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Capítulo 3

Author: Amélia Duarte
Levantei de repente e derrubei a cadeira, chamando a atenção de todos ao redor. Sem sequer parar para pedir desculpas, saí correndo da biblioteca enquanto ligava para Leonor.

— Leonor, você está livre esta tarde? Quero te pagar um café.

Na cafeteria, quando Leonor ouviu que eu queria que ela me acompanhasse para fazer alguns exames, não conseguiu conter o riso:

— Daniela, por que essa vontade repentina de fazer exames? Você não está se sentindo bem?

Inventei uma desculpa:

— É uma exigência da faculdade. Tenho medo de ir sozinha. Você pode ir comigo?

Leonor me lançou um olhar desconfiado:

— Sério?

Fiz o possível para parecer sincera:

— Sério. Eu também gostaria que você fizesse os exames. Podemos considerar isso como... uns exames pré-nupciais? Afinal, você vai se casar com meu irmão.

Leonor corou e me repreendeu, sem conseguir esconder a vergonha:

— Ah, Daniela...

Nesse momento, o celular dela tocou. Era Afonso.

— Onde você está?

— Tomando café com a Daniela.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha:

— Volte cedo.

Depois de desligar, Leonor riu dele:

— Ele é grudento demais.

Forcei um sorriso e, usando uma aula na faculdade como desculpa, combinei de encontrá-la no fim de semana.

Mal cheguei ao portão da faculdade, vi o carro de Afonso parado ali. Ele desceu, agarrou meu pulso e me arrastou para um canto junto ao muro.

Antes que eu pudesse reagir, ele me soltou com violência. Perdi o equilíbrio e caí no chão.

Uma ardência intensa tomou conta dos meus joelhos e cotovelos. Ao olhar para baixo, vi a pele esfolada e pequenas gotas de sangue começando a brotar.

Ele me encarou de cima, com um olhar tão frio quanto gelo.

— Daniela, estou te avisando: fique longe da Leonor. Não volte a dizer ou fazer nada que não deva.

Me apoiei nos braços para me levantar e disse, com a voz ligeiramente trêmula:

— Eu não fiz nada. Só queria que ela me acompanhasse para fazer uns exames.

Ele hesitou por um instante:

— Você está doente?

A pergunta lhe escapou quase por impulso.

Fiquei surpresa por um momento e balancei a cabeça:

— Não. É uma exigência da faculdade.

Ele ficou me encarando por um longo tempo, e sua expressão foi mudando aos poucos. Era como se tivesse se lembrado de alguma coisa ou talvez estivesse tentando confirmar uma suspeita.

Depois de alguns instantes, ele se agachou e examinou o ferimento no meu joelho.

— Entre no carro.

Ele me levou a uma farmácia para comprar iodopovidona e gaze e, depois, se agachou à beira da rua para cuidar dos meus ferimentos.

Seus movimentos não eram exatamente delicados, mas eram cuidadosos. Quando falou, sua voz ficou mais suave:

— Neste fim de semana, vou levar vocês duas para fazer os exames.

Baixei a cabeça e fiquei olhando para a ponta dos meus sapatos, com a visão embaçada.

No dia em que os resultados ficaram prontos, Leonor chorou tanto que seu corpo inteiro tremia. Câncer ósseo em estágio inicial.

O médico disse:

— Descobrimos a doença bem no início. As chances de cura são altas.

Afonso abraçou Leonor, que ainda tremia com o susto.

Com os olhos vermelhos, Leonor olhou para mim:

— Daniela, obrigada... Obrigada mesmo.

Balancei a cabeça e dei leves tapinhas em suas costas. Por cima do ombro de Leonor, o olhar de Afonso encontrou o meu.

Havia uma intensidade inexplicável em seu olhar. Me lembrei do dia em que Leonor morreu na minha vida anterior. Chovia torrencialmente.

Quando Afonso descobriu que ela havia partido de vez, sabendo da noite que nós dois passamos juntos, ficou diante do túmulo dela durante um dia inteiro, completamente encharcado pela chuva.

Ao voltar para casa, destruiu tudo o que conseguiu quebrar. Então encontrou o diário que eu havia escondido no fundo da última gaveta. A partir daquele momento, ele se convenceu de que eu tinha contado tudo a Leonor de propósito.

Tentei explicar, mas ele não acreditou. Se divorciou de mim, fez com que eu saísse daquele casamento de mãos vazias e ainda garantiu que eu não conseguisse emprego em lugar nenhum. No fim, morri doente em um apartamento alugado, sem ninguém ao meu lado.

Agora, ainda havia tempo de mudar tudo. Leonor viveria, e Afonso não teria motivos para me culpar no futuro.

E eu iria embora. Finalmente, o peso que eu carregava no coração ia desaparecer.

Quando saímos do hospital, o sol já estava se pondo. Afonso foi resolver os trâmites da internação, enquanto Leonor e eu ficamos sentadas no saguão esperando.

Leonor encostou a cabeça no meu ombro e murmurou:

— Daniela, estou com medo.

Dei leves tapinhas em sua mão:

— Não tenha medo. Meu irmão está aqui. Ele vai ficar ao seu lado o tempo todo.

Leonor foi internada. A cirurgia foi um sucesso, e o próximo passo seria a quimioterapia. Afonso cancelou todos os compromissos de trabalho e passou a ficar com ela no hospital todos os dias.

Eu dividia meu tempo entre a faculdade e o hospital e, ao mesmo tempo, precisava preparar toda a documentação para estudar no exterior. Mal tinha tempo para descansar. Naquele dia, quando voltei do hospital para casa, Afonso me chamou.

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