Quando a Família Moretti me encontrou depois que escapei da festa, Walter, o mordomo, e eu já estávamos nos dando bem como velhos amigos.
Walter claramente tinha decidido que gostava de mim.
— Poppy diz que vai me ajudar a abrir um bar esportivo depois que eu me aposentar — anunciou ele.
A expressão da minha mãe ficou sombria. Ela me arrastou até o quarto de hóspedes e trancou a porta pelo lado de fora.
Não havia televisão, rádio nem ninguém mais no quarto. Depois de três minutos, minha pele começou a formigar. Depois de cinco, liguei para o serviço de atendimento ao cliente de um hotel.
— Obrigada por ligar. Como posso ajudá-la?
No momento em que alguém atendeu, consegui respirar novamente.
— Nada urgente. Só queria ter certeza de que você está tendo um bom dia.
A atendente fez uma pausa.
— Senhora, está tentando reservar um quarto?
— Não, mas você parece cansada. Teve algum cliente difícil hoje?
— Senhora...
— Você está de folga no fim de semana? Tem algum plano?
Meia hora depois, eu sabia que ela tinha um cachorro chamado Milo. Ela me pediu educadamente que encerrasse a ligação e desse cinco estrelas a ela caso recebesse uma pesquisa de satisfação.
Na manhã seguinte, mamãe me levou de carro até a St. Augustine Academy, uma escola particular de elite amplamente financiada pela Família Moretti. Antes que eu saísse do carro, ela segurou minha mão e repetiu seu aviso.
— Seja discreta, Poppy. Os alunos daqui vêm de famílias influentes. Você não pode conhecer alguém por cinco minutos e agir como se conhecesse essa pessoa há dez anos.
Assenti solenemente.
No meu primeiro minuto no campus, já tinha ajudado Frank, o responsável pelo portão, a montar sua escala do fantasy football. No terceiro, eu e o coordenador dos alunos havíamos concordado que o marido mencionado no nosso podcast favorito de crimes reais estava mentindo. No décimo, eu tinha reescrito o perfil de namoro do filho do gerente da cafeteria.
Meia hora depois, minha voz ecoou pelo sistema de som da escola.
— Testando. Todos conseguem me ouvir? Um aviso amigável: a cafeteria colocou cobertura em dobro nos rolinhos de canela de hoje. Atletas em treinamento devem se aproximar com cautela, e quem estiver controlando o nível de açúcar no sangue não deve confiar no cheiro.
A escola explodiu.
Quando saí da sala de transmissão, uma multidão me seguiu. Alguns queriam saber o cardápio secreto da cafeteria. Outros me convidaram para o treino de vôlei ou pediram que eu entregasse mensagens para o Homecoming. Bianca estava no meio do corredor, ficando cada vez mais pálida.
A garota ao lado dela acenou para mim.
— Poppy, quer comer alguma coisa com a gente depois da escola?
Os olhos de Bianca se encheram de lágrimas.
— Ela é minha melhor amiga.
Entendi imediatamente.
— Ótimo. Então nós três podemos ir.
Apontei para as duas.
— Vocês duas podem decidir para onde vamos, e eu vou garantir que a viagem nunca fique constrangedora.
A outra garota caiu na gargalhada.
Bianca saiu correndo, chorando.
Naquela noite, os Moretti realizaram sua primeira reunião familiar sobre mim. Luca colocou uma pilha de registros impressos das redes sociais sobre a mesa.
— Você adicionou mais de quatrocentos contatos no seu primeiro dia. Considera isso normal?
Olhei para as páginas.
— Estão faltando três.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— O diretor da escola, a enfermeira e o dono do caminhão de tacos em frente ao portão principal.
Folheei a pilha.
— O pessoal de vocês não foi minucioso o suficiente.
Luca ficou me encarando, sem palavras.
Bianca estava sentada ao lado da mamãe, com os ombros tremendo.
— Ela sabia que eles eram meus amigos, mas se aproximou deles mesmo assim. Ela não está tentando se enturmar. Quer provar que todos gostam mais dela.
— Não estou tentando tirar ninguém de você — falei rapidamente. — Amigos não têm lugares marcados. Eu não faço você se levantar só porque me sentei.
Bianca chorou ainda mais. Mamãe massageou as têmporas.
— Poppy, você realmente precisa mudar esse hábito.
Meu sorriso desapareceu.
— Eu só gosto de conversar com as pessoas.
— Você não gosta apenas de conversar — disse Luca. — Você não consegue tolerar um único momento em que não seja o centro da atenção de alguém.
Ele empurrou um plano impresso na minha direção. O título dizia: "Protocolo de Silêncio Social de 72 Horas".
A partir das oito da manhã seguinte, nenhum aluno, professor ou funcionário da St. Augustine falaria comigo. Minhas mensagens seriam filtradas pelo sistema de comunicação da escola. Ninguém deveria atender às minhas ligações ou reconhecer minha presença pessoalmente.
Levantei os olhos.
— Isso não é terapia. Vocês estão ordenando que uma escola inteira me isole.
— É uma intervenção comportamental — corrigiu Luca. — A administração aprovou.
A St. Augustine recebia milhões da Família Moretti. Luca era o herdeiro de Don Lorenzo e o representante da família no conselho escolar. Ninguém iria desafiá-lo por causa de uma garota de um lar adotivo que tinha chegado no dia anterior.
Voltei a olhar para o documento.
— Ninguém na escola inteira pode falar comigo?
— Correto.
— Nem uma palavra?
A expressão dele não mudou.
— São setenta e duas horas. Você não vai morrer porque ninguém responde a você.
Segurei a manga da mamãe, mas ela evitou meus olhos.
— Estamos tentando ajudar você, Poppy. Depois que passar por esses três dias, você aprenderá a ficar sozinha. Não vai depender tanto da atenção das outras pessoas.
Soltei lentamente a manga dela e programei uma contagem regressiva de setenta e duas horas no meu celular.
Antes que cada uma das minhas sete famílias adotivas decidisse me mandar embora, suas casas também ficavam silenciosas. Elas paravam de responder às minhas perguntas. Paravam de olhar para mim. Nunca me diziam o que eu tinha feito de errado. Normalmente, três dias depois, eu precisava arrumar minhas malas.
Era por isso que ser ignorada me aterrorizava mais do que eu gostaria de admitir.
Mas a decisão deles não era minha. Às oito da manhã seguinte, o anúncio foi transmitido por toda a St. Augustine. Todas as conversas no corredor pararam.
Fiquei parada no meio da multidão enquanto todos tiravam seus celulares e me bloqueavam na minha frente.