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Capítulo 2

Author: Amélia Duarte
O modo como ele me olhava era o mesmo de quem encara uma desconhecida. Aquilo me fez lembrar da crueldade com que, na vida passada, ele me obrigou a sair daquele casamento de mãos vazias.

Depois de comer uma fatia de pão, me levantei:

— Já estou satisfeita. Tenho aula na faculdade, então vou indo.

Leonor disse:

— Com tanta pressa? Você nem tomou o leite...

— Não vai dar tempo.

Peguei a mochila e praticamente fugi porta afora. Passei o dia inteiro na biblioteca, pesquisando sobre intercâmbios e preenchendo formulários de inscrição.

Na vida passada, abri mão da oportunidade de estudar no exterior para ficar ao lado de Afonso. Nesta vida, eu iria para muito, muito longe. Desta vez, viveria por mim mesma.

À noite, eu pretendia dormir no alojamento da faculdade, mas Leonor me ligou.

— Daniela, venha jantar em casa. Tenho uma notícia importantíssima para te contar!

Quando cheguei, foi Afonso quem abriu a porta. Ao me ver, franziu a testa:

— Por que você voltou?

Era evidente que não tinha sido ele quem havia pedido que eu voltasse.

— Leonor disse que tinha algo para contar. — Respondi em voz baixa.

Leonor pôs a cabeça para fora da cozinha:

— Você chegou! — Ela me fez sentar no sofá e colocou o controle remoto na minha mão. — Assista à televisão. O jantar vai ficar pronto rapidinho!

Afonso estava na cozinha ajudando. Pela porta de vidro, vi quando ele abaixou a cabeça para ouvir o que Leonor dizia. Um leve sorriso surgiu em seus lábios, e seu olhar estava repleto de ternura.

Ele também já havia cozinhado para mim. Quando tive febre, passou a noite inteira ao meu lado e, pela manhã, preparou meu café da manhã. No meu aniversário, cancelou seus compromissos e voltou para casa para preparar uma mesa inteira de pratos para mim.

— No que você está pensando? — Ao perceber que eu estava distraída, Leonor empurrou Afonso para fora da cozinha. — Vá conversar com a Daniela. Só falta a sopa. Eu termino sozinha.

Sem alternativa, Afonso enxugou as mãos e se sentou em uma poltrona posicionada na diagonal em relação a mim, mantendo uma boa distância.

O silêncio foi se instalando entre nós. Na televisão, passava um programa de variedades sem graça, e as risadas da plateia soavam especialmente irritantes.

— Daniela. — Chamou Afonso de repente.

Olhei para ele. Seu olhar estava fixo em mim, profundo e carregado:

— Se concentre nos estudos, mantenha os pés no chão e não fique alimentando ideias que não deveria ter.

Senti o coração se apertar.

Ideias que eu não deveria ter. Para ele, o que eu sentia era exatamente isso: algo que jamais deveria existir.

Na vida passada, quando encontrou meu diário, ele disse:

— Daniela Monteiro, você me dá nojo.

Ele achava que eu tinha tentado destruir o relacionamento deles de propósito, que eu era gananciosa e nunca me contentava com o que tinha. Mas eu apenas gostava dele. Nunca tinha dito nada a Leonor com a intenção de prejudicar os dois.

Ele não acreditou em mim.

— Entendi. — Ouvi minha própria voz responder com calma. — Não vou fazer isso.

Durante o jantar, com as bochechas coradas, Leonor anunciou:

— Afonso me pediu em casamento hoje!

Ela estendeu a mão esquerda, e o anel de diamante em seu dedo anelar cintilou sob a luz.

— Parabéns. — Sorri sinceramente. — Afonso, Leonor, desejo toda a felicidade do mundo a vocês.

A mão de Afonso, que segurava os talheres, parou por um instante. Ele ergueu os olhos para mim.

Baixei a cabeça e continuei comendo, fingindo não perceber. Depois do jantar, tomei a iniciativa de recolher a louça.

Da sala vinham risadas abafadas. Leonor falava sobre suas ideias para o casamento, enquanto Afonso respondia em voz baixa, com toda a paciência do mundo.

Depois de lavar a louça, sequei as mãos e estava prestes a sair para avisar que precisava voltar à faculdade por causa de um assunto.

Eu tinha acabado de chegar à porta da sala quando ouvi a voz de Afonso:

— Quando ela se formar, é melhor que se mude. Posso comprar um apartamento para ela perto da faculdade. Não é conveniente uma garota continuar morando conosco o tempo todo.

Leonor discordou:

— Mas não é perigoso demais a Daniela morar sozinha? Além disso, vocês são irmãos. Qual é o problema de morarem juntos?

A voz de Afonso permaneceu indiferente:

— Ela já cresceu. Está na hora de ter a própria vida. E nós também precisamos de um pouco de privacidade como casal.

Fiquei paralisada por alguns segundos. Não queria ouvir mais nada. Dei meia-volta, subi as escadas em silêncio, peguei minha bolsa e fui embora.

Só depois de já estar longe de casa mandei uma mensagem para Leonor:

[Leonor, surgiu um imprevisto na faculdade e precisei voltar. Boa noite.]

Respirei fundo. Talvez sair de casa fosse mesmo o melhor. Quanto mais longe eu estivesse, mais segura estaria.

Três dias depois, enquanto fazia pesquisas na biblioteca, de repente, me lembrei de uma coisa.

Na vida passada, Leonor morreu de câncer nos ossos. Quando a doença foi descoberta, já estava em estágio avançado. Isso significava que, naquele momento, talvez já houvesse células cancerígenas no corpo dela.

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