CAPÍTULO 77 — O ÚLTIMO FANTASMA E A VOZ DO MUNDO Helena A manhã de terça-feira no Fórum João Mendes, no centro histórico de São Paulo, exibia a solenidade pesada dos palácios da justiça. O mármore cinzento do chão, gasto por décadas de litígios e tragédias humanas, refletia os passos silenciosos da nossa comitiva enquanto avançávamos pela ala reservada da Vara de Família e Sucessões. Ao meu lado, Camila mantinha uma pasta de couro preta debaixo do braço, enquanto o doutor Vasconcelos, nosso decano dos assuntos jurídicos, conferia pela última vez os termos da petição irrevogável que seria protocolada perante o juiz corregedor das execuções penais do Estado. Rafael vinha logo atrás, vestindo terno cinza-grafite sem gravata, a camisa branca com o colarinho entreaberto. A postura dele era reta, firme, e as marcas da agressão na face haviam se tornado apenas uma linha esbranquiçada e discreta perto do supercílio. A cicatriz não diminuía o homem; conferia-lhe a gravidade serena de quem
Last Updated : 2026-10-03 Read more