MasukEm menos de dois segundos, o calor sufocante do corpo de Henrique se cola às minhas costas novamente. Ele se pressiona contra mim com o peso inteiro do seu corpo, prendendo meu quadril entre ele e a porta aberta do freezer. A sensação da virilha dele colada no meu vestido é uma violação tão direta que me faz soltar um arfar de puro terror.
— Precisa que eu pegue lá no fundo para você, Sofia? Você é tão pequenininha... — a voz dele vem como um sussurro viscoso no meu ouvido esquerdo, a mão direita descendo audaciosamente pela minha cintura até a dobra da minha coxa. — Me solta, Henrique! Não preciso de nada, me deixa passar! — rono, tentando dar uma cotovelada para trás, mas ele é o triplo do meu tamanho e usa o próprio peso para me imobilizar contra o eletrodoméstico. — Ah, vamos lá, não precisa agir como se não gostasse da minha atenção. Eu cuido de você melhor do que a sua tia, você sabe di... O resto da frase dele é sumariamente atropelado pelo som da porta da frente sendo escancarada com tanta violência que a maçaneta abre um buraco no reboco da parede. — O QUE É QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?! — a voz de Clotilde corta o ar como uma lâmina de guilhotina caindo. Ela entra na cozinha como um furação desgovernado, as sacolas de compras voando longe e se esparramando pelo chão. O rosto da minha tia está contorcido em uma máscara de ódio puro, os lábios finos reduzidos a uma linha sangrenta e os olhos saltados das órbitas. Antes que eu possa empurrar Henrique ou formular qualquer frase lógica de defesa, a mão pesada de Clotilde voa pelo ar. ESTALO. O tapa atinge o lado esquerdo do meu rosto com uma força tão descomunal que minha cabeça dá uma volta completa para a direita. Minha visão se enche de pontos brilhantes e dourados, e meus joelhos cedem instantaneamente. Caio de lado contra o azulejo frio, a bochecha queimando como se alguém tivesse encostado um ferro de passar rastejante na minha pele. — Sua cadela imunda! Sua vadia sem vergonha! — Clotilde berra, descontrolada, a voz falhando pelo pico de adrenalina. Ela avança sobre mim no chão, os dedos curvados como garras prontas para arrancar meus olhos. — Eu sabia! Eu sabia que você estava se oferecendo para ele! — O quê?! Não! Foi ele que... — tento gritar, cobrindo o rosto com os braços enquanto me encolho contra o armário. — Cale a boca, sua garota suja! Você acha que eu sou cega?! Você fica provocando o meu marido dentro da minha própria casa! — Ela me desfere um chute na canela, o bico do seu sapato de couro atingindo em cheio o meu osso. A dor é tão aguda que as lágrimas represadas finalmente transbordam, quentes e involuntárias. — Chega, Clotilde! Ficou louca, mulher?! — Henrique intervém de repente, segurando os pulsos da esposa e a empurrando para trás com uma facilidade quase desdenhosa. Ele finge uma aura de indignação moral tão perfeitamente treinada que daria inveja a atores de Hollywood. — A garota estava se afogando no sabão e quase caiu em cima de mim! Você surtou de vez? Vai dar o seu espetáculo lá fora! Vai! — Henrique grita, empurrando Clotilde em direção ao corredor da sala. — Eu vi! Eu vi vocês dois colados! Você me paga, Henrique! E essa fedelha vai para o olho da rua! — ela vocifera, tropeçando nos próprios pés enquanto é arrastada para longe da cozinha. Aproveito o segundo de distração da briga deles para me arrastar pelo chão, me levantando com as pernas bambas. Minha bochecha está inchando visivelmente, e o gosto de sangue ferroso preenche minha boca — devo ter mordido a parte interna da bochecha com o impacto do tapa. Saio em disparada pela porta dos fundos, alcançando o pequeno quintal de terra batida e ervas daninhas nos fundos da casa. Me encosto no muro de pedra áspera e respiro o ar gelado do final da tarde siciliana, tentando fazer meu coração parar de espancar minhas costelas. Lá dentro, o caos é absoluto. Consigo ouvir os gritos de Clotilde ecoando pelas janelas, seguidos pelo som estarrecedor de madeira se partindo. Henrique está destruindo a casa. Ele começa a gritar palavrões e a arremessar objetos — uma cadeira de jantar é espatifada contra a parede, um vaso de cerâmica se transforma em mil pedaços no azulejo. Os cães dos vizinhos começam a uivar e latir em resposta à