ログインPOV: KONSTANTIN— Ricardo me pediu um beijo ontem — Alice disse. — E eu deixei.Eu estava olhando para ela quando ouvi a frase, mas, por um instante, deixei de reconhecer a sala. A mesa baixa, o copo de água, as joias que Alice havia tirado por minha causa: tudo permaneceu em seu lugar, perfeitamente comum, enquanto a imagem de Moretti tocando sua boca se formava com uma precisão que eu não tinha pedido.Alice não desviou os olhos. Parecia decidida a me fazer ouvir a verdade inteira.— Você quis beijá-lo? — perguntei.— Quis saber como seria. Ele perguntou, eu aceitei. Depois parei.A palavra perguntou me incomodou quase tanto quanto o resto. Moretti sempre teve talento para escolher o gesto que o colocaria na posição mais favorável. Eu o imaginava paciente na saída do restaurante, recuando ao primeiro sinal de hesitação, oferecendo a Alice a cortesia que ela precisara arrancar de mim à força.Apoiei a mão direita no braço da poltrona. A costela latejou quando inspirei fundo.— E gost
POV: ALICEAcordei antes do despertador e levei alguns segundos procurando a maçaneta com os olhos. Na redoma, a porta ficava à esquerda da cama. No hotel, havia um corredor curto, uma bancada com cafeteira e, perto da entrada, a sandália que eu tinha abandonado na noite anterior. Do lado de fora, alguém arrastava uma mala pelo carpete.Continuei deitada, ouvindo as rodinhas desaparecerem. Nenhuma das possibilidades daquele quarto resolvia o fato de que eu havia passado a noite pensando em um homem ferido do outro lado da cidade, enquanto todos se recusavam a me explicar a gravidade.A camisa dele havia escapado da cama. Recolhi-a do chão e a coloquei sobre a mala, ao lado do livro azul. Na mesa de cabeceira, os brincos de Ricardo e a pulseira de pedra azul dividiam espaço com a chave do quarto e o telefone, ainda aberto na fotografia da redoma.A imagem me incomodava mais à luz do dia. Aquela passagem não fazia parte das minhas caminhadas com Marta. Alguém conseguira fotografar um lu
POV: ALICEMarta entrou na redoma quando eu tentava fechar a mala sem amassar o livro azul. Trazia café com leite e uma expressão que me fez abandonar o zíper.— Aconteceu alguma coisa?— O doutor Leone esteve aqui durante a madrugada. O senhor Voronov está descansando.— Por causa das costelas?Ela pousou a bandeja, endireitou a alça da minha bolsa e demorou um pouco mais do que o necessário para responder.— Foi atendido, querida. Está acompanhado.Konstantin tinha deixado meu quarto na noite anterior sem tentar me convencer a ficar. Eu passara horas esperando ouvir sua voz do outro lado da porta, embora soubesse que teria ficado furiosa se ele aparecesse. Agora me descobria calculando quanto tempo levaria para chegar ao quarto dele.— Marta, aconteceu mais alguma coisa?— Mikhail pediu que você cumprisse seus planos. — Ela tocou de leve minha mão. — Deixe que cuidem dele.Comi uma torrada para não fazer outra pergunta. Adrian chegaria em poucos minutos, e eu havia lutado demais por
POV: KONSTANTINO advogado de Ricardo Moretti havia conseguido colocar meu nome em mais um documento que não dizia respeito a ele.Luca leu a parte referente à avaliação independente de Alice e deixou a última página sobre minha mesa. O pedido de transferência para o imóvel controlado por Moretti continuava sem qualquer autorização. Isso não impediu que seus representantes solicitassem a preservação dos registros da propriedade, incluindo imagens, entradas e saídas e as ordens dadas à segurança.— Ele está montando uma acusação — falei.— Ele está reunindo elementos para sustentar que Alice foi mantida aqui contra a vontade. A alegação é séria, Konstantin. E a maneira como ela chegou a esta casa não vai desaparecer porque hoje vocês têm uma relação diferente.Olhei para o jardim através da janela. Alice estava sentada perto da estufa, com uma caneca e o livro azul sobre os joelhos. Havia três dias que mal falava comigo, embora continuasse conversando com Luca, estudando quando consegu
POV: ALICERicardo escreveu outra vez, mas deixei o telefone sobre a mesa antes de descobrir o que pretendia fazer quando viesse me buscar. A fotografia continuava aberta no aparelho de Luca, e Konstantin, ainda vestido para o jantar que tinha interrompido, esperava uma resposta que eu já não conseguia oferecer.Ele tinha voltado. Eu precisava reconhecer isso. Também disse que Eva tentou beijá-lo e que ele não permitiu. Talvez fosse verdade, talvez a imagem tivesse sido escolhida justamente por mostrar o instante mais ambíguo de um cumprimento. Só que a discussão começou muito antes daquele carro. Passou pelo jantar marcado diante de mim, pela maneira como observou minhas mensagens com Ricardo e por todas as noites em que me fez esquecer, durante algumas horas, que continuava impedida de atravessar o portão.— Alice, podemos conversar em particular? — perguntou.Mikhail afastou discretamente uma cadeira, como se estivesse prestes a nos deixar sozinhos. Vi o gesto e senti um cansaço qu
POV: ALICERicardo Moretti.O nome dele permanecia na tela quando Konstantin pegou o telefone. Tinha a mão ferida apoiada na mesa e a outra apertava o aparelho enquanto chamava Mikhail ao escritório. Luca ampliou o registro da Vela Mercantile: não havia uma assinatura minha, mas Ricardo aparecia como representante autorizado de uma operação que eu tinha acabado de recusar.Eu conhecia aquele homem dos jantares de Vittorio, dos presentes de aniversário e de um concerto em que ele passou a noite tentando me fazer sorrir. Conhecia também o Ricardo que, semanas antes, pelo WhatsApp, admitiu desejar me beijar e imaginar uma vida comigo. Não conhecia o homem que podia aparecer num documento movimentando milhões em meu nome.— Vou perguntar o que significa — anunciei, pegando o telefone.Konstantin terminou a chamada e me encarou.— Primeiro precisamos saber que documento ele está usando.— E como pretende descobrir sem falar com ele?— Moretti sabe exatamente o que dizer para você baixar a







