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Capítulo 4

Author: Amélia Duarte
— Daniela.

Parei e me virei para ele.

Ele estendeu uma chave para mim:

— Comprei um apartamento perto da sua faculdade. Tem dois quartos e uma sala, e já está todo reformado. Você deve se mudar para lá o quanto antes.

Fiquei imóvel por um instante, mas logo peguei a chave e assenti:

— Está bem.

Não fiz nenhuma pergunta, nem hesitei. Afonso me observou, como se tentasse encontrar alguma reação em meu rosto, mas eu apenas guardei a chave com tranquilidade e subi.

No dia seguinte, comecei a arrumar minhas coisas. Pretendia doar a maior parte delas ou simplesmente jogá-las fora.

No apartamento novo, eu compraria tudo de novo e começaria uma nova vida. Eu chegava em casa cada vez mais tarde e quase nunca me sentava à mesa na hora das refeições.

A cada dia, havia menos coisas no meu quarto. A estante ficou vazia, o guarda-roupa também, e sobre a penteadeira restava apenas uma solitária caixa de joias.

Naquela noite, só cheguei em casa depois das dez. Afonso estava sentado no sofá da sala, no escuro.

Na penumbra, a ponta do cigarro se acendia e se apagava.

— Está tarde. — A voz dele soou fria. — Onde você estava?

Hesitei por um instante enquanto trocava os sapatos:

— Tive algumas coisas para resolver na faculdade. — Assim que terminei, fui direto para o meu quarto.

Atrás de mim, ouvi o som seco de um copo sendo colocado sobre a mesa.

A quimioterapia de Leonor ocorreu muito bem. Três meses depois, o médico disse que ela estava se recuperando e já podia voltar para casa, desde que continuasse fazendo os exames de acompanhamento regularmente.

Eu também fui ao hospital no dia da alta. Leonor havia emagrecido bastante, mas estava muito bem-disposta.

Afonso foi resolver os documentos da alta, enquanto Leonor e eu esperávamos no quarto.

— Daniela. — Disse Leonor de repente. — Você e o Afonso... Brigaram?

Fiquei surpresa.

Leonor suspirou:

— Ultimamente, ele anda de péssimo humor. Até o pessoal da empresa o evita quando o vê chegando.

Não respondi.

Leonor segurou minha mão:

— Eu sei que ele mandou você se mudar. Já dei uma bronca nele por causa disso. Não se preocupe. Enquanto eu estiver aqui, aquela casa sempre será sua também.

Apertei a mão dela de volta e falei com toda a seriedade:

— Leonor, eu já cresci. Está na hora de ter a minha própria vida. Além disso, já estou providenciando tudo para estudar fora. Talvez eu vá embora no ano que vem.

Leonor arregalou os olhos:

— Para fora do país? Para onde? Por quanto tempo?

— Para a Inglaterra, fazer uma pós-graduação. Talvez dois ou três anos.

Os olhos de Leonor voltaram a ficar vermelhos:

— Então... Tão longe de casa e sozinha, você precisa se cuidar muito bem. E, se acontecer qualquer coisa, tem que nos contar, entendeu?

— Está bem.

Leonor enxugou os olhos e, de repente, abriu um sorriso:

— Daniela, vou apresentar um amigo meu para você. Ele trabalha com arquitetura e é uma pessoa maravilhosa.

Balancei a cabeça:

— Não precisa.

— Como assim, não precisa? Você é tão sozinha.

Hesitei por um instante, mas acabei dizendo a verdade:

— Na verdade... Já estou conhecendo alguém.

— O quê? — Leonor arregalou os olhos.

— Nós nos conhecemos enquanto eu resolvia a documentação para estudar fora. Estamos pensando em nos candidatar à mesma universidade.

Os olhos de Leonor brilharam, e ela bateu palmas:

— Que maravilha! Preciso contar para o seu irmão! Primeiro, vamos ter que investigar esse rapaz direitinho. Não podemos deixar ninguém enganar você!

— Não precisa... — Tentei impedi-la, mas ela já havia pegado o celular. — Ah, ele voltou. — Leonor largou o celular e olhou para a porta.

Afonso entrou, trazendo nas mãos os documentos da alta. Ao ver nossas mãos entrelaçadas, seu olhar escureceu.

— Sobre o que vocês estão conversando para ficarem tão animadas? — Ele se aproximou e passou o braço pelos ombros de Leonor com naturalidade.

Leonor ergueu o rosto para ele e disse, com os olhos brilhando:

— Eu estava dizendo que queria apresentar alguém para a Daniela. Adivinha o que aconteceu?

Ele lançou um olhar para mim e respondeu com convicção:

— Ela recusou, claro.

— Exatamente. Não aceitou.

Ele respondeu, indiferente:

— Desde pequena, ela vive grudada em mim. Nem quis morar na residência universitária. Você acha mesmo que ela vai querer namorar alguém?

Leonor sorriu ao responder:

— Só que ela disse que já está conhecendo alguém e que ainda pretende ir estudar fora com ele!

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