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CAPÍTULO 6

Author: Canto da Névoa
Vinícius não mudou a expressão, mas os olhos ficaram escuros e frios, como se a própria presença de Susana o incomodasse.

Ivan e Felipe travaram.

Aquilo não era passar do limite?

Era uma mudança de estratégia para chamar a atenção de Vinícius?

E pedir desculpas em público?

Isso não era querer usar o pedido de desculpas para jogar Yasmin na lama na frente de todo mundo?

Yasmin fechou a cara e ergueu o canto da boca, como se fosse a vítima ali:

— Susana, você não acha que já chega?

Susana olhou para a certeza com que ela falava e viu, pela primeira vez, como era fácil para Yasmin inverter tudo e ainda sair como coitada.

Quando alguém já decidiu uma coisa, Susana não queria gastar nem um pingo de energia explicando, se defendendo, provando.

Ela já ia se divorciar, ficar se enroscando com gente podre só ia irritar ainda mais.

Susana virou as costas e foi embora.

Mas quando passou por Vinícius, os olhos indiferentes dele se fixaram nela, e ele ergueu de leve o canto da boca, sem explicar o que significava.

Ele falou devagar:

— Jogo de morde e assopra?

Susana não entendeu na hora:

— O quê?

Vinícius baixou um pouco o olhar e soltou um riso curto:

— E agora, por que não retruca?

Agora há pouco, a língua não estava afiada?

Susana entendeu, e os olhos ficaram vermelhos.

Foi raiva.

Para ele, tudo o que ela sentia, o desespero, a dor, o cansaço, a escolha de se retirar, virava estratégia, virava artimanha.

Até quando ela estava a ponto de morrer de tanto engolir, ainda era fingimento.

Ela não era Yasmin, não tinha um monte de gente segurando a mão dela.

Se ela discutisse, ia ficar mais humilhante.

E, além disso, para Vinícius ela ainda estava fazendo cena, e ele só estava chamando ela de imatura.

Não importava o que ela dissesse ou fizesse, ele não confiaria nela nem um pouco.

Então por que falar mais?

Susana foi se acalmando, sem força para brigar. Ela concordou como se estivesse colaborando:

— Então eu desejo felicidades para vocês dois, serve?

E saiu sem olhar para trás.

Três meses.

Ela só precisava aguentar mais três meses e pôr fim de vez a esse casamento que fazia o peito dela apodrecer por dentro.

Vinícius lançou um olhar de lado.

Dois segundos.

Depois desviou, como se não valesse a pena lidar com aquela emoção cheia de espinhos.

Com algumas emoções, era só deixá-las esfriar, e tudo ficava como se nunca tivesse existido.

Esse tinha sido o jeito deles durante sete anos.

Susana não contou para Yuri o que tinha acontecido lá em cima. Ela não queria ver Yuri perdendo a cabeça e indo brigar com alguém.

Ela também não tinha ânimo para comer. Depois de se separar de Yuri, ela voltou para o apartamento e foi arrumar as malas.

Quando terminou quase tudo, já estava perto das nove.

Só então percebeu que não tinha trazido o livro de medicina que o professor tinha mandado.

Susana coçou o cabelo e suspirou. Ela lembrou que tinha deixado no cofre da casa conjugal.

Ela não perdeu tempo. Pegou qualquer casaco, entrou no carro e foi até a casa.

De qualquer forma, Vinícius quase nunca voltava. Ela não ia esbarrar com ele.

Ela subiu, abriu a porta do quarto e, de repente, encontrou o olhar dele.

Vinícius estava em frente à janela. O celular na mão estava numa chamada de vídeo e, num flash, Susana viu o rosto de Yasmin na tela.

Eles pareciam… um casal grudado, que queria se ver o tempo inteiro.

Vinícius franziu a testa ao olhar para Susana. Sem nenhum calor no tom de voz, ele perguntou:

— Por que você não bateu?

Susana ficou parada.

Ela era a esposa dele. Era a casa onde ela morava havia sete anos. Mas, porque ele estava em chamada com Yasmin, agora existia uma regra de bater na porta?

— Sai daqui — Vinícius ordenou, duro.

Como se ela tivesse entrado de propósito para ficar ouvindo.

O coração de Susana apertou de repente.

Ela fechou a porta na hora e recuou.

Ela não tinha prazer nenhum em se enfiar no meio para ouvir o quanto o caso do marido com outra mulher podia ser doce.

