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last update publish date: 2026-08-30 17:11:34

— Seu marido não me deixa em paz desde que eu pisei nesta casa com dez anos de idade! — eu grito, a voz rasgando minha garganta e ecoando pelo teto alto de madeira. — A culpa é DELE! Ele é um nojento e você é uma covarde que prefere me culpar a encarar o monstro com quem você casa!

O rosto de Clotilde se contorce de uma forma grotesca. Em um piscar de olhos, ela se projeta do sofá com uma agilidade assustadora para a sua idade e avança sobre mim.

Antes que eu possa me esquivar, suas mãos engancham no meu cabelo e me puxam para baixo com fúria. Meu couro cabeludo parece que vai se rasgar inteiro. Perco o equilíbrio e caio de joelhos no chão repleto de cacos de vidro e cerâmica.

— Sua desgraçada! — ela esbraveja, montando na minha barriga e usando o próprio peso para me prender ao chão.

Ela começa a desferir t***s furiosos e desordenados contra o meu rosto e ombros. Tento me defender, levantando os braços, mas a posição dela é superior. Cada tapa e cada puxão de cabelo me fazem soltar pequenos gemidos de dor abafados.

— Você não tem direito de abrir a sua boca para falar do meu casamento! — ela grita, me desferindo um tapa tão violento no ouvido direito que minha cabeça zumbe como uma colmeia. — Você não é nada! É uma parasita! Uma puta insignificante que vive às minhas custas!

Eu tento me debater, tento empurrá-la, mas o cansaço acumulado de anos e o choque da agressão travam meus músculos. Em um último puxão violento, Clotilde rasga a alça esquerda do meu vestido florido, expondo meu ombro e parte do meu seio direito ao ar frio da sala.

Ela para por um segundo, arfando pesadamente sobre mim, me encarando com os olhos transbordando desprezo.

— Se você ousar contar para o Henrique que eu encostei a mão em você, ou se tentar dar mais um dos seus showzinhos de vítima para ele... eu juro por Deus que acabo com a sua raça, Sofia. Eu te coloco na rua da amargura sem um centavo e com a cara quebrada. Entendeu?!

Ela sai de cima de mim com um empurrão final, ajeitando as próprias roupas com a elegância assustadora de quem acabou de tomar um xícara de chá. Ela não me olha mais. Simplesmente dá a volta nos cacos espalhados pela sala e caminha em direção ao banheiro.

— Vá tomar um banho para tirar esse cheiro de sujeira do corpo. E limpe essa bagunça antes que eu volte — ela ordena do corredor, a voz novamente plana, gelada e indiferente.

A porta do banheiro se fecha e o som do chuveiro sendo ligado ecoa pela casa.

Fico deitada de lado no chão frio de cerâmica, os braços cruzados sobre o peito para cobrir o vestido rasgado. As lágrimas finalmente descem sem qualquer controle, quentes, amargas e pesadas, caindo sobre os cacos quebrados ao meu redor.

Estou destruída. Meu corpo inteiro dói. Minha bochecha lateja, meu joelho está cortado por um caco de vidro e meu couro cabeludo queima. Mas a dor física não é nada comparada ao abismo no meu peito.

Mamãe... papai... por favor... me tirem daqui.

O pensamento vem como uma prece desesperada e infantil para o nada. Sinto uma saudade tão avassaladora dos meus pais que a sensação é de estar sufocando em ar rarefeito. Lembro do cheiro do perfume de baunilha da minha mãe, das piadas bobas do meu pai na mesa do café, da sensação de estar absolutamente segura entre dois braços que me amavam.

Aqui? Eu sou apenas uma presa. Um alvo de agressão. Uma sombra que incomoda.

Levo cerca de dez minutos para conseguir me arrastar do chão. Reúno os últimos pedaços do meu orgulho esfarrapado e me levanto devagar. Dou um nó improvisado na alça rasgada do vestido para cobrir meu corpo e me encaro no pequeno espelho pendurado no corredor.

O reflexo me devolve a imagem de uma garota com olhos vermelhos, lábio cortado e uma marca roxa emergindo na bochecha esquerda. Mas, sob a camada de dor e pavor, vejo algo novo surgindo no fundo das minhas íris.

Uma fagulha escura.

Amanhã eu faço dezenove anos. Não sou mais a garotinha de dez anos que chorava no canto do depósito enquanto eles gritavam.

Amanhã, minha vida começa a mudar. Nem que eu tenha que incendiar esta casa com os dois dentro.

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