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Capítulo 3

Author: Tiny
Desde os dezoito anos, eu aguardava ansiosamente o dia em que me casaria com Miguel.

Mesmo tendo decidido cancelar o noivado, um sentimento construído ao longo de tantos anos não era algo que dava para cortar de uma hora para outra.

Eu estava prestes a falar quando vi o portão sendo empurrado.

Luana entrou às pressas, chorando:

— Presidente Miguel, o vestido de noiva da Clara sujou durante o transporte. Amanhã já é o casamento... o que a gente vai fazer?

Miguel não suportava ver Luana chorar.

Com pena, puxou ela para os braços:

— Se sujou, troca por outro. Não é nada demais.

— Por coincidência, escolhi um modelo mais sóbrio para a Clara. Não sei se ela vai gostar.

Olhei para o vestido que ela segurava. O tecido era de má qualidade, caía frouxo, sem forma.

Não resisti e ironizei:

— Isso é vestido de noiva ou roupa de luto?

Encostada nos braços de Miguel, o rosto de Luana foi perdendo a cor aos poucos:

— A culpa é minha. Eu não devia ter tomado a iniciativa de trocar o vestido. Fique tranquila, mesmo que eu machuque os dedos de tanto esfregar, hoje à noite eu lavo tudo e deixo limpo.

Miguel gritou de forma ríspida:

— Chega!

Ele voltou o olhar para mim, frio como gelo:

— Eu já cumpri a promessa de me casar com você. Agora ainda vai implicar com a Luana por causa de um vestido?

O tom dele vinha carregado de falsa retidão, como se quem tivesse sujado o vestido fosse eu.

A última esperança que ainda ardia dentro de mim foi esmagada naquele instante.

Sorri com constrangimento para os pais de Miguel:

— Hoje eu não vou conseguir ficar para o jantar.

Joaquim explodiu de raiva e deu um tapa forte no rosto de Miguel:

— Se você continuar se envolvendo com essa Luana, tudo o que é do Grupo Borges não vai ter mais nada a ver com você!

Miguel encarou o pai com frieza:

— Se não fosse pelo Grupo Borges, você acha que eu precisaria me casar?

Meu peito doeu.

Então, fazia tempo que Miguel já não queria mais se casar comigo.

Luana avançou chorando:

— A culpa é toda minha. Eu vou embora, está bem? Não briguem por minha causa.

Essas palavras só despertaram ainda mais o instinto de proteção de Miguel.

Eu já me preparava para sair quando, sem querer, notei a pulseira no pulso de Luana.

Num impulso, avancei para questionar:

— De onde saiu essa pulseira?!

Antes que eu me aproximasse, Miguel me puxou com força.

Minha cintura bateu na mesa, e a sopa se espalhou pelo meu corpo.

Ele fez uma pausa, o rosto tão sombrio que parecia prestes a pingar água:

— É só uma pulseira. Precisa mesmo fazer esse escândalo todo?

Naquele instante, tudo ficou claro para mim:

— Foi você que tirou do meu porta-joias para dar a ela?

Um lampejo de hesitação passou pelos olhos de Miguel, mas logo ele se colocou firmemente à frente de Luana:

— Isso sempre foi coisa da minha família. Para quem eu dou não tem nada a ver com você.

Olhei para Miguel por um longo tempo, tomada pela decepção.

Estella estava furiosa. Apontou o dedo para o nariz dele e o repreendeu:

— Seu ingrato! Essa pulseira passa na nossa família de nora para nora. Como você pôde dar isso a uma estranha?

Miguel sabia muito bem o que aquela pulseira significava.

Encarei o olhar silencioso de Miguel e, de repente, sorri:

— Já que a Luana gosta tanto, então deixa com ela.

Miguel entrou em pânico e agarrou meu braço com urgência:

— O que você quer dizer com isso?

Ao lado, Luana começou a chorar enquanto tentava tirar a pulseira:

— Eu devolvo para você, está bem? Não fica brava, por favor.

Ela se moveu rápido demais, e o pulso ficou marcado por um vergão vermelho.

Miguel correu até ela, segurou a mão dela com força, cheio de cuidado.

Quando voltou o olhar para mim, ele estava tomado por um desprezo absoluto:

— A Luana é muito mais sensata do que você. Se não fosse pelo seu investimento, você acha mesmo que eu me casaria com uma mulher como você?

Olhei para a pulseira, ainda firme no pulso de Luana, e, de repente, senti um cansaço profundo.
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