gritaria, criando uma sinfonia infernal de loucura familiar. Fico parada no meio das ervas daninhas, abraçando meus próprios braços, tremendo dos pés à cabeça. A vergonha me consome como ácido. Não é a primeira vez que isso acontece, mas a sensação de impotência nunca diminui. É como ser um pedaço de mobília descartável que dois adultos surtados usam para descarregar suas frustrações existenciais. Depois de uns vinte minutos, o som das louças se quebrando cessa. A porta dos fundos se escancara com um baque seco e Henrique sai em disparada, atravessando o quintal sem nem me olhar, o rosto vermelho de raiva e as mãos sangrando levemente. Ele rebate o portão de ferro da rua e desaparece na noite. O silêncio retorna, mais sinistro do que antes. Respiro fundo, limpo o sangue do canto da boca com as costas da mão e dou passos hesitantes para dentro de casa. Preciso pegar minhas coisas. Preciso de um banho. Preciso de qualquer coisa que me faça sentir humana de novo. Quando coloco os pés na sala, fico paralisada. Clotilde está sentada no sofá manchado, respiração ruidosa. Mas há algo de terrivelmente novo na cena: o lado direito do rosto dela está vermelho e começando a roxear. Um hematoma perfeito na forma de um punho. Henrique bateu nela antes de sair. Assim que meus pés descalços fazem estalar um caco de cerâmica no chão, os olhos pequenos e escuros de Clotilde se cravam em mim. O olhar não é de dor ou de humilhação por ter apanhado do marido. É de puríssimo veneno concentrado direcionado a mim. — Você sempre foi uma putinha — ela diz, a voz baixa, fria e calma. É uma calma muito mais aterrorizante do que os gritos de antes. — Igualzinha à sua mãe quando era criança. A frase me atinge como um soco direto no estômago. Todo o pânico que me dominava nos últimos trinta minutos evaporou instantaneamente, substituído por uma onda colossal e escaldante de raiva pura. — Não fale assim da minha mãe — minha voz sai grave, trêmula, mas carregada de uma perigosidade que eu nem sabia que era capaz de emitir. Clotilde solta uma risada amarga, um som seco e estalado que faz meus dentes rangerem. — Sua mãe era uma inútil. Uma garota fútil que achava que o mundo girava ao redor dela. E você é o resto do lixo que ela deixou para trás. Não me faça perder o meu tempo olhando para essa sua cara de coitada. Ela se inclina para a frente, passando a mão pelos cabelos desgrenhados e tentando ajustar o tecido da blusa, tentando desajeitadamente esconder o hematoma que Henrique deixou na sua bochecha. É uma tentativa patética de manter o controle.— Vamos te dar um pouco de dinheiro para você se virar aqui na Itália — diz Antônio com um sorriso preocupado, tentando amenizar o golpe, como se as notas pudessem curar a ferida. Como se o dinheiro pudesse comprar um pouco de paz.Engulo seco, ainda tentando processar o que acabara de ouvir. Itália? Como vim parar aqui? Eu não sabia onde estava indo, apenas corri sem rumo, sem saber em que direção estava indo — apenas fugindo daquele inferno, das memórias que me perseguiam. A sensação de estar tão perdida, sem saber onde estava, é esmagadora. Como se o chão tivesse desaparecido sob meus pés e eu estivesse caindo em um abismo sem fundo.— Não, não precisa. Eu vou dar um jeito — falo, tentando me mostrar mais forte do que me sinto, erguendo o queixo em um gesto de desafio. Não queria depender de ninguém, especialmente depois de tudo o que passei, depois de ter sido tão vulnerável. Minha voz sai mais firme do que eu esperava — mas por dentro estou despedaçada, cada palavra um esforço.M
A senhora me olha com uma expressão de dor profunda, como se minha história fosse também sua. Mas também de compreensão, de uma sabedoria que vem de ter visto o pior da humanidade. Ela se aproxima um pouco mais, sua voz reconfortante e baixa, como se estivesse falando com uma criança assustada:— Sinto muito, minha querida... ninguém merece passar por isso. Mas, agora, você está a salvo. Está tudo bem. Ninguém vai te machucar aqui.Sinto-me tocada por suas palavras, o conforto delas quase me faz esquecer por um momento tudo o que aconteceu. Como se um bálsamo fosse derramado sobre minhas feridas. Olho para os dois, e vejo os sorrisos deles — não eram sorrisos de pena, que me fariam sentir menor. Mas de algo mais, algo que eu não sabia reconhecer, mas que me fazia sentir que, talvez, ainda houvesse algo de bom neste mundo. Algo pelo qual valesse a pena continuar lutando, mesmo quando tudo parecia perdido.O senhor, com um olhar gentil que parece enxergar além das aparências, desvia a a
