de dois segundos, o calor sufocante do corpo de Henrique se cola às minhas costas novamente. Ele se pressiona contra mim com o peso inteiro do seu corpo, prendendo meu quadril entre ele e a porta aberta do freezer. A sensação da virilha dele colada no meu vestido é uma violação tão direta que me faz soltar um arfar de puro terror.

— Precisa que eu pegue lá no fundo para você, Sofia? Você é tão pequenininha... — a voz dele vem como um sussurro viscoso no meu ouvido esquerdo, a mão direita descendo audaciosamente pela minha cintura até a dobra da minha coxa.

— Me solta, Henrique! Não preciso de nada, me deixa passar! — rono, tentando dar uma cotovelada para trás, mas ele é o triplo do meu tamanho e usa o próprio peso para me imobilizar contra o eletrodoméstico.

— Ah, vamos lá, não precisa agir como se não gostasse da minha atenção. Eu cuido de você melhor do que a sua tia, você sabe di...

O resto da frase dele é sumariamente atropelado pelo som da porta da frente sendo escancarada com tanta violência que a maçaneta abre um buraco no reboco da parede.

— O QUE É QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! — a voz de Clotilde corta o ar como uma lâmina de guilhotina caindo.

Ela entra na cozinha como um furação desgovernado, as sacolas de compras voando longe e se esparramando pelo chão. O rosto da minha tia está contorcido em uma máscara de ódio puro, os lábios finos reduzidos a uma linha sangrenta e os olhos saltados das órbitas.

Antes que eu possa empurrar Henrique ou formular qualquer frase lógica de defesa, a mão pesada de Clotilde voa pelo ar.

ESTALO.

O tapa atinge o lado esquerdo do meu rosto com uma força tão descomunal que minha cabeça dá uma volta completa para a direita. Minha visão se enche de pontos brilhantes e dourados, e meus joelhos cedem instantaneamente. Caio de lado contra o azulejo frio, a bochecha queimando como se alguém tivesse encostado um ferro de passar rastejante na minha pele.

— Sua cadela imunda! Sua vadia sem vergonha! — Clotilde berra, descontrolada, a voz falhando pelo pico de adrenalina. Ela avança sobre mim no chão, os dedos curvados como garras prontas para arrancar meus olhos. — Eu sabia! Eu sabia que você estava se oferecendo para ele!

— O quê?! Não! Foi ele que... — tento gritar, cobrindo o rosto com os braços enquanto me encolho contra o armário.

— Cale a boca, sua garota suja! Você acha que eu sou cega?! Você fica provocando o meu marido dentro da minha própria casa! — Ela me desfere um chute na canela, o bico do seu sapato de couro atingindo em cheio o meu osso.

A dor é tão aguda que as lágrimas represadas finalmente transbordam, quentes e involuntárias.

— Chega, Clotilde! Ficou louca, mulher?! — Henrique intervém de repente, segurando os pulsos da esposa e a empurrando para trás com uma facilidade quase desdenhosa.

Ele finge uma aura de indignação moral tão perfeitamente treinada que daria inveja a atores de Hollywood.

— A garota estava se afogando no sabão e quase caiu em cima de mim! Você surtou de vez? Vai dar o seu espetáculo lá fora! Vai! — Henrique grita, empurrando Clotilde em direção ao corredor da sala.

— Eu vi! Eu vi vocês dois colados! Você me paga, Henrique! E essa fedelha vai para o olho da rua! — ela vocifera, tropeçando nos próprios pés enquanto é arrastada para longe da cozinha.

Aproveito o segundo de distração da briga deles para me arrastar pelo chão, me levantando com as pernas bambas. Minha bochecha está inchando visivelmente, e o gosto de sangue ferroso preenche minha boca — devo ter mordido a parte interna da bochecha com o impacto do tapa.

Saio em disparada pela porta dos fundos, alcançando o pequeno quintal de terra batida e ervas daninhas nos fundos da casa. Me encosto no muro de pedra áspera e respiro o ar gelado do final da tarde siciliana, tentando fazer meu coração parar de espancar minhas costelas.

Lá dentro, o caos é absoluto. Consigo ouvir os gritos de Clotilde ecoando pelas janelas, seguidos pelo som estarrecedor de madeira se partindo. Henrique está destruindo a casa. Ele começa a gritar palavrões e a arremessar objetos — uma cadeira de jantar é espatifada contra a parede, um vaso de cerâmica se transforma em mil pedaços no azulejo. Os cães dos vizinhos começam a uivar e latir em resposta à gritaria, criando uma sinfonia infernal de loucura familiar.

Fico parada no meio das ervas daninhas, abraçando meus próprios braços, tremendo dos pés à cabeça. A vergonha me consome como ácido. Não é a primeira vez que isso acontece, mas a sensação de impotência nunca diminui. É como ser um pedaço de mobília descartável que dois adultos surtados usam para descarregar suas frustrações existenciais.

Depois de uns vinte minutos, o som das louças se quebrando cessa. A porta dos fundos se escancara com um baque seco e Henrique sai em disparada, atravessando o quintal sem nem me olhar, o rosto vermelho de raiva e as mãos sangrando levemente. Ele rebate o portão de ferro da rua e desaparece na noite.

O silêncio retorna, mais sinistro do que antes.

Respiro fundo, limpo o sangue do canto da boca com as costas da mão e dou passos hesitantes para dentro de casa. Preciso pegar minhas coisas. Preciso de um banho. Preciso de qualquer coisa que me faça sentir humana de novo.

Quando coloco os pés na sala, fico paralisada.

Clotilde está sentada no sofá manchado, respiração ruidosa. Mas há algo de terrivelmente novo na cena: o lado direito do rosto dela está vermelho e começando a roxear. Um hematoma perfeito na forma de um punho. Henrique bateu nela antes de sair.

Assim que meus pés descalços fazem estalar um caco de cerâmica no chão, os olhos pequenos e escuros de Clotilde se cravam em mim. O olhar não é de dor ou de humilhação por ter apanhado do marido. É de puríssimo veneno concentrado direcionado a mim.

— Você sempre foi uma putinha — ela diz, a voz baixa, fria e calma. É uma calma muito mais aterrorizante do que os gritos de antes. — Igualzinha à sua mãe quando era criança.

A frase me atinge como um soco direto no estômago. Todo o pânico que me dominava nos últimos trinta minutos evaporou instantaneamente, substituído por uma onda colossal e escaldante de raiva pura.

— Não fale assim da minha mãe — minha voz sai grave, trêmula, mas carregada de uma perigosidade que eu nem sabia que era capaz de emitir.

Clotilde solta uma risada amarga, um som seco e estalado que faz meus dentes rangerem.

— Sua mãe era uma inútil. Uma garota fútil que achava que o mundo girava ao redor dela. E você é o resto do lixo que ela deixou para trás. Não me faça perder o meu tempo olhando para essa sua cara de coitada.

Ela se inclina para a frente, passando a mão pelos cabelos desgrenhados e tentando ajustar o tecido da blusa, tentando desajeitadamente esconder o hematoma que Henrique deixou na sua bochecha. É uma tentativa patética de manter o controle.

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