No sonho, a fechadura fazia o mesmo som. Um estalo seco, pequeno demais para ser ameaça, claro demais para ser esquecido. Clara estava outra vez no quarto de Silas Freire. Não havia cama de Monteluz, nem cortinas pesadas, nem lençóis limpos cheirando a sabão e lavanda. Havia apenas a parede úmida, a janela alta pregada por fora, a cadeira manca junto ao canto e o cheiro de mofo misturado a charuto velho. Um cheiro grosso, preso na garganta, como se o ar tivesse sido usado por gente demais antes dela. Ela sabia que era sonho. E, ainda assim, não conseguia acordar. O corredor do lado de fora tinha passos. Primeiro distantes. Depois mais próximos. Lentos, medidos, quase educados. Clara se levantou dentro do sonho e tentou empurrar a cama contra a porta, mas a cama não se movia. Tentou gritar, mas a voz ficou presa na boca. Tentou lembrar que Silas não estava em Monteluz, que havia paredes de pedra, portões reforçados, homens armados, Dona Beatriz, Gabriel, o contrato, o jardim,
Última atualização : 2026-08-15 Ler mais