Crepúsculo
O meu marido sempre adorou me ver com ciúme.
Ele dizia que, quanto mais eu me incomodava ao ver sua melhor amiga perto dele, mais isso mostrava o quanto eu o amava.
Por isso, em todo aniversário de casamento, ele deixava a amiga de infância dele, Jaqueline, assumir por alguns dias o meu lugar como "Sra. Coelho".
Depois, apostava com os amigos para ver quantos dias eu conseguiria suportar aquela humilhação.
No primeiro ano, Jaqueline vestiu o meu pijama, aninhou-se nos braços dele e tirou uma foto. Eu fiquei tão furiosa que tirei o pijama dela à força. Mas ele apenas me beijou e riu, dizendo que eu realmente não conseguia viver sem ele.
No segundo ano, ele entregou a suíte principal para ela e me mandou dormir no quarto de hóspedes. Eu fiquei do lado de fora da porta, com os olhos vermelhos de raiva, até ele finalmente abrir a porta e dizer que ela só passaria uma noite ali.
No ano passado, a levou para jantar na mansão da família Coelho, deixou que ela se sentasse no meu lugar e ainda permitiu que os pais dele a chamassem de nora.
Só quando eu me virei para ir embora, ele segurou o meu braço:
— Você vai mesmo implicar por causa de um título?
Mas, neste ano, eles passaram de todos os limites.
Jaqueline entrou na casa onde eu morava com Yago, arrastando uma mala. Em seguida, tirou um molho de chaves novas e, diante de todos os amigos dele, perguntou para mim:
— Yago me deixou experimentar por sete dias como é ser a Sra. Coelho. Você não vai ficar brava, vai?
Yago passou o braço pelos ombros dela, com os olhos cheios de expectativa, e disse:
— Se ela me ama de verdade, ela vai ficar com ciúme.
Todos ficaram esperando que eu chorasse e fizesse escândalo como nos anos anteriores, para que ele então sorrisse e anunciasse o fim da "brincadeira".
Mas, dessa vez, eu apenas voltei para o quarto e arrumei as minhas coisas.
Antes de sair, eu coloquei a aliança e a chave da casa juntas na mão de Yago:
— Sete dias é pouco. De agora em diante, o título de Sra. Coelho é dela.