Eu encarava meu próprio reflexo no espelho do quarto, abotoando os botões da camisa social azul-marinho. Tecido pesado, corte ajustado nos ombros. Por cima, vesti o paletó preto e ajeitei a calça de alfaiataria escura, finalizando com os sapatos sociais. Curvei o corpo sobre a bancada, passei a mão pelos cabelos ainda levemente úmidos e borrifei um pouco do perfume no pescoço. Peguei a gravata preta sobre a cama, cheguei a alinhá-la sob o colarinho, mas desisti. Não estava com paciência para formalidades sufocantes. Tirei a gravata, joguei-a de qualquer jeito na poltrona e abri o primeiro botão da camisa, soltando o ar devagar. Minha cabeça ainda teimava em voltar para a cena da cozinha, minutos atrás. Lívia de joelhos, tentando juntar os estilhaços de vidro no chão. A gota de sangue vermelho pingando do dedo mindinho dela. Eu passei a vida inteira cercado por violência, vi homens agonizarem no asfalto e fiz Inimigos sangrarem sem piscar. Mas, por algum motivo absurdo e irritante, v
Last Updated : 2026-10-17 Read more