Olho para a senhora, que já está entrando no banco da frente com um movimento cuidadoso, e então, com um movimento suave, o carro começa a se mover, o motor roncando baixo. Eles seguem viagem, e eu não sei para onde estamos indo — mas a sensação de alívio é palpável, como se um peso enorme tivesse sido tirado de meus ombros. Como se eu pudesse respirar novamente. A estrada à minha frente parece menos ameaçadora, e pela primeira vez em muito tempo, não me sinto completamente sozinha. Não me sinto uma ilha à deriva.Apesar de tudo o que vivi, a gratidão por esse pequeno gesto de humanidade preenche o vazio dentro de mim — um vazio que parecia infinito. Não sei o que o futuro reserva, se haverá amanhã ou se tudo acabará em mais dor. Mas, por agora, sou grata. Grata por aquele lençol quente que me aquece, por aquele saquinho de amendoim que sacia minha fome, por aquelas vozes gentis que me lembraram que ainda existe bondade no mundo. Que nem todos os homens são monstros.Talvez, penso, en
Ela está certa, e a dura realidade da estrada se reflete em minha mente como um espelho cruel, mostrando cada cicatriz que eu poderia ganhar. Vi muitos caminhoneiros passando enquanto caminhava — seus olhares pesados como chumbo, suas buzinas provocativas que rasgavam o silêncio. O medo correndo em minhas veias toda vez que um carro se aproximava, cada farol uma ameaça. Eles eram perigosos, e eu sabia disso com uma certeza que vinha do instinto, do corpo que aprendera a reconhecer o perigo.Antes que eu possa falar algo, o senhor no volante quebra o silêncio com uma voz grave, mas calma, que parece vir de um lugar de sabedoria acumulada:— Não podemos deixá-la aqui sozinha, pode ser perigoso. A estrada não é lugar para uma menina.A senhora estende a mão em minha direção, o gesto calmo, mas firme, como se ela entendesse minha dor sem precisar de palavras. Como se suas mãos já tivessem segurado muitas outras mãos em momentos de desespero. Sua voz suave me alcança, trazendo uma sensação
A velha senhora parece inofensiva, frágil até, com suas mãos enrugadas e seu coque de cabelos grisalhos. Mas ao mesmo tempo, é difícil confiar em qualquer pessoa depois de tudo o que vivi, depois de todas as promessas quebradas. Seu olhar é gentil, um olhar que parece ter visto muitas dores e muitas alegrias. Mesmo que eu saiba que minha situação não é algo fácil de compreender, que minhas palavras podem soar como loucura.Com a voz trêmula, respondo, quase em um sussurro — como se as palavras pesassem toneladas e eu mal pudesse carregá-las:— Eu fugi de casa...O senhor no volante arregala os olhos, claramente surpreso, uma ruga se formando em sua testa como uma paisagem montanhosa. Logo os dois se encaram, trocando um olhar que diz mais do que palavras poderiam expressar — um diálogo silencioso de preocupação e decisão, daqueles que casais desenvolvem depois de décadas juntos. Um silêncio pesado se instala por um momento, e o ar parece ficar denso, como se tudo ao nosso redor parass
Sofia FerrariCaminho pela estrada de terra batida sem rumo, por horas que parecem uma eternidade suspensa no tempo — e olha que eu já passei por algumas eternidades na minha curta vida. O tempo se tornou uma névoa turva e imprecisa, como se alguém tivesse borrado o relógio com os dedos sujos de graxa. Não sei que horas são, mas sei que a noite já está quase acabando, exausta de si mesma, como uma velha senhora que finalmente decide se aposentar. O céu começa a clarear lentamente no horizonte, tingindo o negro profundo com tons azulados e acinzentados — uma pintura que aos poucos ganha vida, como se Deus estivesse acordando e espreguiçando os braços. Sinalizando que a manhã está chegando para testemunhar meu desespero. Que honra, não? A natureza inteira de plateia para o meu drama particular.Continuo andando, com os pés descalços tocando o chão gelado e áspero. Cada pedra uma agulha, cada poça de lama um lembrete da minha queda. A única proteção que tenho é a camisola fina que mal co