Quando desceu, Dona Carla já tinha ouvido o barulho e apareceu.

Ao ver Susana, ela falou direto:

— Sra. Susana, a Sra. Otília está na linha.

Susana olhou para o telefone fixo.

Ela hesitou, mas foi até lá.

Dona Carla sabia que Susana não recebia atenção do marido, mas que a matriarca da família ainda tratava Susana bem. Ela não ficou bisbilhotando e subiu para recolher o cesto de roupa.

— Susana? — A voz de Dona Otília veio do outro lado, mansa.

Susana olhou a hora e lembrou do livro:

— Vó, a senhora ainda não dormiu?

Dona Otília reclamou, mas com carinho:

— Eu ainda aguento. Ando até aprendendo a virar a noite com vocês, jovens. E, no pior dos casos, com os remédios que você sempre manda, eu fico bem.

Susana ficou em silêncio, esperando.

E, como ela já imaginava, Dona Otília foi direto ao ponto, rindo:

— Susana, você entende de medicina. Por que não prepara uns remédios para regular o corpo? Você vai se preparando para engravidar e ter um bebê saudável. Você sabe, na família Santos tem mais homem do que mulher. Seria tão bom ter uma bisneta comportada. E filho também aproxima o casal. O Vinícius gosta muito de criança.

O assunto de ter filho nunca tinha parado nesses anos.

Ela não tinha deixado escapar nem uma sombra da existência da Letícia.

Agora que ela tinha decidido se divorciar, muito menos ia contar.

E, mesmo que não se divorciasse, de que adiantava ela se preparar?

Vinícius era frio, não tinha o que forçar.

Além disso, ele mesmo já tinha dito que não teria filhos.

Dona Otília não tinha como não saber do boato.

E mesmo assim mandava ela tomar remédio e ajustar o corpo.

Susana sentiu que mulher, nesse mundo, era sugada, espremida e ainda carregava culpas que nem existiam.

Era injusto demais.

Mas, para encerrar o assunto, Susana apertou os dedos e falou sem esconder:

— Vó, eu vou me divorciar do Vinícius.

Do outro lado, ficou um silêncio.

Um silêncio de choque.

Depois de um tempo, Dona Otília falou, travada:

— A vó sabe que você sofreu. O Vinícius é desse jeito, ele não sabe amar, mas pelo menos ele sempre manteve respeito. Susana, pensa mais um pouco.

— Eu já decidi.

Dona Otília ficou quieta por um instante. Prendeu a respiração, suspirou fundo e, na hora, assumiu uma posição:

— A família Santos te deve. Fica tranquila. Mesmo divorciada, a vó vai te arrumar uma saída. Tem muito rapaz bom nesse meio. Se tiver alguém que combine com você, a vó resolve logo sua vida.

Susana engasgou.

Ela não esperava ouvir isso.

O divórcio nem tinha sido assinado e já estavam tentando arrumar compensação com outro homem?

… Não era cedo demais?

Mas também deixou nela um gosto difícil de nomear.

Então todo mundo sempre soube o quanto esse casamento era podre por dentro.

Só escolheram fingir que não viam, porque ela sempre cedia, sempre engolia, sempre aguentava.

Só que agora, não mais.

Ela desligou.

Olhou a hora, já tinha passado dez minutos.

Ela pensou se Vinícius e a namorada já tinham terminado aquela doçura toda.

Ela só queria pegar o livro e ir embora.

Ela ia subir para pedir que ele terminasse logo, quando a porta foi empurrada com força.

Paulina Chaves entrou a passos largos, com uma expressão péssima, e parou na frente de Susana.

Ela levantou a mão para dar um tapa.

Susana reagiu rápido e recuou meio passo.

A mão de Paulina não pegou em cheio, mas os dedos rasparam o rosto de Susana.

O estalo ecoou.

A bochecha de Susana ficou dormente.

Paulina apontou para ela e xingou:

— Susana, você ficou cega de ciúme? O que você ganha virando uma mulher ressentida que, por estar infeliz, quer afundar todo mundo junto?

Susana ainda estava tentando entender o que tinha acabado de acontecer, sem tempo para discutir com Paulina.

Ela ouviu passos.

Quando virou o rosto, viu Vinícius descendo, e a chamada de vídeo ainda estava acesa na mão dele.

Susana viu, com os próprios olhos, Yasmin na tela olhando para ela, e soltando uma risada.
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